Sons e palavras no alto da serra

Primeiro fim de semana em Campos do Jordão teve Osesp e trechos da ópera La Traviata com a Sinfônica de Santos

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2008 | 00h00

Diz a tradição que, cercado em um oásis por tropas inimigas, o Rei Davi pediu a Deus por ajuda. A oração transformou-se no Salmo 23, rezado para afastar perigos e perseguições. ''O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.'' Com essas palavras, o maestro Roberto Minczuk abriu, na noite de sábado, o 39º Festival de Inverno de Campos do Jordão.Minczuk é um homem religioso - brincou, antes do concerto, que se não fosse maestro, provavelmente seria pastor. Mas as palavras ganham significado especial quando pensamos no contexto político conturbado que marcou o início desse festival. Essa é a quinta edição do evento com Minczuk como diretor artístico. Nos bastidores, comenta-se que é a sua última. Ninguém confirma, ninguém nega. Da mesma forma, o concerto de abertura, com a Osesp, foi a primeira aparição oficial do maestro John Neschling após ter anunciado que não vai renovar seu contrato em 2010 por divergências políticas com o governador José Serra, que estava presente no Auditório Claudio Santoro. Os tempos são de indefinição. Se Neschling vai mesmo sair, quem o substituirá? Minczuk esteve sempre no topo da lista de possíveis sucessores, mas os últimos lances da sua relação com o Estado põem em dúvida a concretização de tal possibilidade. Ao mesmo tempo, se Neschling e Minczuk, os dois pilares da música estadual nos últimos anos, são cartas fora do baralho, quais os planos do governo para as instituições que comandaram com sucesso - a Osesp e o festival de inverno? São muitas as perguntas e, por enquanto, poucas respostas.Então, voltemos à música. O primeiro fim de semana mostrou dois lados bastante diferentes da relação entre sons e palavras, música e literatura, tema da programação deste ano. No concerto de abertura, a Osesp interpretou Desenredo, de João Guilherme Ripper, compositor-residente de Campos; o Choros nº 6, de Camargo Guarnieri; e, na segunda parte, a Sinfonia Manfred, de Tchaikovski. A peça do compositor russo foi inspirada em poema de Lord Byron. Os primeiros acordes da obra criam com precisão a imagem do jovem Manfred vagando pelos Alpes, atormentado pelo amor por Astarte. Ao longo da sinfonia, ele busca no sobrenatural a absolvição, invoca espíritos, até, finalmente, optar pela redenção por meio da morte. No poema de Lord Byron há muitas dúvidas, insinua-se o incesto na relação entre os dois, sugere-se o suicídio de Astarte como possível responsável pela misteriosa culpa que atormenta Manfred. É interessante ver como o imponderável no texto ganha cores específicas no desenvolvimento da música de Tchaikovski. Ao mesmo tempo, não há palavras e o enredo, dentro dos limites da partitura, precisa ser imaginado. Nesse sentido, há todo um espaço na mente do ouvinte para se compreender ou, ao menos, tentar, a maneira como Tchaikovski leu o texto de Lord Byron, como o interpretou e, assim, resolveu musicá-lo.Já na manhã de domingo, na Praça do Capivari, outro clássico da literatura subiu ao palco em Campos - A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. O ingresso para um festival de música se deu pela partitura criada a partir dele por Giuseppe Verdi, La Traviata, uma de suas principais obras. A relação entre texto e música, aqui, é mais direta. É interessante, no entanto, notar como texto e música se articulam no mundo da ópera. E, mais do que isso, ver como essa articulação sugere uma evolução na maneira de compor de Verdi, flagrado aqui no meio do caminho de sua busca por uma linguagem dramática que faria dele figura ímpar no cenário operístico italiano. Nesse sentido, funcionou muito bem a decisão do maestro Luis Gustavo Petri de ir comentando os trechos apresentados pela soprano Rosana Lamosa, o tenor Fernando Portari, o barítono Sebastião Teixeira e a Orquestra Sinfônica Municipal de Santos.Na seqüência da programação, esta semana tem como destaques, amanhã, a ópera Os Sete Pecados Capitais, da dupla Bertolt Brecht/Kurt Weill, e, a partir de sexta, a presença do violoncelista Antonio Meneses. Na quinta, a atração principal é o duo formado pelo violinista Glenn Dicterow, spalla da Filarmônica de Nova York, e o pianista Richard Bishop.O repórter viajou a convite da organização do festival

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