Mário Cravo Neto
Mário Cravo Neto

SP-Foto reavalia o que foi o fotoclubismo

Com a revelação de fotógrafos experimentais modernos, feira online começa hoje e vai até dia 29

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00

Em 1939 foi criada em São Paulo uma associação que se tornou referência do fotoclubismo brasileiro, o Foto Clube Bandeirante, lembrado pelo menos por quatro das 50 galerias participantes da feira online SP-Foto Viewing Room, que começa hoje e vai até o dia 29: são elas as galerias Almeida & Dale, Isabel Amado (em parceria com Luciana Brito) e a Utópica, que, inclusive, está com uma exposição online (Três Autores do Sexo Fraco) com fotos excepcionais de três mulheres ligadas ao Bandeirante (Alice Kanji, Annemarie Heinrich e Dulce Carneiro).

Não é difícil explicar a razão de serem nomes pouco conhecidos quando comparados aos artistas que o Foto Clube Bandeirante revelou – só para citar três dos maiores, Geraldo de Barros (1923-1988), German Lorca (1922) e Thomas Farkas (1924-2011), todos com fotos à venda na feira online. O clube não era o do Bolinha, mas as mulheres, vivendo numa época de franco chauvinismo, tiveram dificuldades para se impor entre os pioneiros da moderna fotografia brasileira. E não só elas. Também os fotógrafos amadores de origem humilde eram estranhos no ninho de uma associação de aficionados de classe média e alta, reunidos em torno de uma loja de material fotográfico no centro de São Paulo, embrião do Bandeirante, que, em 1942, promoveu seu primeiro Salão de Fotografia.

German Lorca, entre esses pioneiros, era oriundo de outro meio social (exercia a profissão de contador). Como ele, cita o curador Iatã Canabrava, faziam parte do clube outros fotógrafos de baixo poder aquisitivo que, ainda assim, contribuíram para a evolução da moderna fotografia brasileira. Canabrava selecionou para a mostra virtual da Galeria Almeida & Dale na feira online imagens de fotógrafos que pouca gente conhece ou ainda não viraram febre entre os colecionadores de imagens vintage, dispostos a desembolsar algo em torno de R$ 50 mil por uma foto dos consagrados.

“É impressionante o caso, por exemplo, do fotógrafo Antonio S. Victor, que ingressou no Foto Clube Bandeirante em 1945 e imediatamente despontou nos boletins e salões como um fotógrafo com o olhar voltado para a arquitetura e a cidade”, conta Canabrava. Victor era operário e afrodescendente, chegou a dar aulas de cinema no próprio Bandeirante e a participar de salões internacionais. O curador cita ainda dois outros nomes que, apesar de reconhecidos por seus pares (e até por críticos), caíram no esquecimento: a bióloga Bárbara Mors, que ingressou no Clube em 1948, aos 23 anos, e Armando de Moraes Barros, um dos primeiros a aderir à fotografia abstrata quando entrou no Bandeirante, aos 27 anos, em 1950.

“A imagem de Armando Moraes Barros que está mostra (a foto de uma queimada) deixa claro que sua fotografia, em 1959, ainda mantinha a responsabilidade documental que ele assumiu em seu trabalho mesmo passeando pelos campos do abstracionismo”, observa o curador Iatã Canabrava.

Entre os projetos independentes que participam da SP-Foto Viewing Room estão a 01.01 Art Platform e Levante Nacional Trovoa, ambos de São Paulo, além do estreante internacional MFON: Women Photographers of the African Diaspora, de Nova York, coletivo que serve como porta-voz de mulheres afrodescendentes, e também a Piscina Art, de São Paulo, plataforma brasileira que destaca o trabalho de artistas mulheres. O Centro Cultural Veras, de Florianópolis, espaço transdisciplinar, vai promover encontros entre arte contemporânea e ioga na edição online da mostra.

Segundo avaliação da própria diretora da SP-Foto, Fernanda Feitosa, cada edição traz algo de diferente, promovendo o encontro de veteranos e fotógrafos da nova geração para troca de experiências. “Galerias já consolidadas no circuito e fotógrafos conhecidos aparecem ao lado de jovens expositores que estão florescendo e são nossas apostas”, resume Feitosa, destacando o êxito da edição online de outra feira criada e dirigida por ela, a SP-Arte, que teve 56 mil visitantes em sua primeira edição em formato digital em agosto.

A SP-Foto, ainda segundo a diretora, tem ajudado a promover a fotografia brasileira em países estrangeiros. É fato. Em março do próximo ano, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) inaugura uma grande mostra, Brazilian Modernist Photography, 1946-1964, que terá 140 fotos de 60 fotógrafos do histórico Foto Clube Bandeirante. A retrospectiva terá como curadora a norte-americana Sarah Meister, que descobriu alguns dos principais fotógrafos modernistas do Brasil na SP-Foto e ajudou a ampliar a coleção da vanguarda brasileira no museu norte-americano. Entre os contemporâneos brasileiros presentes na edição da SP-Foto Viewing Room estão Juvenal Pereira, Luiz Braga e Mário Cravo Neto (1947-2009).

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