Sinfonia universal contra o cinismo

A diretora Julie Taymor fala da atualidade de Across the Universe e conta que quer fazer parceria com Caetano Veloso

Flávia Guerra, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

''''Você é brasileira? Ótimo! Diga a Caetano que ainda não desisti do nosso projeto'''', disse Julie Taymor, diretora de Across the Universe ao Estado logo no início de entrevista sobre seu filme. O Caetano era o Veloso. O projeto: levar aos palcos Orfeu Negro (versão para o cinema da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, dirigido em 1959 pelo francês Marcel Camus). ''''A idéia nasceu quando ele gravou Burn It Blue (música-tema do filme, composta por Elliot Goldenthal) de Frida (o longa anterior de Julie) para mim. Caetano acabou tocando outros projetos e este nosso está engavetado. Mas quero retomá-lo um dia'''', reforçou a diretora norte-americana. Seu musical, que insere 34 canções dos Beatles em 131 minutos de pura nostalgia, era o principal destaque dos jornais que cobriram o Festival de Cinema de Roma, onde o longa teve participação triunfal com direito a incontáveis aplausos e lágrimas.Afinal, os aplausos eram para Julie, para os atores ou para John, Paul, Ringo e George? ''''Na verdade, acho que são para um estado de espírito que hoje está em falta'''', responde Julie, que tem motivos para se vangloriar de uma carreira que inclui estrondos de bilheteria como o seu musical O Rei Leão.Seria este sentimento o tal do mal-estar da civilização diante de um mundo que se esconde atrás do cinismo e de uma pretensa indiferença ao ativismo? ''''Exatamente! O mundo está muito cínico e, ao mesmo tempo, medroso. Para você ter uma idéia, no meu país não são mais mostradas cenas dos caixões dos nossos soldados mortos nos conflitos e ocupações do Oriente Médio. E as pessoas sentem falta deste questionamento, de uma postura mais ativa diante do que acontece no mundo, que havia nos conturbados, mas maravilhosos, anos 60 e 70.''''Que fique claro: Across the Universe (óbvia referência à canção e ao poder que o quarteto de Liverpool teve de definir o que pairava no ar, mas ninguém sabia dar nome) não é um filme sobre os Beatles. As canções tão pouco são inseridas aleatoriamente na trama. Elas são praticamente parte de cada evolução da história. Sem elas, o sentido se perde. ''''Por isso, fiz questão que houvesse legendas inclusive nas cenas musicais, pois quem não sabe as canções de cor pode perder parte da história.'''' O filme não seria um musical ''''água-com-açúcar'''' para emocionar saudosistas? ''''Você pode fazer esta leitura de que é um filme escapista. Mas não é preciso amargor para ser engajado. Por exemplo, nas cenas de protesto do filme, que eram para ser encenação, as pessoas comuns de Nova York se envolveram tanto com a verdade de tudo aquilo que se tornou mesmo uma passeata contra o que ocorre hoje no mundo. Hoje não há mais a Guerra do Vietnã, mas há o Oriente Médio, a globalização, a perda dos valores essenciais'''', responde Julie, que era criança quando canções como Come Together e Hey Jude elevavam os Beatles ao status da fama de Jesus Cristo. ''''Eu era a caçula e via os meus irmãos enlouquecerem com os Beatles. Isso acabou perpassando toda minha formação'''', explica ela, que nasceu em 1952. Os mais jovens, ou mais céticos, podem torcer o nariz. Os mais apaixonados pela época podem cair de amores. Mas, ao fim, não há como negar: All We Need Is (Still) Love.Serviço Across the Universe (EUA/2007, 131 min.) - Romance. Direção Julie Taymor.14 anos. Cotação: Bom

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