Sombras ambulantes

A escolha mais difícil do Oscar, hoje, é nas quatro categorias de atores e atrizes. Isso talvez aponte para uma questão que me parece clara no cinema atual: a maioria dos bons filmes são filmes "de ator", em que a linguagem e o enredo não são grande coisa ou até são salvos pela performance do protagonista ou do elenco em geral. Lembra o caso da música erudita, que, já notei, não vive grande momento na composição e continua a ter grandes e jovens intérpretes. Sem dispor de Welles, Hitchcock, Fellini e nomes assim, o cinema atual vive muito mais das atuações. É claro que sempre viveu; todo grande cineasta é ou foi grande diretor de atores, e críticos como Kenneth Tynan se queixaram de que as análises dos filmes subestimam a importância da aparência deles, de seus traços e semblantes; mas cinema não é só "acting".Para ficar no universo da produção hollywoodiana, há nomes masculinos como Sean Penn, Philip Seymour Hoffman e Robert Downey Jr., para citar três indicados, e também recentemente Daniel Day-Lewis, Paul Giamatti e Benício del Toro. Eles levam adiante, entre outras, a herança de Marlon Brando e seus "filhos" Jack Nicholson, Robert De Niro e Al Pacino. Ainda não vi Milk e outros que não haviam estreado até quinta no Brasil, mas só o trailer confirma a grandeza de Sean Penn, excepcional em Sobre Meninos e Lobos. Vi Batman, um filme que peca ao se empolgar demais consigo mesmo, mas Heath Ledger de fato fez um Coringa memorável. Até o rosto pouco expressivo de Brad Pitt serve bem a Benjamin Button, em seu tom âmbar de resignação feliz. Fora de Hollywood, temos na França o exemplo magistral de Daniel Auteil. E me recuso a terminar o parágrafo sem Kenneth Branagh, cujo Henrique V arrancou até elogios de Brando.Os nomes femininos talvez sejam ainda mais numerosos, como as indicadas Meryl Streep, Amy Adams e Kate Winslet, além de outras britânicas como Cate Blanchett, Tilda Swinton e Helen Mirren. Fora anglo-saxãs, vamos à França de novo: Marion Cotillard, que fez Edith Piaf. De Kate Winslet já falei na semana passada, e ela foi indicada por seu papel em O Leitor e bem poderia ter sido por Foi Apenas Um Sonho. Em qual está melhor? É difícil dizer. Certamente há obstáculos adicionais em fazer uma alemã que trabalhou em campo de concentração, mas que só vemos depois, como uma mulher ao mesmo tempo dura e sensível, entre leituras e transas com um adolescente, mais tarde sendo julgada e presa. Mas no filme de Sam Mendes as contradições da mulher são menos explícitas, aparecendo mais em filigranas; fora a mão nervosa que leva o cigarro à boca, não há tanto apoio num gestual característico. E ela nos sugere toda a intensa divisão interna e sem saída de sua personagem.A Dúvida, de John Patrick Shanley, é o maior exemplo de filme que com outro elenco mal chamaria a atenção. Embora adaptado de uma peça de teatro do próprio diretor, falta a ele justamente o drama em seu conceito essencial. A freira de Meryl Streep é uma personagem unilateral, que sabemos sempre como vai reagir, e o filme todo é de uma previsibilidade tediosa. A atriz, que foi capaz de pôr um fio de realidade até no algodão-doce Mamma Mia, faz o que pode, criando uma expressão levemente carrancuda na região da boca, mas a cena em que finalmente revela alguma fragilidade é tão mal ajambrada que não convence. Hoffman, apesar daquele olhar forte e malicioso que tanto serviu em filmes como O Talentoso Ripley e Capote, encarna bem o padre, mas o roteiro não lhe permite mais que isso.Felizmente não é o que ocorre em O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme, um filme em estilo "Dogma" à americana. É um mergulho numa família disfuncional e multicultural com câmera muitas vezes trêmula ou desfocada, que por isso mesmo cansa em alguns momentos. O problema desse gênero de filme que nos convida a sentar à mesa das neuroses familiares - ciúmes, picuinhas, mágoas, o cardápio completo comprimido em duas horas - é que também passamos a reagir mais do que nunca de acordo com nossas simpatias e antipatias prévias. Que bando de xaropes! A disputa entre sogro e genro para ver quem enche mais rápido a lava-louças, decididamente, não tem sabor algum, ainda mais com o desfecho sentimentaloide. E a festa se alonga até quase esquecermos o tema central do filme. Mas há boas cenas, e quase todas são com Anne Hathaway.É comum que uma atuação seja julgada pelo contraste com trabalhos anteriores, mais do que por si mesma. Como Anne Hathaway foi bonequinha de luxo naquele O Diabo Veste Prada, seu desempenho como a filha drogada que causou uma tragédia domiciliar foi exaltado. E ela realmente está bem, como no momento em que faz discurso no ensaio da festa e beira o constrangimento geral. O desajuste social se mostra nas piadas que não funcionam, no excesso de autorreferência, em toda uma linguagem física que não parece natural. Esse tipo de interpretação agrada muito em Hollywood, porque catártica e politicamente correta, mas não é simples. O filme inteiro se passa sem que ninguém se dê conta de que a maior burrice foi que, depois de nove meses na clínica ("rehab"), decidiram reintegrá-la no evento em que a irmã é e faz questão de ser a protagonista. A atriz não tem culpa.Outra história forte de desajuste é a de O Lutador, de Darren Aronofsky, e curiosamente aqui também há o desafio de separar ator e personagem, só que pelo outro lado. A história do lutador de luta livre, Ram, é parecida demais com a história do próprio Mickey Rourke, que, depois do sucesso dos anos 80, decidiu ser boxeador e foi um fiasco. A confusão vai a tal ponto que já não sabemos se as deformações do rosto - macerado por punhos alheios e por cirurgias plásticas - nos comovem por ser da personagem ou do ator. Mas ele é um baita talento, bastando lembrar O Selvagem da Motocicleta, de Coppola, um desses filmes subestimados dos anos 80 (década em que desajustados eram tema comum nos EUA, mas em geral triunfando como Rocky e Flashdance). Quando chora diante da filha e tenta pedir perdão, sem muita esperança e sem apelar a compaixão, vemos com clareza que o ator serve à personagem, não o contrário.O filme é bom, ainda que sem a coragem de Clint Eastwood no anticlerical Menina de Ouro, e há uma sequência impressionante, a da luta dos grampos - cuja crueldade não é barata, embora não recomendada para estômagos delicados, e sim a representação do fundo do poço existencial a que ele chegou. Outra grande sequência vem logo depois, quando ele, com a cabeleira de carneiro presa em uma touca, está trabalhando num balcão de frios, tentando levar tudo com humor, mas confirma que faz parte de um mundo à parte, de fantasia, no qual faz o papel de animal para os animais que são a plateia. Certamente o final de Rourke é mais feliz que o de Ram. A vida é uma sombra ambulante, disse Shakespeare, e todos somos atores, uns iguais aos outros; mas alguns são mais iguais, e deles é o mundo supostamente normal do sucesso.POEMA DO TREMAEu, que nunca fui nem unânime nem fácil,Já vinha sendo exilado do meu idioma.Mas não sabia que, pra vender dicionário,Por decreto me dariam o eterno coma.POR QUE NÃO ME UFANOComentei no blog o caso de Paula Oliveira, a advogada brasileira que se disse atacada por grupo neonazista em Zurique. Critiquei a precipitação com que imprensa e governo trataram o assunto, saindo de dedo em riste como se fosse um caso de xenofobia europeia - e mais um pouco os ufanistas entrariam em campo para lembrar, em sua proverbial ingenuidade, como os brasileiros sabem "abraçar as diferenças"... Mas fiz questão de observar no mesmo texto que a reação diametralmente oposta, na base do "só podia ser brasileira", até mesmo com alusões a casos internacionais de prostitutas compatriotas, tampouco leva a lugar algum; afinal, por que se sentir representado por ela, cujos motivos por sinal nem sabemos? Não teve jeito. A discussão logo caiu no Fla-Flu de sempre, num emocionalismo que, esse sim, é bem típico.

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