Stupakoff, um devoto dionisíaco da beleza

Quando o fotógrafo Otto Stupakoff morreu, seis dias antes de completar 74 anos, em junho deste ano, o escritor e cronista do Estado Ignácio de Loyola Brandão, amigo de longa data, lembrou que era uma ironia um homem rodeado pelas pessoas mais incríveis durante a vida ter chegado ao fim sozinho, num flat, no Itaim. De fato, parece inexplicável que o primeiro fotógrafo de moda do Brasil, que registrou imagens de presidentes (Nixon), astros (Jack Nicholson), compositores (Tom Jobim), escritores (Truman Capote) e estrelas de cinema (Grace Kelly) tivesse morrido quase no ostracismo e pobre, isso depois de morar numa confortável casa de pedras vizinha à residência de Orson Welles na Normandia. O ?quase? fica por conta das homenagens que recebeu pouco antes de morrer, como um livro de fotos lançado pela Cosac Naify e uma exposição retrospectiva organizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio, aberta poucos dias antes de sua morte, a mesma que agora chega ao IMS de São Paulo, reunindo 70 das melhores fotos de Stupakoff.O instituto comprou o acervo fotográfico deste que foi pioneiro não só no registro de moda - trabalhando depois para a Vogue, Harper?s Bazaar e Elle - como um dos principais nomes do fotojornalismo brasileiro dos anos 1950 e 1960. Por essa época, antenado com o movimento de mudança do Brasil, que trocava a pele de país arcaico pela modernidade, Stupakoff acompanhou a construção de Brasília, a convite do presidente Juscelino Kubitschek, e flagrou na praia um dos criadores da bossa nova - é dele uma das melhores fotos de Tom Jobim, de 1957. Stupakoff era, então, como lembrou Loyola Brandão por ocasião de sua morte, "o máximo em fotografia de moda". Todo mundo queria um portrait feito por ele, escreveu o cronista, descrevendo o movimento incessante de celebridades por seu estúdio da Rua Frei Caneca, em São Paulo, onde nasceu.Alguns deles estão entre as 70 imagens selecionadas para a retrospectiva, que vem acompanhada por um novo livro sobre a obra de Stupakoff. É um acervo gigantesco de rostos - e não só de celebridades como o dramaturgo Tom Stoppard (Shakespeare Apaixonado) e Leonardo Cohen (o compositor de Hallelujah). Exemplo de fotojornalista dedicado, ele chegou a ser preso, interrogado e quase morto por soldados do Khmer Rouge, em 1994, ao fotografar as ruínas de Angkor Wat e os campos da morte nas selvas de Battabang. Foi para o Ártico quatro vezes, aprendendo com os inuítes a caçar focas com arpão e a construir um iglu. E ainda enfrentou Jack Nicholson num dia de péssimo humor, ao pedir para o astro posar num beco sujo, isso bem no começo da carreira do americano (1972, quando filmava com Bob Rafelson o desconcertante O Dia dos Loucos/The King of Marvin Gardens).Todo esse esforço valeu a Stupakoff elogios de colegas como Richard Avedon - seu mestre declarado - e Helmut Newton. O primeiro admirava o autorretrato que o fotógrafo fez ainda novo, dando uma das mãos a um dos filhos. Newton felicitou-o por um trabalho que ele mesmo deveria ter feito para Vogue. Solidário, Stupakoff sempre ajudou os amigos e também foi ajudado. Loyola Brandão, que foi editor da Vogue, lembra ter encomendado a ele um editorial de moda que Stupakoff teria executado de "maneira magistral". Mas, na hora de produzir as fotos, a cabeça do fotógrafo falhou. "Era o princípio do Alzheimer se manifestando", escreveu o colunista ao saber de sua morte, contando como o fotógrafo Bob Wolfenson entrou em cena para executar o projeto, entregando as fotos para que Otto as assinasse.É o mesmo Wolfenson o autor do texto de apresentação do livro Sequências (IMS, 216 págs., R$ 62) que acompanha a mostra e traz três depoimentos de Otto Stupakoff sobre seu trabalho, marcado tanto pela influência de Avedon como pela pintura de Balthus, que adorava. Esteta irrecuperável, ele receitava o convívio diário com a beleza para enfrentar o horror do mundo, contribuindo como podia para o tornar suportável. Isso fica claro no olhar compassivo que ele dirige a seus modelos - e particularmente numa foto do escritor Truman Capote (1924-1984), flagrado em sua casa segurando um peso de papel, alguns meses após a separação de seu parceiro, o também escritor e dramaturgo Jack Dunphy (1914-1992), com quem viveu durante 35 anos. Stupakoff capta o gesto inseguro de Capote segurar o peso como se construísse uma metáfora visual do fim do relacionamento. Ele sabia o que isso significava. Foi casado por três vezes, uma delas durante nove anos com uma linda mulher, miss Universo 1966, a sueca Margareta Arvidsson, mãe de dois dos seus seis filhos.Homem sensual, Stupakoff viveu, segundo Bob Wolfenson, como um devoto dionisíaco da beleza. "Eternizar temas aparentemente tão díspares como moda, retratos de esquimós, indianos, tailandesas e cenas de rua" traduzem, segundo o amigo, um olhar que exaure todas as possibilidades do encontro. É um olhar dirigido ao outro - erótico na medida em que tenta captar a exuberância da vida no momento de plenitude de seus modelos e tanatológico quando vai a lugares miseráveis. E fez isso não só com imagens. Seus três textos inéditos incluídos no livro revelam sua visão de lugares como a Amazônia e a Índia, além de narrar um reencontro com uma amiga em Praga. O livro Sequências traz as últimas fotos de Stupakoff em vida, tiradas por outro grande retratista, Juan Esteves. É uma prova que suas lições foram aprendidas por quem tem bons olhos para ver.ServiçoOtto Stupakoff - Fotografias. IMS. Rua Piauí, 844, 1.º andar, tel. 3825-2560. 13 h/19 h (sáb. até 18 h; fecha na 2.ª). Até o dia 22/11. Abertura hoje, às 19 horas, apenas para convidados

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