Só mais uma coisa: batuque na cozinha

Só mais uma coisa

Luiz Horta, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2009 | 00h00

O resumo é simples: vamos desenhar um mapa. Não com lápis de cor ou photoshop, mas com o que há na cozinha. Parafraseando um famoso crítico de gastronomia americano, Jeffrey Steingarten, não queremos dominar o país, queremos comê-lo.Ano passado teve de tudo - frutas desconhecidas, técnicas atrevidas, ótimos sabores. Cada um guardou sua lista particular de grandes momentos. Na minha, o susto de ter de provar aquelas minhoquinhas (eram moluscos, sei, mas é mais divertido ver como vermes) que d. Jerônima trouxe de Marajó. Para quem nunca foi até la (meu caso) e vagamente sabe apontar no mapa a ilha (meu caso também, confesso) foi um jeito de colocar um alfinete de mapa comestível no lugar certo. Como foram todos os destaques que salpiquei pela geografia. Beto Pimentel, por exemplo. Uma pessoa hiper-real. Tenho certeza de que a paisagem que ele descreve usando frutas é muito mais verdadeira que a realidade. Provar uma colherinha do seu dendê fresco, trazido do Recôncavo, foi muito mais eficaz como localização que desdobrar um papel e tentar encontrar o lugar lá, impresso, usando uma lente. Quem prova não esquece. Sem contar que nunca mais pensarei em dendê como algo forte e pesado - é levíssimo, sutil, azeite do sertão.Mas não foi só o remoto que reinou. Da cozinha doméstica, do nosso próprio armário, Maurizio Remmert deslocou o uso de uma coisa trivial: a cafeteira Moka Bialetti. Usar de outra maneira é prova de curiosidade científica ou maluquice. No caso dele, ouso sugerir, há dos dois. Cozinhar camarões na maquininha de expresso foi mesmo um atrevimento. Para esta semana, ele promete uma receita cujo nome já faz franzir a testa: Thermoqueca. Não sei bem porque, lendo a programação do Paladar - Cozinha do Brasil, lembrei de um personagem de Borges, "Funes, o memorioso". Ele tinha a capacidade única de lembrar um dia inteiro, cada movimento dos galhos nas árvores, cada pio de pássaro, cada gota de água derramada em todos os copos durante aquele período. Só que levava na tarefa exatas 24 horas...Por isso, antes de repetir a façanha e gastar o tempo inteiro do evento inventariando o programa, melhor dizer somente que a ideia do Paladar é dar conta de explicar e entender toda a cozinha do Brasil, mesmo que demore o tamanho do mapa para fazê-lo.

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