''Sou um produto da mundialização''

Diretor turco-alemão avalia o próprio trabalho e afirma que escrever o roteiro é como estar ''grávido'' de um filme

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

04 de julho de 2008 | 00h00

Ele é um cineasta alemão de origem turca e faz filmes com dinheiro da União Européia, quase sempre refletindo sobre a terra de seus ancestrais - e sua relação com a Alemanha. Fatih Akin já ganhou o Urso de Ouro em Berlim - por Contra a Parede - e, no ano passado, ninguém teria reclamado se tivesse ganhado a Palma de Ouro por Do Outro Lado. Mas era o ano de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e Akin teve de se contentar com o prêmio de roteiro. Na coletiva dos vencedores, um jornalista lhe perguntou se estava decepcionado. ''Sou jovem, tenho tempo para tentar de novo'', respondeu. Assista ao trailer do filme Do Outro Lado Até por essas características, digamos, internacionais, Fatih Akin é o primeiro a se definir como ''um produto da mundialização''. Mas ele também tem uma consciência muito clara do que é fazer cinema num país em que, de alguma forma, você permanece estrangeiro. A criminalidade é muito grande entre os jovens descendentes de turcos na Alemanha. Fatih Akin sabe que teve sorte, ou foi a dedicação de seus pais, ambos de origem modesta. Ao virar cineasta, ele admite que não teve escolha. Fazer filmes sociais e políticos virou parte de sua natureza.Seu cinema, ele disse numa entrevista realizada no ano passado, em Cannes, é humanista e Fatih Akin explica o que representa, para ele, o conceito tão desgastado nestes tempos de consumismo e competitividade. O humanismo, para Akin, consiste em explicar como é o funcionamento do humano. Como assim? ''Como indivíduos, reagimos de forma diferente, em diferentes condições. É um processo fascinante de investigar. Às vezes, só nos debruçando sobre os outros conseguimos chegar ao auto-entendimento.'' Em Cannes, 2007, Fatih Akin, de 33 anos, era pai recente. A paternidade, ele dizia, mudou sua relação com a arte, no sentido de torná-lo ainda mais engajado e participante. ''É uma questão de responsabilidade'', disse.Já que Akin recebeu o prêmio de roteiro, é bom saber como ele encara a escrita de seus filmes. Akin pegou carona na própria paternidade. ''Escrever um roteiro é como estar grávido de um filme. A gente não se preocupa muito se será menino ou menina, apenas quer que seja saudável. Se é um filme, esperamos que saia bom. Uns saem melhores. O importante é que sejam verdadeiros.'' Do Outro Lado é rico em metáforas sobre as duas sociedades - a alemã e a turca - em que Akin vive, equilibrando-se no fio da lâmina. O filme trata de filiação e sacrifício, e da reconciliação entre homens e mulheres que rompem barreiras culturais e geográficas. Um professor alemão de ascendência turca desaprova a mulher que seu pai viúvo escolheu para viver. Ela tem uma filha na Turquia. Ele parte em busca da garota, que é ativista política.Como todo roteiro de Fatih Akin, esse tem o pé na realidade. ''Não sei escrever senão pesquisando ou ficcionalizando as experiências da minha vida'', diz o diretor. Ele se valeu de histórias contadas por amigos e entrevistou uma garota numa prisão turca. A seqüência final é praticamente autobiográfica. ''Quando o professor visita a aldeia de seu pai, na verdade sou eu, conhecendo o lugar em que vivia meu avô.'' Como se trata de uma história desenrolada em dois mundos - e rica, pela complexidade de seus elementos -, Akin diz que a concebeu como ''um puzzle'' (um quebra-cabeça). ''Um elemento vai enriquecendo e completando o outro. Não é um filme para se divertir. É para quem consegue pensar.''Akin voltou este ano a Cannes como presidente do júri que outorgou o prêmio da seção Un Certain Regard. O vencedor foi Tulpan, do diretor Sergey Dvortsevoy, do Casaquistão, um filme quase antropológico, sobre as mudanças na região. Um ex-marinheiro sonha casar-se com uma garota que o rejeita. No processo, ele retoma suas raízes e vira pastor de ovelhas. Não é difícil imaginar o que atraiu Fatih Akin no trabalho de Dvortsevoy. Os conflitos de tempo, espaço e mentalidade têm a ver com os que ele próprio gosta de filmar. Seu próximo filme é um documentário, não uma ficção. The Garbage in the Garden of Eden vai contra o governo turco, que está poluindo a vila dos ancestrais de Akin. Ele está comprando uma briga, mas, como antecipou em Cannes, de novo não tinha escolha.

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