Som e cor dos trópicos, na releitura de Sérgio Mendes

Músico lança Encanto, uma série de recriações de clássicos em diferentes idiomas e ritmos, como samba, rap e jazz

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2008 | 00h00

Dois anos atrás, depois de um hiato de uma década, Sérgio Mendes lançou o CD Timeless, que, alavancado pela nova versão de Mas Que Nada, com o grupo de hip-hop americano Black Eyed Peas, vendeu como água em vários países do mundo - inclusive no Brasil - e lhe rendeu um Grammy Latino. Agora, do caldeirão do músico brasileiro sai Encanto, uma espécie de continuação de Timeless, como o próprio define.''É claro que é uma seqüência, mas Encanto tem um novo perfume'', diz o pianista niteroiense, radicado há 44 anos nos Estados Unidos. O novo aroma, segundo ele, foi trazido pelos artistas convidados a recriar canções, misturando samba, rap, batuque e o piano de Mendes. É uma miscelânea que possivelmente agrada a estrangeiros vidrados nos sons dos trópicos, mas não aos puristas.Lançamento da Universal, o CD, que tem quatro canções de Tom Jobim, duas de João Donato e duas de Carlinhos Brown, foi gravado entre o Rio, a Bahia e os EUA. A produção é de Mendes, em parceria com o rapper Will.i.am, do Black Eyed Peas, com quem ele já havia trabalhado em Timeless.Tudo começa com o clássico The Look of Love (Burt Bacharach/Hal David), na voz de Fergie, a loura companheira de Will.i.am. O próprio aparece em Funky Bahia, dele e de Carlinhos Brown, com o cantor de R&B Siedah Garrett. E também em Água de Beber (Tom e Vinicius). São três faixas em que a mistura de elementos causa certo estranhamento.O mesmo se pode dizer de Waters of March (Águas de Março), entregue à cantora de jazz Ledisi. A obra-prima de Tom Jobim é apresentada, ainda, em francês - Les Eaux de Mers é cantada pelo grupo belga Zap Mama. O disco tem ainda sotaque italiano. É de Jovanotti, rapper que aparece em Lugar Comum (João Donato/Gilberto Gil). ''Cada um deles tem sua mágica, canta em sua língua. É meu disco mais internacional'', acredita Mendes.Encanto traz também versões mais convencionais, caso de Somewhere in the Hills (O Morro Não Tem Vez, outra de Tom e Vinicius), com Natalie Cole; a bossa-novista Dreamer (Vivo Sonhando, de Tom), com a cantora Lani Hall, vocalista do Brasil''66 de Mendes, e o trompetista Herb Alpert, outro antigo colaborador; e E Vamos Lá (João Donato/Joyce). Esta última tem bis em espanhol, com o astro latino Juanes - fica praticamente irreconhecível.Os mais de 40 anos de carreira e o sucesso comercial mundo afora - Timeless, por exemplo, chegou a disco de ouro no Brasil, Japão, Inglaterra e Alemanha, Mendes enumera - lhe dão tranqüilidade. Ele não tem a pretensão de agradar a todos e dá de ombros aos críticos que o acusam de pasteurizar a música brasileira para melhor vendê-la no exterior.''A idéia é levar nossa música para uma nova geração'', explica. ''A originalidade do trabalho está em misturar essas canções, fazer releituras. Senão seria fazer o mesmo, tudo de novo. Águas de Março, por exemplo, gravamos em inglês e em francês, de uma maneira totalmente diferente da que fiz há 30 anos. A canção está intacta. O que mudou foi a batida. A melodia e a harmonia não mudaram. Agora, vai ter gente que vai gostar e gente que não vai gostar...''

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.