''Só vê novela quem não tem nada melhor para fazer''

Como a misteriosa Waldete, Regina Duarte retoma o humor escrachado que emprestou a personagens como a Porcina

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

15 de setembro de 2008 | 00h00

Uma Mary Poppins camaleoa e felliniana marca a volta da atriz Regina Duarte ao humor, escracho e exuberância de tipos que fazem a história da TV, como a Viúva Porcina de Roque Santeiro (1985) e a Maria do Carmo de Rainha da Sucata (1990). Em Três Irmãs, novela das 7 da Globo que estréia hoje, ela é Waldete, uma misteriosa empregada doméstica. Sinistra, ela desce de um ônibus logo no começo da novela para bagunçar o coreto da pequena cidade fictícia de Caramirim e ser um dos vértices do triângulo amoroso que terá ainda o médico Alcides (Marcos Caruso) e a vilã Violeta (Vera Holtz). Entre secadores, num salão de beleza nos Jardins, a atriz conversou com o Estado.Do que já foi apresentado sobre a Waldete, dá para perceber que é sua volta ao humor, depois de várias personagens densas, e à caracterização dos tempos da Viúva Porcina, de Roque Santeiro. É isso mesmo?É. Ela é uma personagem leve comparada às que eu vinha fazendo. Ao mesmo tempo, ela tem um mistério, que pode ser considerado também uma coisa pesada, digamos, porque a gente não sabe ainda o que ela está fazendo naquela cidade. Ela surge como uma Mary Poppins que vem procurar trabalho e se impõe na casa da vilã, Violeta, como governanta. É uma mulher que surge usando botas do início do século, chapéu de 1800, sombrinha de 1700. É uma colecionadora de adereços e objetos e se veste de uma forma absolutamente inusitada. É por isso que já vi você vestida como Mary Poppins, cigana, empregada... É meio felliniana.Sim, é felliniana. Acho que ela é performática. Quando precisa se aproximar de alguém, se veste de acordo. Ela é muito sedutora, engraçada, filosófica. Se mete nos problemas dos outros, dá conselhos. Acho uma personagem riquíssima. Tenho até medo de não dar conta de tudo o que ela sugere. Tem personagem que você sabe meia dúzia de características e trabalha com base nessas características. Mas, no caso dela, como tem tantas possibilidades, não tem um passado definido, pode ser tudo. E isso é imenso, daí a dificuldade.Já está claro que ela é "do bem", então?Acho que ela é basicamente do bem, sim. Mas tem alguns deslizes, não é uma santa. Eu gosto disso, dessa dubiedade. Já fiz várias santas, gosto das santas, mas brincar com essa dubiedade é fascinante. É muito ingrato você ser a boa, né? Tão coitadinha, sempre choramingando, sempre sofrendo. A boa é passada para trás o tempo todo.Falando nisso, você fez muitas boazinhas, foi a "namoradinha do Brasil". Hoje as mocinhas das novelas agüentam muita reclamação, são chamadas de tontas. O que se conclui é que o público de hoje tende a valorizar os que não medem esforços para ascender socialmente. Na sua época de doce mocinha já era assim ou elas eram melhor compreendidas?Que nada, já era assim! A mocinha é necessária, sem ela não há história. A vilã tem de vitimar alguém. Então, quem faz esse papel? Alguém tem de fazer. Isso para mim ficou bastante claro na novela do Gilberto (Braga, ?Paraíso Tropical?), onde havia três tipos de mulher: as gêmeas - uma totalmente boa e outra totalmente má -, e aquela mulher intermediária (Bebel, papel de Camila Pitanga), que não era boa nem má, e era um joguete no meio social. É claro que ela ficou mais simpática para o público, porque não tinha de ficar chorando o tempo inteiro, sempre tão passiva.Depois de 30 anos na Globo fazendo novelas, como escolhe os papéis? Recebe muitos convites?Não. Teve uma época em que eu era muito chamada. Se não estivesse no ar, era convidada. Fiz muitas novelas, e só não aceitava um papel quando tinha algum problema pessoal ou quando achava que não poderia viver aquele personagem.Há uma cobrança da direção da Globo sobre atores como você, da prata da casa, para que estejam no vídeo, dando credibilidade às produções?Não, acho que pelo contrário. Penso que isso acontece mais com os que estão começando, que precisam consolidar uma trajetória. Quem já fez muita coisa, como eu, não precisa estar no ar o tempo inteiro. Preciso de um tempo também, que eu chamo de reciclagem. Quem já fez mais de 30 novelas, tantos seriados e especiais como eu, é mais difícil ter fôlego para não se repetir.Pelo que vejo das escalações de elenco, achei que fosse imprescindível ter um Toni Ramos, um Tarcísio Meira, uma Glória Menezes numa novela, ainda mais em tempos de concorrência acirrada pela audiência...Espero que conte, senão o meu contrato se desvaloriza! Mas você quer saber realmente o que eu acho? Acho que o grande atrativo da novela é ainda a falta de opção das pessoas. O sucesso, a audiência de uma novela, para mim, é resultado da disponibilidade daquele público. Não acredito que ninguém deixe de viver a vida e ser feliz por causa de uma novela. O mundo tem tanta coisa para se fazer, que eu acho que o público da novela precisa dela - se é com A, com B ou com C, não importa. É um público que precisa ver alguma coisa que o faça esquecer dos problemas. É uma companheira da solidão e é também a falta de outras opções de lazer.Nossa...Nossa, o quê? Quem gosta de novela gosta de novela. E assiste a todas. Essa é boa, aquela é melhor um pouquinho, aquela outra é ruim, mas a pessoa vê, porque não tem nada melhor para fazer naquele horário.Vou inverter uma pergunta que fiz ao Marcos Caruso: o que o teatro lhe dá que a carreira de 30 anos na TV não lhe deu?É o laboratório do ator. A TV é uma vitrine, onde você apresenta tudo o que pesquisou no teatro - ela te dá um capítulo hoje para gravar amanhã. Se você não tem aquela bagagem adquirida lá no teatro para poder responder rapidamente a um texto com conteúdo, não consegue fazer com credibilidade. O grande barato é que os dois são ótimos.

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