Sinfonia urbana nas imagens de Paul Strand

Mostra no Rio, Olhar Direto, passa em revista 60 anos de produção do artista

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

A arquitetura e as personagens da Nova York das duas primeiras décadas do século 20; paisagens rurais do Colorado, Novo México e Nova Inglaterra nos anos 30 e 40; famílias da vila italiana de Luzzara, nos anos 50; registros de viagens por países tão distintos quanto Escócia, Romênia e Gana. Em cartaz no Instituto Moreira Salles (R. Marquês de São Vicente 476, Gávea), no Rio,Olhar Direto: Fotografias de Paul Strand, panorama dos 60 anos de produção deste norte-americano que foi um dos grandes fotógrafos modernos, traz uma boa amostra de tudo isso ao público brasileiro, pela primeira vez. "Seu trabalho é brutalmente direto", já dizia Alfred Stieglitz, diretor da revista especializada Camera Work e da Galeria 291, onde Strand exibiu seus registros em 1916. Não por acaso, ele, nascido em 1890 em NY (morreu em 1976 na França), ficou conhecido como um expoente da straight photography - fotografia direta ou pura, por mostrar a vida cotidiana nas metrópoles daqueles anos conturbados. Bem diferente das imagens que predominavam então, que mais pareciam pinturas, de tão pouco conectadas à realidade de seus autores.O centro cultural do Rio dedicou espaço generoso a Strand. São 107 fotografias. Logo na primeira sala, o público sente o impacto de seus cliques sobre a sua NY e sua gente, além de engrenagens industriais, pontes e arranha-céus, muitas vezes registrados de cima. É lá que está a foto mais famosa: a da mulher cega com uma placa no pescoço explicando sua condição, clicada numa esquina da cidade em 1916. E também a do homem-sanduíche num dia de trabalho. "Quando a gente vê essas fotos, lembra de um monte de fotógrafo que veio depois", aponta Heloisa Espada, coordenadora do setor de Artes Visuais do IMS. "Do ponto de vista da qualidade, é muito precioso."Avançando mais, chega-se aos ensaios nas áreas menos industrializadas dos Estados Unidos - era uma época em que Strand procurava justamente o que não mais se via em NY, a natureza, a calma, o campo. O que ele também encontraria nas paisagens africanas e em viagens à Itália, ao Marrocos, ao Egito e ao Canadá. E na França, país que escolheu para viver nos anos 50, incomodado que estava com a patrulha anticomunista em vigor desde o fim da década anterior.Strand começou a manusear máquinas e lentes jovenzinho, quando passou a frequentar um clube de fotografia. Logo seus trabalhos foram publicados em revistas de arte moderna e passaram a ser mostrados em galerias. Antenado, dialogou com os movimentos vanguardistas da pintura à época, como o cubismo e o abstracionismo geométrico - o que pode ser observado, na exposição, nas fotografias que mostram sombras numa varanda e cercas à frente do terreno de uma casa. Strand morreu aos 86 anos, bastante premiado e homenageado mundo afora.O lado cineasta pode ser conhecido por meio da exibição de três filmes do artista (Strand não só dirigia, como produzia, editava e, claro, fotografava): o curta Manhatta, de 1921, Redes, de 36, com 65 minutos, e Native Land, de 42, com 80 minutos. Em Manhatta, continuamente projetado numa salinha, o espectador se delicia com imagens da frenética NY do porto, do Rio Hudson e de Wall Street, das pontes e dos prédios altíssimos, dos trabalhadores da construção civil e da multidão que desce do ferryboat vinda de Staten Island. O filme, em que estão inseridos versos do poeta Walt Whitman, foi importante por seu caráter experimental. Esta é a primeira individual de Strand na América do Sul. A exposição, realizada em parceria com a Aperture Foundation, que cuida de sua obra, fica no Rio até 5 de julho e depois segue para São Paulo. Fica em cartaz no Museu Lasar Segall de 25 de julho até 27 de setembro.

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