Sophie Calle reencontra amante e quebra a barreira da privacidade

A escritora e artista francesa, que escandalizou a última Bienal de Veneza, chega ao País em julho

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

Há 30 anos ela seguiu um desconhecido pelas ruas de Paris, acompanhou seus passos até Veneza e fotografou tudo o que o anônimo viajante fez durante a viagem. Batizou o trabalho de Suite Vénetienne (Suíte Veneziana, 1979) e tomou gosto pelo voyeurismo. Percebeu também que outras pessoas adoravam fuçar a vida alheia. Dois anos depois, pediu à mãe que contratasse um detetive para fazer o mesmo com ela, seguindo-a, tomando notas de suas ações e fotografando-a por 24 horas. Isso resultou no trabalho La Filature (A Perseguição, 1981), apresentado na 28ª Bienal Internacional de São Paulo. Agora, a artista e escritora francesa Sophie Calle volta ao Brasil para mostrar a obra que há dois anos provocou polêmica na 52ª Bienal de Veneza, Prenez Soin de Vous (Cuide-se). O filme, um acerto de contas com o ex-namorado e também escritor Vouillier, que a dispensou por carta, será exibido no festival Videobrasil em julho, mesmo mês em que ela e o antigo amante, autor do livro L?Invité Mystère, participam da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Antes do esperado reencontro, ela falou ao Estado, por telefone, sobre esse cruzamento entre vida privada e pública.Prenez Soin de Vous não é o registro de sua primeira desilusão amorosa. Em 1984, ela construiu uma instalação com 92 fotos que registravam um encontro frustrado em Nova Délhi. Pode parecer contraditório, mas é isso mesmo. Sophie marcou um encontro em um hotel e o homem não apareceu. Ela, então, registrou imagens do quarto onde os dois deveriam ter passado horas agradáveis e cruzou o próprio depoimento sobre a desilusão com o de outras pessoas. Douleur Exquise (Dor de Cotovelo, 1984) é o registro de uma ausência, intraduzível tanto em termos verbais como visuais. Desde então, tornou-se o tema central e obsessão de Sophie.A ausência do ex-amante, em Prenez Soin de Vous, começa pelo próprio título, referência à última frase da mensagem eletrônica enviada por ele, "Cuide-se". Foi o que fez. Deixou de se lamentar e enviou a carta do namorado para 107 mulheres, gravando em vídeo a reação de atrizes, cantoras, bailarinas, tarólogas, DJs, palhaças, advogadas e até sua excêntrica mãe ao ler a telegráfica dispensa amorosa. Entre as celebridades que aparecem no vídeo estão as atrizes Jeanne Moreau, Maria de Medeiros e Victoria Abril, que dá um conselho de mulher madura para Sophie: "Esqueça isso e me deixe dormir", diz, enrolando-se nos lençóis e rindo.Em Cuide-se, muitos críticos, diante do luxuoso catálogo de sua mostra, que inclui DVDs, um ensaio erudito, poemas e desenhos, perguntaram que tipo de mulher responde a uma dispensa amorosa eletrônica por e-mail com uma orquestração pública de contra-rejeição. Em tempos de Big Brother, que aboliu as fronteiras entre vida privada e pública, você considera que a melhor maneira de se cuidar é atacar o outro?Não estou interessada nos críticos de Veneza. O meu não é um diário, mas um trabalho de arte, em que tento construir não uma obra para ficar exposta na parede, mas para incentivar relações interpessoais.O uso de material inspirado ou retirado da vida privada é contemporâneo, mas tem uma dívida com artistas conceituais, caso de Vito Acconci, Orlan e Cindy Sherman, que usaram os próprios corpos para se expressar. Você diria que tem uma dívida com eles?Especialmente com Vito Acconci. Pensei muito nele antes de fazer meu trabalho (e Les Dormeurs, em que ela convida pessoas ao acaso para dormir em sua cama, tem muito a ver com a obra de Acconci, que lotou limusines de noivas com penetras). Viajei até Nova York especialmente para pedir permissão a Acconci, considerando as semelhanças de propósitos e ele foi bastante gentil, dizendo que o meu trabalho era diferente, que era mais sentimental. Não sou a pessoa indicada para falar sobre a ressonância do legado conceitual em minha obra, mas admito que teve um papel enorme em minha formação.Seu ex-namorado Grégoire vai dividir a mesa Entre Quatro Paredes com você na Flip, dia 4 de julho. Que reação você espera dele? Grégoire viu o vídeo Cuide-se?O livro foi publicado na França e o vídeo, exibido em Veneza. Ele já viu a exposição que estará no Videobrasil com os textos, fotos e as performances das mulheres convidadas a interpretar a carta enviada por Grégoire. Foi difícil para ele. Não gostou do que viu, mas respeitou o projeto. Grégoire foi muito generoso ao dizer que não causaria nenhum problema. Não fez nenhuma objeção ao trabalho. Sugeri ao pessoal da Flip que o convidasse não por causa do vídeo, mas porque é um ótimo escritor (L?Invité Mystère trata também de um reencontro, numa festa, de um casal que não se vê há anos).Antes de apresentar a exposição e exibir o vídeo na Bienal de Veneza, você colocou anúncios em diversos jornais à procura de um curador. O que a fez decidir por um artista, Daniel Buren? Foi um protesto contra o poder curatorial que domina as mostras internacionais, eclipsando os artistas?Recebi 200 propostas de críticos, curadores e alunos de arte, mas a melhor foi a de Daniel. Queria alguém a meu lado que conhecesse bem o espaço expositivo em Veneza e ele era a pessoa indicada, já que recebeu um Leão de Ouro da Bienal como melhor pavilhão de 1986. Não tinha nada contra curadores, mas não queria que o pavilhão francês parecesse uma provocação ou um jogo. Acho que fiz a escolha perfeita.Muitas de suas obras, como Suite Vénitienne e La Filature, lidam com o conceito da ausência, que não pode ser compensada apenas por uma imagem fotográfica, necessitando um comentário verbal para trazer o passado de volta. Não diria que é um trabalho um tanto proustiano?Nem pronuncie o nome de Proust. Certa vez disse isso e quase fui massacrada, porque Prout é um nome sagrado na França. Sigo gente que não conheço, fotografo anônimos. Então, digo agora que seguimos caminhos diferentes. Proust escreveu sobre pessoas de suas relações.As imagens de Cuide-se são bastante coutardianas, no sentido que parecem surgir da câmera de Raoul Coutard, o fotógrafo de Godard.A Nouvelle Vague francesa é paradigmática, mas prefiro que os críticos cuidem disso.Paul Auster elegeu-a como modelo de Maria em seu quinto romance, Leviatã (escrito em 1992), e certa vez ouvi seu nome numa conversa com a mulher dele, que também é escritora e crítica de arte, Siri Hustvedt. Foi Siri a reponsável por esse encontro?Não. Quando ele me escreveu, não o conhecia. Foi um diretor inglês, Michael Radford (O Carteiro e o Poeta e 1984), que encomendou a ele um roteiro sobre meu trabalho. O filme acabou não saindo por problemas de produção. De qualquer forma, dei autorização para Auster usar minha história e ele foi bastante gentil retribuindo com um convite para que eu fizesse uma performance baseada na personagem que criou.E o que você acha da Maria de Leviatã?Não li o livro de Auster com o propósito de me reconhecer nele. Prefiro ver Maria como um personagem de ficção. Outras pessoas, aliás, me procuraram na mesma época, interessadas em usar minha história, entre elas o cineasta brasileiro Walter Salles.Um de seus trabalhos mais intrigantes é Chromatic Diet, justamente baseado na personagem criada por Auster em seu sombrio Leviatã. É uma crítica à herança austera da Bauhaus, ao fascínio do modernismo pelo monocromático, ou um contraponto à folia cromática do mundo contemporâneo?Essa instalação, apresentada em 1997, foi feita por sugestão de Paul Auster. Não escolhi o assunto. Ela consistia na mesma dieta de meu alter ego Maria Turner. Às terças só comia legumes, carnes ou frutas vermelhos, como tomate ou steak tartare, completando o cardápio com uma boa taça de Lalande de Pomerol, Domaine de Viaund, 1990. Queria apenas atuar como o personagem Maria de Leviatã, não condenar a austeridade cromática da Bauhaus.Qual o seu trabalho que considera o mais pessoal?No Sex Last Night (Sem Sexo na Noite Passada), sem dúvida. Ele é dedicado a meu amigo Hervé Guibert (autor de Ao Amigo Que Não me Salvou a Vida, sobre o amante que lhe transmitiu o vírus da aids) e foi feito com Greg Shephard em 1995, quando viajamos de Nova York a Califónia em seu conversível e resolvemos casar numa daquelas capelas drive-thru que existem em Los Angeles. Gravamos tudo com nossas câmeras, da paisagem às tentativas para levar esse casamento adiante. É, sim, o mais pessoal de meus filmes. Chamaram-me de exibicionista, mas devo dizer que minha mãe era bem mais que eu.

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