Sonho sexual da geração de Téchiné

Diretor mostra como a aids influenciou toda uma época em As Testemunhas

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

André Téchiné tem sido um habitué de grandes festivais internacionais. Há dois anos, ele participava da competição de Berlim com As Testemunhas. O filme era considerado forte candidato aos prêmios, mas foi esquecido no final - o júri preferiu premiar o longa chinês O Casamento de Tuya, de Wang Qu?Anan. Téchiné, gay assumido, volta-se para o limiar dos anos 80, para lembrar os primórdios da aids, quando ainda era uma doença desconhecida. A aids continua matando - a desinformação, a falta de cuidados -, mas o coquetel cada vez mais prolonga as vidas dos soropositivos. Uma cena causou sensação na Berlinale. Assim como um reconhecido machão, Sean Penn, se transforma para ser convincente como Harvey Milk no filme de Gus Van Sant que também estreia hoje, Sami Bouajila - premiado com o César, o Oscar francês, de melhor coadjuvante -, é outro ator viril que não faz o papel de gay, mas é sodomizado pelo garoto homossexual em Les Témoins.Num encontro com o repórter do Estado no stand da Unifrance, no mercado do filme de Berlim, Téchiné contou por que demorou tanto tempo para fazer As Testemunhas. "Precisava de distanciamento. Já que se trata de um testemunho, como o título deixa claro, o sofrimento causado pela morte de tantas pessoas queridas me paralisava. Não queria fazer um filme depressivo sobre os meus mortos da sida (a designação francesa para aids). Até por causa deles, tinha de achar um tom para contar essa história. As Testemunhas não é sobre a aids. É sobre o sonho de liberdade sexual de minha geração, é sobre a vida, malgré tout", reflete o diretor. Em seus filmes anteriores, contando histórias de ligações hetero e homossexuais, Téchiné muitas vezes refletiu sobre o desejo, filmando a atração entre homens e mulheres, ou entre homens e homens, e mulheres e mulheres. O desejo volta a ser importante em As Testemunhas.O filme conta a história de Manu, jovem muslim que chega a Paris e se integra num grupo pouco convencional, que inclui casais straights e amigos homossexuais. Sami Bouajila é casado com Emmanuelle Béart, mas se sente atraído por Manu (Johan Libéreau), que também excita o desejo de Michel Blanc, um amigo do casal. Como se filma o desejo? "Por meio dos corpos, e da incidência da luz", explica Téchiné. A primeira parte de As Testemunhas celebra o hedonismo, até que começam a aparecer no tronco de Manu essas placas. Outras pessoas, com as mesmas placas, começam a morrer. O medo desorganiza tudo, desestabiliza amizades e casamentos. O vírus espalha-se, mas, no limite, é preciso se reorganizar para seguir vivendo."Já fiz outros filmes sobre o tempo, mas queria que, nesse aqui, o tempo fosse particularmente marcado. Um tempo de euforia, um tempo de dúvida, um tempo de dor, um tempo de recomeço." E uma luz, como disse o diretor, "falsamente inocente, porque o sentido dessas lembranças é deixar claro que o passado de 30 anos continua presente e as coisas, embora pareçam ter melhorado, continuam irresolvidas. É a força da vida que continua nos impulsionando." Embora Gus Van Sant, contemporâneo de Téchiné, minimize a importância da aids como mobilizadora da homofobia, ambos os filmes compartilham uma característica. "Tentei me eximir de todo juízo moral", conta Téchiné. Nada o horroriza tanto quanto a possibilidade de ser confundido com um pregador, um evangelizador. Como o garoto vem do Sul para desestabilizar a sociedade organizada - a antiga metrópole colonial -, o filme também poderia ser uma metáfora sobre a rejeição do imigrante. "Mas seria delirar demais. Há 30 anos o problema não se colocava dessa maneira e havia uma tolerância muito maior em relação ao imigrante." É mais um testemunho que o filme de Techiné dá. Serviço As Testemunhas (Les Témoins, França, 2007, 112 min.) - Drama. Dir. André Téchiné. 16 anos. Cotação: Bom

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