Solistas são atração na Cavalleria

Desempenho dos cantores compensou desacerto da concepção cênica e andamentos acelerados propostos pelo maestro

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

04 de agosto de 2009 | 00h00

O desempenho vocal foi o que teve de mais atraente a encenação da ópera Cavalleria Rusticana apresentada no Teatro São Pedro na tarde de domingo. Marcello Vannucci sempre foi um tenor identificado com o repertório verista e o seu rico timbre dramático o torna naturalmente indicado para enfrentar os problemas não pequenos oferecidos pelo personagem desta ópera de Pietro Mascagni. Ele os enfrentou com desenvoltura, encontrando o tom adequado de indignação no dueto com Santuzza; e de patético na cena em que se despede da mãe, antes do duelo com Alfio.Sem nenhuma sutileza especial, mas com uma voz volumosa e segura, a soprano Laura de Souza ofereceu, de Santuzza, uma interpretação conforme a um estilo de canto verista absolutamente tradicional. Com algumas exceções, dominou bem a linha de canto de sua personagem. Talvez, melhor dirigida, tivesse sido possível extrair dela um rendimento mais nuançado. Mas correspondeu corretamente àquilo que se propunha o espetáculo.A voz privilegiada do barítono Rodrigo Esteves teria feito de seu Alfio a melhor presença em cena, se a sua ária de apresentação não tivesse sido seriamente comprometida pelo andamento equivocado: um tempo rápido demais, que deixou as texturas totalmente empasteladas, sobretudo a partir da entrada do coro. Para julgar a classe de sua atuação, foram muito melhores as sequências em que ele contracenou com Vannucci e Laura de Souza, realizadas com absoluta segurança.Falta à meio-soprano Ana Lúcia Benedetti a presença cênica que justifique a atração exercida por Lola sobre Turiddu. Mas, vocalmente, ela esteve muito satisfatória e, ao lado da boa Mamma Lucia da soprano Dálete Alécio, completou de forma competente o elenco de apoio.Ouvir a partitura de Mascagni executada pela Orquestra Jovem de Guarulhos é dar-se conta do grau de dificuldade que ela oferece, até mesmo a músicos experimentados. Medindo-se a ela, esses jovens músicos empenharam-se seriamente e, ao longo do espetáculo, não faltaram passagens onde se saíram a contento. Não os favoreceram, porém, como foi dito antes, os andamentos demasiado rápidos a que o regente Emiliano Patarra deu preferência. Um senso maior de medida certamente teria resultado em texturas mais claras, e teria reduzido bastante alguns dos desencontros entre o coro e o fosso.Mas, por que será que este crítico se sente vagamente chamado de bobo, quando lhe enfiam pela garganta abaixo uma festa de Páscoa siciliana que parece uma procissão de penitentes em Sevilha? Sinto que estão me vendendo gato por lebre. E olha que, musicalmente, esta foi uma das sequências mais bem-sucedidas do espetáculo! Parece totalmente ocioso, a esta altura dos acontecimentos, protestar pelo fato de que Bóris, o encenador, tome um locus classicus do naturalismo mediterrâneo, habitado pela mais ensolarada das músicas, e o transforme numa versão expressionista da ópera, com iluminação sinistra e mal feita. Mas digam-me a verdade: não é óbvio e pueril reduzir as luzes quando Santuzza diz "sono scomunicata!"?Em todo caso, o que essa Cavalleria Rusticana, realizada diante de casa cheia, vem demonstrar - batendo uma vez mais na mesma tecla - é a capacidade que tem o Teatro São Pedro de realizar a sua vocação como espaço dedicado à ópera. De elencos competentes, nós dispomos. O que o teatro precisa é de corpos estáveis próprios que, fazendo um trabalho com continuidade, possam se desenvolver. Ah, sim: diretores de cena que se deem o trabalho de ler o libreto também seriam desejáveis.

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