''Sonho com novela só de homens''

É o desejo fervoroso da figurinista Marília Carneiro, que tenta driblar as exigências das atrizes: 'Mulher é bicho inseguro'

Patrícia Villalba, RIO, O Estadao de S.Paulo

08 de abril de 2009 | 00h00

Depois dos vermelhos e grenás intensos da minissérie Maysa - Quando Fala o Coração, a figurinista Marília Carneiro trabalha os grafismos paulistas e influências nova-iorquinas na nova novela das 7, Caras & Bocas, que estreia na próxima segunda-feira, dia 13.Para falar ao Estado, Marília não poderia ter escolhido lugar melhor: uma das "gaiolas" do imenso acervo de figurinos da TV Globo, no Projac, em Jacarepaguá - pequenas salas gradeadas onde se guardam os guarda-roupas de cada personagem. Ali, ao mesmo tempo em que vestia figurantes para uma cena de vernissage, ela contou detalhes sobre o processo de criação para a trama de Walcyr Carrasco, falou sobre a fama de lançadora de modas e, divertida, confessou um sonho tresloucado: "Queria fazer uma novela sobre o exército, onde só tivesse homem para vestir!"Você está sempre trabalhando para as novelas das 9, especialmente as de Gilberto Braga. Qual é a diferença em fazer um figurino para uma novela das 7?Achei que ia ter um ano quase sabático, que teria pouquinha coisa para fazer. Mas a novela é absolutamente complicada de ser feita, estamos fazendo com cara de novela das 8. Quais os desafios?Os personagens são muito trabalhosos. Tenho, por exemplo, de pegar um galã (Malvino Salvador) e fazer dele um antigalã. Imagine, ele seduz a mocinha mas é um cara que frita pastel... A Fernanda Machado é elegantérrima, mas está fazendo a sexy (Laís). E a Flávia Alessandra, que é uma moça absolutamente sexy, faz uma galerista minimalista (Dafne). (Ela vai à arara de modelos)Ela tem esse Stella McCartney (veja abaixo), que eu achei lindo, um (xadrez) Príncipe de Gales no voil. Estou usando também as da Gilda Midani, incríveis. A Dafne está usando coisas realmente de vanguarda, importadas. Como é que eu vou reproduzir um Marc Jacobs ou um Stella McCartney? Você tem essa fama de lançadora de moda e...Vamos dizer que a Globo é lançadora de moda, né... Sei que existe a expectativa dos diretores sobre qual moda será lançada pela novela. É igual quando eu vou dar palestra para confeccionistas e eles perguntam "como vai ser a lavagem do jeans este ano?". Acham que eu tenho uma bola de cristal. É ligada à moda no dia a dia, se preocupa com isso?Tento me desligar. Quando viajo a Nova York, por exemplo, não vou a uma loja. Mas, de repente, vou ao Metropolitan e vejo uma mulher com uma roupa linda. Pronto, já vou lá perguntar. Daí, ela diz "comprei no Marc Jacobs!" E lá vou eu no Marc Jacobs... Mas no dia a dia me visto assim, de carioquinha - a sandália rasteira me acompanha. Acho que depois de uma certa idade você tem de ter um estilo, não tem de ficar tentando seguir modinha. Muitas vezes, uma moda é lançada pela novela a partir de um personagem caricato, não necessariamente um modelo de elegância. Esse tipo de identificação com o público surpreende você?Nesses meus 35 anos de observação, já entendi que você não lança moda sozinha. Você depende do personagem e da repercussão que ele vai ter. No caso da Bebel (Camila Pitanga) de Paraíso Tropical, por exemplo (figurino de Helena Gastal e Natália Duran). As pessoas começam a usar aquelas roupas porque acham que vão ficar daquele jeito: comprida, morena, magra, linda e sexy. Não importa o contexto da personagem, nesse caso. E os laços da Regina Duarte em Rainha da Sucata (1990), no cabelo preso com gel? Pegou na classe A. E era quase caricato, cabelo de uma sucateira.Os atores reclamam muito, resistem aos figurinos?Os homens nunca - queria fazer uma novela sobre um exército, sem personagem feminina nenhuma! O (Antonio) Fagundes, se veste enquanto está lendo - mal vê o que eu pus nele. Eu falo "não vai se olhar?". E ele "pra que, você já não viu?" Não tenho história nenhuma de homem para contar. E de mulher não vou contar porque não pode... Acho que eu posso escrever várias histórias do tipo "abra depois que eu morrer". Mulher é um bicho muito inseguro. E é muito comum que essas meninas bonitas se apeguem à imagem que já agradou. Tem gente como a Beth Mendes, que me dá liberdade total. Agora, as que gostam de interferir, eu ouço. Dá um trabalho do cão. Do Baú de Marília 1. PERNOCAS: Pregueada e curtíssima, a "saia Darlene", usada por Deborah Secco em Celebridade (2003), não era para ser levada a sério. Mas foi. 2. NÓ: O cabelo de Vera Fischer provocou protesto até mesmo de Tom Jobim, em Brilhante (1981). Mas o lenço que ela usava pode ser visto até hoje em pescoços apegados aos anos 80. 3. INSHALÁ: Para a Jade (Giovanna Antonelli), de O Clone (2001), Marília criou um visual sofisticado, sem deixar de lado a influência oriental da odalisca moderna. Mas a festa dos camelôs foi feita mesmo com a "pulseira Jade". 4. FEVER: As sandálias com meias de lurex da personagem Júlia Matos (Sônia Braga), em Dancin? Days (1978). 5. TERERÊ: As correntes de ouro presas aos cabelos da Bionda de Uga Uga (2000) enlouqueceram as moças.

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