Som dos Bálcãs é trampolim do Beirut

Homem-banda do grupo, Zach Condon diz ao Estado que ouve Tropicália, Caetano e Jorge Ben Jor, e fala sobre show no País

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

O Beirut, há um ano, parecia uma banda destinada a um belo e heroico anonimato indie, cultuada por algumas centenas de meninos espertos em todo o mundo. Mas eis que alguém resolveu incluir uma de suas músicas, Elephant Gun, na trilha sonora de uma minissérie da TV Globo, Capitu. Ouça trecho da música Elephant GunEureka! Repentinamente, o Beirut se tornou um formidável fenômeno indie também no Brasil. Tão fenomenal que está vindo pela primeira vez ao País para alguns shows. O bochincho se espalhou: no dia 8 de setembro, o grupo americano liderado por Zach Condon toca no Auditório Ibirapuera, em São Paulo (também está na programação do festival PercPan, no Rio).Zach, de apenas 22 anos, garoto prodígio de Albuquerque (New Mexico), é o multi-instrumentista por trás do projeto Beirut - toca trompete, trombone, piano, clarineta, acordeão, pilota laptops, samples, entre outras coisas. Ele é, na verdade, o projeto inteiro, com alguns amigos e músicos profissionais que escala para colocar tudo em cena. Condon falou ao Estado com exclusividade por telefone, anteontem.Condon contou que sua fixação na música dos Bálcãs, do Leste Europeu, a música cigana, começou durante sua primeira viagem à Europa. "Eu tinha 16 anos e abandonei a escola. Fui para a Europa, viajei e conheci essa música. A diferença da minha música para a do Gogol Bordello (grupo que também explora a sonoridade cigana) é que eu não tenho a influência do punk. É bom o som deles, mas o que faço é pop. Ou pop music moderna."Mas pop music moderna não pode ser também o som de Beyoncé ou Lady Gaga, mr. Beirut? "É verdade", diz Condon, rindo. "Mas digamos que minha música pop se relaciona mais com aquela que era feita nos anos 60, como a música negra da Motown e a surf music dos Beach Boys."Quando regressou de sua primeira viagem mochileira, Condon entrou na New Mexico University, para cursar, curiosamente, Português e Fotografia. Não terminou nenhum dos dois. Largou tudo de novo. "Bem que eu queria cantar em português, mas não posso", ele diz, em bom português. "Sempre ouço muito música brasileira: Caetano, Jorge Ben, Os Mutantes, a Tropicália", conta.Bandeou-se de novo para a Europa com 19 anos, mas já tinha convicção do que faria. Pesquisou sons e ouviu muito. No inverno de 2005, voltou para Albuquerque e gravou o disco Gulag Orkestar, um álbum incomum que incursionava pela música cigana e alinhava violinos, cellos, ukuleles, bandolins, bateria, tamborins, congas, órgãos, pianos, clarinetas e acordeão - nenhuma guitarra.Fã de Serge Gainsbourg ("É um dos meus heróis"), Condon aprendeu francês e incorporou também a tradição da chanson française em seus discos - especialmente no segundo disco, The Flying Club Cup, de 2007. Suas canções parecem narrar um cotidiano meio pé-na-estrada, kerouaquiano, como My Night with the Prostitute from Marseille. "Não é autobiográfico, é apenas uma história divertida", desconversa. Não raro, sua música tem um sabor circense, e ele não nega. "Talvez seja porque eu sempre gostei muito de Tom Waits, e ele trabalha com essa atmosfera. Talvez seja simplesmente por causa dos instrumentos, comuns à música do circo."Parece uma velha história de muitos anos, mas o garoto fez toda sua reputação em apenas quatro anos. Em entrevista recente, ele disse que seu manager às vezes o aconselha a ir mais devagar, mas ele não consegue. Afirma que quer fazer tudo que pode antes de chegar aos 25 anos. "Acho que estou no auge. Depois dos 25, posso achar tudo que fiz antes meio naive (ingênuo)", afirma.Zach Condon é mais ou menos como o mais famoso herói de J.M. Barrie, que tem medo do realismo exagerado dos adultos. "Acho que, nos anos 70 e 80, os jovens tinham como ambição destruir as tradições. Era disso que tratava o punk, por exemplo. Nossa geração, ao contrário, não quer destruir, e se ocupa mais de redescobrir melodias e harmonias", diz.O Beirut vem a São Paulo, segundo Condon, com 7 ou 8 músicos - entre outros instrumentistas, baterista, acordeonista, tubista, trompetista e o seu líder cantando. O repertório abarca todos os discos do grupo, incluindo o recente March of the Zapotech, cujas músicas refletem viagem do garoto a Oaxaca, México.Ali, ele compôs e pesquisou e tocou com uma banda de 19 músicos de uma cidadezinha chamada Teotitlan del Valle, o grupo The Jimenez Band, especializado nos temas da folclórica Festa dos Mortos mexicana. Por que ele se interessou por tal música? "Tem uma bela melancolia nesse som. Quando ouvi pela primeira vez, me interessei pelo seu som triste e honesto. É como se fosse algo que eu já tivesse ouvido antes."Não importa onde Zach Condon ponha a mão, o som sempre é inegavelmente Beirut. "Acho importante manter algo de mim mesmo no som", diz. Apesar de lançar músicas independentes, singles, sem a preocupação de fazer sempre um álbum, Zach não crê que o disco vá acabar. "A eletrônica está mudando a indústria, é democrática e efetiva. Mas estou feliz de fazer discos, e de tocá-los pelo mundo." ServiçoBeirut. Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Alvares Cabral, s/n.º. Portão 2 - Parque do Ibirapuera. Dia 8 de setembroFrases"Amo Serge Gainsbourg. É um dos meus heróis""Bem que eu quero cantar em português, mas não posso""Nos anos 70 e 80, a música jovem buscava destruir as tradições. Era disso que tratava o punk. Nossa geração, ao contrário, busca redescobrir, escavar melodias e harmonias""Quando ouvi pela primeira vez aquela música da Festa dos Mortos no México, me chamou a atenção sua bela melancolia. É uma música triste e honesta""Não importa quais as coisas que eu misturo em minha música, o importante é manter algo de mim mesmo em tudo"ZACH CONDON, LÍDER DO BEIRUT

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