''Sou ponte entre duas culturas''

É como se define o cubano Edmundo Desnoes, o grande astro da mostra latina

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

10 de julho de 2008 | 00h00

Edmundo Desnoes não tem o tipo físico que você habitualmente associa ao cubano. É alto, pele clara, cabelos loiros embranquecidos e olhos azuis, um tipo muito mais europeu, mas o próprio nome ''Desnoes'' é de origem francesa. Ele está em São Paulo - até seguinda-feira -, participando do 3.º Festival de Cinema Latino-Americano, no Memorial da América Latina. Veio para autografar seu livro Memórias do Subdesenvolvimento, que chega às livrarias do Brasil 44 anos após a primeira edição cubana e 40 após o filme que dele retirou o cineasta Tomás Gutiérrez Alea. Memórias do Subdesenvolvimento é um clássico do cinema latino. Desnoes vai apresentar o filme que será exibido amanhã (20h40, no Memorial), na homenagem ao lendário Alea.Titón, como era chamado, foi uma figura mítica do cinema cubano. Um desses personagens que, como Glauber Rocha no Brasil, extrapola a figura do autor para ser também um catalisador, um agitador cultural. O diretor morreu de câncer no pulmão, em 1996 - ''era um fumante compulsivo'', lembra Desnoes -, mas até o fim da vida, valendo-se de sua proximidade com o Comandante Fidel Castro, permaneceu em Cuba. Fazia filmes como Memórias do Subdesenvolvimento, que eram críticos ao regime, mas nunca ''contrários''. Como Desnoes, Titón amava a revolução, mas foi mais persistente do que o amigo escritor. ''Podia suportar a escassez material, como todos os cubanos, embora como intelectual não pudesse aceitar a censura'', diz Desnoes, explicando por que, em 1980, partiu para os EUA.''Fiquei até o momento em que o Partido Comunista assumiu as diretrizes da vida cultural. Aí, a situação tornou-se insustentável'', lembra o escritor, na entrevista realizada no Memórial da América Latina. Nos EUA, tornou-se ensaísta, deu aulas em universidades (Stanford), mas não seguiu o caminho dos contras de Miami. ''Reconheço o fracasso da economia socialista sem renunciar à utopia da minha juventude'', diz Desnoes. ''Prefiro me definir como uma ponte entre dois mundos, a velha e a nova Cuba, ou entre Cuba e o mundo exterior.'' Uma ponte sob a qual, ele reconhece, ''las águas bajan turbias''. É o título de um famoso filme argentino de 1951, observa o repórter, mas Desnoes não conhece o trabalho do mítico ator e diretor Hugo Del Carril. As águas passam agitadas, turvas (impuras) por causa da crise atual, que, obviamente, não atinge apenas a Cuba.Memórias do Subdesenvolvimento tornou-se um clássico, nos anos 60, por enfocar a Revolução Cubana de um outro ângulo. ''Sérgio, meu personagem, é um intelectual cheio de dúvidas e contradições. Ele introduz o olhar de classe média sobre a revolução.'' Quando seu livro surgiu, Desnoes poderia ter sido acusado, quem sabe, de desvio revolucionário, mas logo em seguida veio o filme - dois produtos de prestígio, nacional e internacional, que ficava bem para o regime cubano autorizar e apoiar. Sérgio pertence a um segmento que não apóia a revolução. A família e os amigos tomam o rumo do exílio. Ele fica para ver o que vai ocorrer. Anda desgarrado por uma Havana que já começa a se arruinar. O personagem pode ser, ou costuma ser, comparado ao Castorp de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, dividido entre a ação e a reflexão. Desnoes concorda em parte. Estava mais influenciado por Mersault, o Estrangeiro de Albert Camus, e por Doistoievski, As Memórias do Subterrâneo.Como intelectual, não vê contradição entre ação e reflexão, pois ''pensar também é uma forma de ação''. O formato de narrativa na primeira pessoa, permeado de ironia, veio de Machado de Assis. ''Fui muito influenciado por Memórias Póstumas de Brás Cuba. Era o único livro brasileiro que conhecia, mas me marcou muito e até hoje penso que se trata de um dos clássicos da literatura latino-americana.'' O livro, segundo ele, como o filme, segue atual porque Alea entendeu sua essência e deu corpo às preocupações de Desnoes. ''Não queria ir contra a revolução e a história, mas mostrar o que estava ocorrendo conosco.'' Para dar corpo ao livro, Alea assimilou influências do neo-realismo e da nouvelle vague e é muito mais pela construção dramática, e pela linguagem, que o filme, tão crítico, mantém seu ardor revolucionáro.Desnoes escreveu outro livro, Memórias do Desenvolvimento, que também será filmado (em duas partes). Segundo ele, a grande lição do original é que a contradição de Sérgio ''segue atual''. Desnoes regressou a Cuba, em 2003, mas segue residindo nos EUA. Ele observa que seu país sobreviveu à queda do comunismo e até à aposentadoria de Fidel, sinal de que o regime não está podre como tanta gente gosta de anunciar. Raul Castro, sucedendo a Fidel, já iniciou a mudança necessária, mas ela ainda é tímida. ''Cuba precisa se integrar à economia de mercado e assumir uma maior liberdade cultural.'' Desnoes faz uma comparação interessante. ''Cuba era um pequeno país que pensava ser grande nos anos 60. O Che exportava a revolução, Fidel enviava tropas a Angola. Inversamente, o Brasil, com as mesmas origens africanas e importância do ciclo de açúcar, era um país que pensava pequeno.'' O desafio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é este - ''O Brasil pode ser um dos gigantes do futuro, com EUA, China, Índia e Rússia, todos países continentais. É só se preparar para isso.'' Ele defende a união cubano/brasileira. E diz que, pensar grande, em termos de mercado, não significa abrir mão da utopia. ''Existe uma herança muito rica do socialismo. Cuba pode exportar cultura, saúde, educação. Possuímos profissionais de alta qualificação. O fracasso da economia não é cultural nem humano.''

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