''Só criatividade salva a democracia''

Teórico espanhol Jesús Martin-Barbero, especialista nos estudos da comunicação, fala ao Estado sobre os rumos da cultura

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

19 de agosto de 2009 | 00h00

Um olhar sempre atento para o interlocutor e uma vivacidade que vai aumentando à medida que a conversa continua. Jesús Martin-Barbero, especialista nos estudos da comunicação e da cultura, nem precisaria declarar que seus filhos e seus alunos é que são seus mestres. A sua proximidade com os jovens se estampa nele mesmo, e não somente nos temas para os quais tem se voltado. Veio ao Brasil como convidado de um Fórum que reúne 14 programas de pós-graduação em comunicação do Estado de São Paulo para uma Aula Magna, que realizou anteontem, no Memorial da América Latina, para uma plateia de 1.200 interessados.Antes disso, no sábado, Barbero falou ao Estado. Começou se dizendo entusiasmado com as novas relações econômicas que os jovens vêm instaurando na música e que as vê como formas de escapar do capitalismo. Quando fazem música juntos e compartilham seus resultados, quando produzem uma notação mais econômica, promovem um trânsito novo que deve nos fazer olhar para o futuro. Afirma que a música é a língua que os jovens falam. Perguntado se reconhece o papel da dança como forma social de vinculação, explica que entende que ninguém se relaciona com a música só com os ouvidos, mas sim com o corpo inteiro.Entusiasma-se para declarar que as culturas cotidianas de nossos povos, sempre condenadas como inculturas, encontraram formas de se entrecruzarem na internet. E que, assim, nos ensinaram a tratá-las como outras formas de cultura.Às vésperas de completar 72 anos, nascido na Espanha, e radicado na Colômbia, é assessor de políticas culturais da Unesco. Doutor em Filosofia pela Universidade de Louvain, tem especial orgulho por ter fundado a Escola de Comunicação Social da Universidade del Valle. Publicou seis livros, nos quais vem construindo uma original Teoria da Comunicação para os tempos de globalização.Para ele, necessitamos de criatividade para resolver a crise da democracia. Trabalha com a hipótese de que a ausência de criatividade em casa e na escola tem a ver com a disseminação da violência. Não acredita nos sistemas educacionais existentes, que diz terem começado a morrer nos anos 60. Neles, todas as formas de cultura permanecem fora da escola. Com o bom humor que o distingue, associa tais sistemas de ensino, que chama de caducos, aos dinossauros. Lembra que dinossauros podem necessitar de 150 anos para morrer e, então, advoga morte digna para esses insalváveis sistemas educacionais. Pede pela sua eutanásia. Confidencia que não mais usará a terminologia ?massivo?, porque não reconhece blogs, chats e twitter como formas de comunicação de massa. Desde o final dos anos 70, pensa sobre a banalização da política, da guerra, da religião, e clama pela centralidade das culturas populares nas mediações. Lembra, emocionado, o momento em que conheceu a coleção O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira, editada pela Brasiliense, dizendo que lá encontrou os dados que, na ocasião, faltavam ao seu discurso.Empolga-se quando lembra o discurso do companheiro de luta de Mandela, depois seu Ministro de Educação, que começava dizendo que tinha vindo falar do futuro. Um senhor de 80 anos, que lhe fez ver a complexidade da globalização que criticava, quando explicou que, sem ela, o apartheid sul-africano não teria sido vencido.Comenta que os meios de comunicação estão se transformando debaixo de nossos olhos. Imprensa e tevê não vão desaparecer, mas serão outras. E cita Milton Santos, com quem aprendeu que o mundo está por construir, não é uma categoria pronta que identifica algo que aí está. Fala com orgulho dos filhos Alejandro, 34, matemático, que lhe discorre sobre a importância das lógicas difusas e do Princípio da Incerteza, formulado em 1927 pelo físico Werner Heisenberg (1901-1976) para lidar com os tempos de agora, e de Olga, 31, tradutora de alemão e de inglês, que acaba de publicar as cartas de Hitler em espanhol. Sem disfarçar o orgulho, confidencia que Alejandro já é mais famoso que ele em Bogotá, e vem se acostumando a ser identificado como "o pai de Alejandro". Mas lamenta que os filhos ainda não tenham lhe dado os netos que tanto deseja.Quando a entrevista estava quase terminando, fez questão de dizer que dos textos publicados a seu respeito, o que mais gostou foi o de um repórter argentino que passou um final de semana inteiro acompanhando-o, em Mar Del Plata, mas, sem nada perguntar para não estorvar o seu descanso. Barbero confessou ter se encantado com a ausência de aspas, pois, nas entrevistas, fica sempre desconfortável com o sentido do que é retirado arbitrariamente pelas aspas do seu contexto de proferimento.E despediu-se, pouco depois, do mesmo modo que, dois dias depois, repetiria na Aula Magna. Citou o poeta e escritor Antonio Machado (1875-1939), que, com o pseudônimo que usava, Juan de Mairena, registrou: "Todo lo que sabemos lo sabemos entre todos" (Tudo o que sabemos entre todos). Fez uma pausa e repetiu a frase, enfaticamente, para comentar que, no início do século 20, um campesino andaluz já sabia o que era inteligência coletiva.

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