Sons de uma América desconhecida

Relegado a segundo plano em sua terra natal, Elliot Carter faz aniversário e diz que suas partituras surgem do 'caos das ruas'

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

No dia 11 de dezembro, o maestro James Levine, o pianista Daniel Barenboim e a Sinfônica de Boston comemoram em Nova York o 100º aniversário do compositor americano Elliott Carter. Promovem a estréia mundial do seu terceiro concerto para piano e orquestra, Interventions, composto no ano passado. Na platéia, estará o compositor em carne e osso. Não se conhece outro exemplo de alguém que tenha composto tantas obras depois dos 90 anos. Verdi escreveu Falstaff, sua última ópera, aos 80 anos; e Strauss curtia 84 anos quando compôs suas Quatro Últimas Canções. Somente nos últimos dez anos, Carter compôs pelo menos 12 obras ambiciosas. Foi sua década mais produtiva. E este ano compôs um concerto para flauta, além do concerto para piano.Mas quem é Carter? Praticamente ninguém o conhece fora dos círculos e guetos da vanguarda - sobretudo a européia. Nos EUA, ele vem sendo maltratado há quase tanto tempo quanto vive. Um crítico, Justin Davidson, escreveu recentemente: "O que significa ser um grande compositor se ninguém quer ouvir sua música? Esta pergunta aplica-se com particular ênfase a Elliott Carter". Davidson lembra que quando Yo-Yo Ma tocou o concerto para violoncelo anos atrás, no Carnegie Hall, "o público ovacionou Carter como se ele fosse a Oprah". Na verdade, aplaudiam o músico, não o compositor. "Pois o normal, quando Carter está no programa, é silêncio e uma desenfreada correria para o café." E, depois de lembrar que os modernistas insistiam que as platéias um dia absorveriam suas inovações, anota que "este homem escreve música desde que Hoover morava na Casa Branca - e isso ainda não aconteceu". Será que o critério fundamental para se aferir a qualidade da música de um compositor contemporâneo é avaliar em que medida o público a compreende e aceita? Isso seria nivelar por baixo, com certeza. Mas, além dos críticos conservadores e ranzinzas e de um público ávido pela repetição do mesmo, há os músicos. E estes, com honrosas exceções, só fazem acentuar o preconceito contra a música nova. O maestro David Robertson, partidário de Carter, compara a experiência de ouvir esta música à de assistir a uma peça numa língua desconhecida: "Você não entende o significado literal, mas vive a experiência emocional". Com amigos como este, Carter não precisa de inimigos.Ele é um autêntico compositor modernista, um lutador que não vai jogar a toalha, ainda mais agora, às vésperas de completar os cem anos. Carter está lépido. Anda sem a ajuda de ninguém, freqüenta concertos e disse recentemente que, em vez de um tributo desses, preferia ganhar um bom pedaço de bolo. Em todo caso, deve estar no mínimo estranhando estas festividades em torno do seu centenário. Pois sempre sentiu-se um exilado em seu próprio país. Na Europa é reputado como o maior compositor norte-americano vivo, mas nos EUA os mais prestigiados são os minimalistas Philip Glass, Steve Reich e John Adams. Está em alta a música acessível, tonal. Nada mais distante da obra deste músico radical que jamais transigiu. "Minha geração foi a primeira a crescer no modernismo. O modernismo era o desejo de encontrar um modo mais enfático e mais forte de mostrar nas artes o presente em que vivíamos. Havia a influência da psicanálise, da mecanização, conseguir voar, dirigir automóveis", diz Carter no DVD A Labyrinth of Time. Por outro lado, continua Carter, "em toda a minha vida tive a preocupação de evitar a repetição mecânica, porque me parecia que estamos mergulhados na publicidade e na propaganda. Estas são coisas contra as quais lutei especificamente". E conclui fazendo a profissão de fé que o guiou neste século de vida: "Quero um certo tipo de crescimento, desenvolvimento, vitalidade, e não uma espécie de prisão na qual tudo é mecânico e desumano. Minha música tenta refletir o lado humano das coisas".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.