SP-Arte vive expansão e galeristas dizem que as vendas cresceram 20%

Essa foi a evolução em relação ao ano passado, segundo participantes da 13.ª edição da feira paulista

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

11 Abril 2017 | 03h00

A 13.ª edição da SP-Arte, encerrada domingo, indicou, como bom termômetro do mercado, que a temperatura subiu significativamente na última semana, acirrando a disputa entre colecionadores por pintores como o cearense Antonio Bandeira (1922-1967) e o baiano Rubem Valentim (1922-1991). A procura desenfreada pelo primeiro, vendido em pelo menos duas das maiores galerias de São Paulo, explica-se pela proximidade da publicação do catálogo raisonné de Bandeira, que deverá ser lançado em agosto, quando for inaugurada a exposição retrospectiva dedicada ao artista cearense pela Fundação Edson Queiroz, de Fortaleza.

Uma tela pintada em 1963 por Bandeira, um dos primeiros abstracionistas do Brasil, foi vendida por R$ 4 milhões pela Galeria Almeida e Dale, que, em contrapartida, doou três das 23 obras listadas pela SP-Arte, entre elas uma tela de Rubem Valentim no valor de R$ 400 mil, que passou a fazer parte do acervo do Masp. Os proprietários da galeria ainda doaram uma pintura de José Antonio da Silva (R$ 100 mil) e outra do jovem artista Bruno Dunley (R$ 67 mil), respectivamente ao MAC e Pinacoteca. A galeria estava negociando na tarde de domingo uma pintura de Portinari (a figura de um flautista) por R$ 8 milhões – transação que pode ser fechada esta semana.

Grandes negócios, todos acima de R$ 1 milhão, revelam que a feira, a despeito da crise financeira, está em franca expansão. Entre os grandes negócios realizados nesta feira estão uma escultura em mármore do inglês Tony Cragg, no valor de R$ 1,8 milhão, pela Dan Galeria, que tinha duas telas de Bandeira à venda (uma delas por R$ 2 milhões). As galerias estrangeiras também não podem reclamar: a Thaddaeus Ropac, de Paris, vendeu uma pintura do pintor alemão Georg Baselitz por R$ 2 milhões.

“Para mim, isso significa mais que a expansão da feira, significa a retomada de confiança por parte dos colecionadores no País e a interação com o mercado internacional”, analisa a criadora e diretora da SP-Arte, Fernanda Feitosa, citando o interesse de colecionadores brasileiros por artistas estrangeiros e dos galeristas estrangeiros pela arte brasileira. No primeiro caso, estavam gravuras da surrealista americana de origem francesa Louise Bourgeois, vendidas para um colecionador brasileiro. No segundo, obras de Mestre Didi que foram compradas por dois colecionadores estrangeiros (um alemão e outro norte-americano), segundo o marchand Paulo Darzé, da galeria de mesmo nome. Ele foi o único entre os galeristas a ocupar todo o seu estande com apenas um artista.

Mestre Didi, artista baiano nascido como Deoscóredes Maximiliano dos Santos (1917-2013), sacerdote integrado ao universo nagô, tem, enfim, no centenário de seu nascimento, o reconhecimento merecido. Praticamente 50% das obras expostas por Paulo Darzé (preços variáveis entre R$ 55 mil e R$ 150 mil) foram vendidas. “Antes, só os iniciados em candomblé costumavam comprar suas obras”, diz Darzé.

Outro mestre, o modernista Alfredo Volpi (1896-1988), também chamou a atenção de colecionadores estrangeiros, mas foi um brasileiro que comprou uma preciosa e pequena tela construtivista sua, na galeria de Paulo Kuczynski, por R$ 1,8 milhão. O marchand ousou recuar um pouco mais no tempo e embarcou numa viagem pré-modernista, trazendo para a feira uma coleção de paisagens do pintor Antonio Facchinetti (1824-1900). Vendeu duas delas, o que revela um súbito interesse pela pintura acadêmica do século 19, num mercado até agora dividido entre modernos e contemporâneos.

Mais de 70% do público que frequenta a SP-Arte, segundo Fernanda Feitosa, são jovens interessados em arte, mas ainda sem condições de bancar obras de valor elevado. A venda de múltiplos, segundo a galerista Ana Serra, da Carbono, cresceu 10% este ano, fazendo com que uma obra de Shriley Paes Leme (vendida a R$ 9 mil) se transformasse naquela que teve mais posts nas redes sociais. A média de crescimento nas vendas em outras galerias aponta uma evolução de 20% nas vendas em relação a 2016.

Os dados oficiais das vendas ainda não foram divulgados pela SP-Arte este ano, mas, na edição anterior, de acordo com Fernanda Feitosa, chegaram perto de R$ 200 milhões. A própria Fernanda ajuda a fazer essa cifra crescer: este ano, ela comprou para sua coleção particular obras de Niobe Xandó e Iberê Camargo. “O número de doações cresceu”, festeja a diretora da feira. De 2008 até 2017, já foram 136 doações, entre elas obras de Goeldi e Mira Schendel.

 

 

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