Soul Kitchen é saboroso coquetel de culturas

Fatih Akin mostra em Veneza que seu filme tem conteúdo, graça e ternura

Luiz Zanin Oricchio, VENEZA, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

Ok, Soul Kitchen pode não ser uma obra-prima ou o virtual vencedor do Leão de Ouro. Mas o filme de Fatih Akin é uma delícia. Em meio a tantos filmes pretensiosos, mas rasos de conteúdo, este se destaca por tratar de muitos assuntos, e de maneira simples e engraçada. Akin é conhecido no Brasil por filmes como Buraco na Parede e Atravessando a Ponte - O Som de Istambul. Alemão de família turca, é diretor saudavelmente intercultural, e essa condição respira em seus filmes. A Alemanha neles retratada não é nunca ariana. Bem ao contrário.

Essa nova Alemanha multicultural frequenta o restaurante de Zinos, rapaz de origem grega. O local pode ser até meio descolado mas a cozinha rivaliza com a do Encouraçado Potemkin. Até que chega um novo cozinheiro, sofisticado e meio maluco, que muda o cardápio. Como não se deve atirar pérolas aos porcos, a clientela estranha. Além disso, Zinos tem outros problemas. Deslocou a coluna, sua namorada mudou para Xangai e ele tem um irmão presidiário em liberdade condicional e precisa ajudá-lo.

Tudo é muito engraçado. E, ao mesmo tempo muito terno. Essa mistura produziu um coquetel molotov tão saboroso, que Fatih Akin recebeu uma longa ovação lá onde talvez não pudesse esperar - na sala de coletivas de imprensa, em tese um lugar neutro onde as pessoas vão para trabalhar. Mas aqui em Veneza não é bem assim. Há tietagem, polêmicas e torcidas. E se depender dos jornalistas, Akin já ganhou. E a verdade é que fez um filme delicioso. "Para mim, dirigir uma comédia foi um desafio autoimposto. Eu não queria ficar marcado como alguém que assina apenas dramas sociais. É muito mais difícil fazer rir do que fazer chorar", disse.

OUTROS FILMES

O último concorrente italiano, La Doppia Ora, estreia de de Giuseppe Capotondi na direção de longas-metragens, pareceu bastante decepcionante. Trata-se de um filme de gênero, no máximo uma boa sessão da tarde, perdido em meio a um festival. No enredo, o caso de amor entre Sonia, uma imigrante eslovena, e Guido, ex-policial italiano, esconde uma história de crime planejado, com toques que fariam lembrar um Corpos Ardentes sem a inspiração de Lawrence Kasdan. Tudo muito certinho, em linguagem publicitária, o que equivale a dizer: não cheira bem nem mal.

Já o egípcio Al Mosafer (O Viajante), de Ahmed Maher, mostra momentos inspirados, embora seja confuso, provavelmente problema de um roteiro mal depurado. A ideia é resumir a vida de um homem, da juventude à velhice, em três dias capitais. No primeiro, em 1948, o protagonista Hassan conhece Nura, uma mulher belíssima. Em 1973 ele se encontra com a filha. E, em 2001, com aquele que talvez seja seu neto. Essa terceira fase permite a entrada em cena do badaladíssimo Omar Sharif, o eterno Doutor Jivago. Sharif esteve no Lido esbanjando charme em seus quase 78 anos. Disse que o segredo de enfrentar a velhice era viver cada dia como se fosse o último. E que não tinha nenhum apego pela celebridade: "A minha vida é a mais normal possível, minha cabeça não foi preparada para me tornar um famoso, como os americanos."

Esse charme está em parte no filme. O diretor Maher, que estudou cinema na Itália, disse que sua referência era Fellini, o que explica a maneira como se deixa levar pela fantasia. Mas também se vê que o cinema egípcio de empenho artístico ainda precisa fazer o trabalho de luto do seu cineasta mais famoso, Youssef Chahine, morto no ano passado. Só a título de informação, Omar Sharif estreou em 1950, sob a direção de Chahine, em Papai Amine.

FILME SURPRESA

Foi revelado (e exibido para a imprensa) o segundo filme-surpresa, totalizando agora 25 concorrentes ao Leão de Ouro. Trata-se de Lola, do filipino Brillante Mendoza, que entra, na opinião deste crítico, em condições de disputar os prêmios principais. Mendoza é um dos expoentes do novo cinema filipino, que tem feito a cabeça da crítica do mundo todo. Em Lola, não nega fogo. Retrata uma Manila em transe, tendo como "protagonistas" duas vovós unidas por alguns pontos comuns. Um deles, a pobreza. Mas, o principal: o neto de uma matou o neto de outra.

Filmado com abundância de planos-sequência, Lola opta por um despojamento fotográfico quase bruto no retrato dessa Manila quente e sob chuva, um inferno tropical onde a vida das pessoas parece uma gincana ou uma corrida de obstáculos. A solidariedade entre os pobres é tratada de maneira naturalística, e sem nenhuma pieguice. De uma maneira que às vezes lembra o jeito como Buñuel lidava com essas questões.

COTAÇÕES

Pode não ser um julgamento definitivo, ou sequer indicação de quem deve vencer o Leão de Ouro, que será concedido amanhã. Mas as cotações dos críticos sempre têm alguma importância. Segundo os profissionais de 12 dos principais jornais italianos, na ponta da tabela está Life During Wartime, de Todd Solondz, com média de 8,23. Logo atrás, vem Capitalism - A Love Story, de Michael Moore, com 7,86. E, em terceiro lugar, aparece o israelense Líbano, com 7,79.

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