Só os doidos visionários chegam ao Olimpo

PATCHWORK: Uma noite memorável, que incluiu baladas de cortar os pulsos, como as belas (e inesperadas) Exit Music e Talk Show Host. É claro que é fácil ser detrator de ocasião do Radiohead. Por exemplo: é verdade que eles liberam uma pulsão meio new age entre os fãs, e seu som por vezes se presta à ambient music de fumódromo de república estudantil, antigo papel do Pink Floyd. No Jockey, um garoto dava uma tragada num cigarrinho lambido e dizia: "Ainda está faltando The Bends." Poderíamos fazer uma lista de ausências imperdoáveis, encabeçada por No Surprises e High and Dry. Não seria justo.Jonny Greenwood não é só um guitarrista, é um artesão do antiriff, um digno discípulo de Edge. Colhendo barulhos (e até um som de FM brasileira), sampleando e editando, eles fazem seu patchwork ao vivo, mas jamais erram, microcirurgiões tarados do pop.Tem uma hora que Yorke canta ao piano e uma microcâmera colhe closes do seu rosto e joga no telão. São closes distorcidos, como se ele estivesse se mirando no reflexo de uma colher, e as imagens mostram que o príncipe do pop é, na verdade, um sapo, é um príncipe-sapo, um sméagol de dentes ruins e um olho que mira a gente como um carro com o farol queimado. "I?m a weirdo", diz ele, em Creep. Sou um esquisitão. Mas tudo que poderia ser handicap para Yorke, ele transforma em mérito. "Estou aprisionado neste corpo e não posso escapar", canta o príncipe-sapo. Nós é que ficamos aprisionados na mente dele.

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