Soprano cria atuação que surge do silêncio

Quem é essa senhora de rosto marcado, de olhar expressivo, gestos cuidadosos? Antes mesmo de chegar aos cinemas brasileiros, Alexandra virou fenômeno, em cópias europeias, entre um nicho específico de público - os fãs da ópera. É que Galina Vishnevskaya, a atriz desconhecida de Sokurov, é uma das maiores sopranos do século 20, com certeza a grande dama do canto lírico russo, responsável por interpretações memoráveis dos principais papéis do repertório.É uma grande sacada do diretor escalar uma artista que fez do uso expressivo da voz a sua arte para um filme em que a expressão se constrói delicadamente sobre o silêncio. Mas mesmo no canto, a pausa e o vazio dialogam sempre com o que é dito. É um equilíbrio sempre sutil e difícil de ser alcançado esse que exige que o arrebatamento dramático da ópera saiba conviver com o silêncio, a ausência. Mas foi sobre ele que Galina construiu sua trajetória.Ela nasceu em outubro de 1926 em Leningrado e, com pouco mais de 20 anos, era a principal estrela do Teatro Bolshoi. Nos anos 60, começou a viajar o mundo, cantando em Nova York, Paris e Milão. Casou-se com o violoncelista Mstislav Rostropovich. Os dois conviveram com artistas como Shostakovich e compositores que dedicaram a eles importantes obras. Em 1968, abrigaram Aleksandr Soljenitsyn, escritor perseguido pelo regime soviético. Pressionados, deixaram a URSS em 1974, pedindo asilo em Paris.Por tudo isso, já não daria para pensar na música russa do século 20 sem sua participação. Mas há ainda o que fez, como intérprete, com esse repertório, seja na ópera, seja nas canções. Recentemente, na série Tesouros da Ópera, foi lançada uma de suas primeiras gravações, do Eugene Onieguin, de Tchaikovski. Ouça a Ária da Carta. Respire, sofra, descubra o amor com ela. E, no silêncio que vem com o fim da música, você vai perceber que Galina continua cantando com você.

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