Sonny ri, dança e toca por 2 horas

Saxofonista de 78 anos seduz platéia com calipsos e até posa para fotos de celulares

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2008 | 00h00

Sonny Rollins dançou, brincou, sorriu, regeu a banda como se liderasse uma fanfarra de Mardi Gras e posou para fotos de celulares de fãs na beirada do palco. Se deixassem, não teria nem sequer saído do palco na noite de terça-feira. Tocou cinco vezes no bis. Sonny só faltou mesmo levitar na jornada de abertura do TIM Festival, e seu entusiasmo acabou impelindo a platéia a abandonar suas poltronas, lá pelo terceiro bis, para acompanhá-lo ali no gargarejo, seduzida por sua generosidade. Veja especial sobre o TIM FestivalSonny fazia-se seguir por um admirável quinteto que acompanha a sua arte abstrata como se o seguisse há séculos: o sobrinho Clifton Anderson, no trombone; o fantástico guitarrista Robert Broom Jr., ou simplesmente Bobby Broom, admirável discípulo de Wes Montgomery; o jovem e vigoroso baterista Kobie Watkins; e o baixista Robert Cranshaw. A produção não explicou o fato, mas o percussionista de Rollins, Kimati Dinzulu, importantíssimo na execução de peças como Someday I?ll Find You (de Nöel Coward), não subiu ao palco com o grupo, embora tenha sido figura carimbada em todos os concertos recentes do artista.Um dos mais celebrados sax tenores da história do jazz, ativo desde o final dos anos 1940, Sonny Rollins abriu seu show com Strode Rode, música de seu mais famoso disco, Saxophone Colossus, de 1956, agindo como se quisesse mostrar suas credenciais de notável improvisador, um homem que reinventa as próprias composições constantemente.Mas Sonny não é só o terrível domador de expectativas. Ele também adora o ritmo, e a celebração do ritmo veio com a segunda peça, Nice Lady, um calipso dissonante que começa prosaico e termina desabando em câmera lenta, como um castelo de cartas. Suas raízes caribenhas (a mãe imigrou da ilha de St. Thomas para os Estados Unidos) compareceriam ainda em dois momentos: quando tocou Don?t Stop the Carnival (gravada no disco homônimo de 1978) e no primeiro bis, quando revisitou uma música que não tocava havia um bom tempo, St. Thomas, composta a partir de um tema folclórico que sua mãe cantava na infância.Sua banda então iniciou o primeiro de uma série de standards, They Say It''s Wonderful, composição de Irving Berlin (foi uma agradável surpresa, já que, de Berlin, em geral, ele tem preferido tocar I?m in heaven, de Cheek to Cheek). Seguiu-se a infatigável balada In a Sentimental Mood, de Duke Ellington. Sonny parece que tem prazer em apanhar os standards mais celebrados, pinturas consagradas de artistas eternos, e "picotá-los" com seu estilete, refazendo tudo com uma perspectiva abstracionista, feita de espasmos sonoros. Seu quadro final é uma tela cortada com uma faca, como um quadro de Lucio Fontana.Sonny foi funky em discos dos anos 1970, em discos como Easy Living (1978), e essa sua porção fusion apareceu matreira na execução de Isn?t She Lovely, de Stevie Wonder, que ele - em noite especialmente festeira - ofereceu como um brinde a seus fãs arrebatados na noite de terça.Rollins tocou também um de seus temas-chave, Tenor Madness, de álbum extremamente importante de sua carreira, lançado em 1956. Interessante comparar o desempenho dessa banda atual, mais híbrida em influências (de Stevie Wonder a Wes Montgomery) e aquela daquele disco histórico, no qual Rollins contava com a seção rítmica de Miles Davis na gravação (o pianista Red Garland, o baixista Paul Chambers e o baterista Philly Joe Jones). Na faixa-título, Rollins tocava com ninguém menos do que John Coltrane, sua única gravação juntos.Bom, sem pianista agora, Sonny transferiu ao trombonista a tarefa de "fazer a cama" para seus solos, e o resultado é, mais do que interessante, uma aula de colaboração entre instrumentistas. Clifton Anderson tem uma abordagem macia, delicada, quase pop no seu instrumento.Mas, voltando ao show: Sonny não é mais um garoto, isso fica claro. Ele estava tremendamente feliz e entusiasmado, a despeito de algumas limitações físicas. Mas inventava pausas para respirar e "delegava" aos músicos a tarefa de conduzir determinados temas. Por exemplo: quando atacou St. Thomas, que ele tocou quase inteira ao sax no Central Park SummerStage, em agosto, ele mudou de estratégia, passando a bola para o trombonista Clifton Anderson. A cada ameaça de abandonar o palco, o público aplaudia Sonny de pé e ele iniciava outro número ainda no meio dos aplausos. No final, ainda não parecendo totalmente extenuado, Sonny voltou sozinho ao palco para agradecer, batendo com o punho fechado no coração e levantando os braços. Neste sábado, às 11 horas, Sonny Rollins e seu quinteto tocam de graça nos fundos do Auditório, cuja porta traseira é aberta em ocasiões especiais para shows ao ar livre. Essa, sem dúvida, será uma ocasião mais que especial. Troca De GuardaO TIM Festival anunciou anteontem a escalação de Arnaldo Antunes e Roberta Sá no palco Bossa Mod, hoje, no Auditório Ibirapuera, em substituição ao inglês Paul Weller, que cancelou seu show. Eles dividem a noite com Marcelo Camelo e tocam também no domingo, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro. Os espectadores que optarem pela devolução deverão dirigir-se ao ponto-de-venda em que adquiriram ingresso até dia 31. Quem comprou pela internet ou telefone deve entrar em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da Ticketmaster 011) 2846-6200 ou 0300 789-6846. Hoje também tocam, na Arena do festival, as bandas Klaxons e Neon Neon.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.