Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Síntese oriental marca a produção versátil de Tomie Ohtake

Artista plástica morreu nesta quinta-feira, 12, aos 101 anos

Maria Hirszman , Especial para O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2015 | 13h57

Tomie Ohtake marcou definitivamente a arte brasileira da segunda metade do século 20 e primeiras décadas do século 21, mantendo-se ativa até o fim da vida. Nascida em Kyoto, no Japão, Tomie veio para o Brasil em 1936, com 21 anos, e acabou ficando por aqui. Casou-se, teve dois filhos, Ruy e Ricardo Ohtake. Começou a pintar tardiamente, em 1952, depois do término do casamento.

Como poucos, Tomie conseguiu romper a barreira que costuma separar a criação contemporânea do grande público, tornando-se ao mesmo tempo uma artista respeitada pela crítica e admirada e reconhecida pelo grande público e sendo referência não apenas na área da pintura, mas também dedicando-se à gravura e escultura.

Avessa a grupos e movimentos e com uma formação praticamente autodidata, suas obras são marcadas por uma pesquisa permanente, quase obsessiva, de questões próprias à pintura – como a investigação da cor, da textura e da estruturação geométrica e lírica do espaço. Seus primeiros trabalhos, do início dos anos 1950, se inseriam todavia no campo da figuração. Paisagens delicadas, mas já claramente estruturadas por tramas geométricas, com um certo toque naïf e uma evidente relação com artistas em destaque no período, como Alfredo Volpi.

Uma de suas telas desse período mostra uma paisagem urbana distante, que pode ser vista de uma tomada elevada, por entre as árvores. Trata-se claramente de uma geometrização da natureza, que pouco a pouco vai se radicalizando até a completa dissolução da aparência do mundo em elementos sintéticos de trama, textura, movimento. A partir do final dos anos 1950, período que marca o auge da abstração informal no Brasil, Tomie abraça de forma resoluta o abstracionismo, sem, no entanto, aderir ao tachismo, à busca da expressão pela sobreposição de manchas e gestos, como seu conterrâneo Manabu Mabe. A artista parece sempre buscar um equilíbrio suave entre contenção e expressão; parece estar “dosando em partes quase iguais a razão e a emoção”, como escreve Olívio Tavares de Araújo.

Poucos elementos. Dentre as várias fases exploradas pela artista – que passam das formas mais definidas e dos campos imantados de cor e textura, nos anos 1960, para contenção formal quase minimalista da transição para os anos 1970 e para a explosão de cores, formas e transparências, com um forte toque de sensualidade, que vão invadir sua produção nas duas décadas subsequentes –, uma questão das questões que parece sempre perturbar a crítica é o fato de a pintura de Tomie, tão claramente alinhada com as pesquisas construtivas, formais, trazer tanto do mundo real. 

As belíssimas “pinturas cegas”, feitas pela artista com os olhos vendados em busca de uma expressividade genuína, remetem a grandes incêndios; a forma como trata a dissolução do pigmento na água, em busca de um controle quase impossível sobre a matéria, traduz uma busca incessante por uma transparência diáfana. Trata-se, como bem definiu o amigo e crítico Miguel Chaia, de uma síntese fascinante entre geometria e informalismo, que “situa-se no entrecruzamento de uma dupla e paradoxal relação entre arte e natureza: por um lado, afasta-se da natureza, não buscando representá-la imediatamente e reconhecendo as regras próprias da arte; por outro lado aproxima-se dela ao tomar como referência unidades e padrões naturais que são transformados em signos plásticos estruturadores do espaço pictórico”.

Tal aspecto é absolutamente perceptível, por exemplo, nas obras de caráter mais público da artista: as grandes esculturas que realizou nos anos 1980 e 1990 no Rio de Janeiro e em São Paulo. Impossível não associar a grande estrutura metálica que ela cria para o centro da Lagoa Rodrigo de Freitas com a forma tentacular de um polvo ou de uma estrela; ou não adotar imediatamente o apelido de as “ondas de Tomie” para suas grandes estruturas em concreto armado instaladas na 23 de maio, diante do Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Muitos procuram explicar a obra da artista, nascida em 1913, por meio da filosofia zen. Há evidentemente uma sintonia entre sua pesquisa e elementos importantes dessa escola oriental, como a ênfase dada à síntese, à contemplação, à meditação. No entanto, a própria Tomie, em uma de suas raríssimas declarações, procura relativizar a importância dada à sua origem: “Minha obra é ocidental, porém sofre grande influência japonesa, reflexo de minha formação. Esta influência está na procura da síntese: poucos elementos devem dizer muita coisa. Na poesia haicai, por exemplo, fala-se do mundo em 17 sílabas”.

Num estranho paradoxo, essa artista intuitiva, que trabalhava tenazmente e sempre foi muito ativa socialmente, falava muito pouco. E não apenas porque tinha dificuldades com a língua portuguesa. No entanto, expressava-se muito, seja no equilíbrio buscado em suas telas, seja no volteio sedutor de suas últimas espirais de metal. Na falta de palavras, Tomie falava pelo gesto delicado, caloroso, e pelo olhar. Falava pelos olhos e para os olhos.

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