Simplificação tira todo erotismo de Don Juan

Na peça de Roberto Lage, em cartaz no Ágora, o famoso personagem perde justamente o que é a sua essência, ou seja, o poder de sedução

O Estadao de S.Paulo

25 Fevereiro 2008 | 00h00

A idéia de um "teatro pobre" deu impulso a uma grande limpeza nos itens supérfluos da arte do teatro, provando na teoria e na prática que era melhor dispensar cortinas de veludo e as poltronas estofadas da platéia quando esses itens tradicionais da feitura e da exibição do espetáculo eram vinculados a um credo estético conservador. Em um certo sentido, o Ágora Teatro é a materialização dessa tendência ao despojamento que há quase meio século serve tanto às poéticas do teatro social quanto às pesquisas de campo da linguagem. Mesclando atividades de ensino, aperfeiçoamento técnico, difusão de conhecimento e produção de espetáculos, o trabalho se materializa em um projeto arquitetônico inspiradíssimo. Versátil como espaço cênico, embelezado pela moldagem original de materiais simples e pela combinação acolhedora de volumes e proporções, o edifício é a encarnação de um sonho contemporâneo: teatro para platéias pequenas, dotado de boas possibilidades técnicas e nenhum exagero, serve à arte em vez de impor condições ou sugerir formalizações. Em tese, o programa estético do grupo que dirige o espaço está corporificado tanto na atuação plural quanto nos meios de produção do teatro. D. Juan de Molière, encenação apresentada agora sob a direção de Roberto Lage, é uma radicalização pouco feliz dessa proposta essencialista. Depois de transcorridos quatro atos dessa comédia, que certamente não peca pela extensão, se chega a uma explicação possível para a absoluta irrelevância dos episódios precedentes. Todos os acontecimentos cênicos, desde as reflexões das personagens até as marcações, a iluminação, os figurinos e o revestimento do palco, foram arquitetados para convergir para uma única idéia: o discurso do protagonista sobre a hipocrisia dos falsos moralistas que vivem apontando os erros alheios para desviar o olhar público das suas próprias falcatruas. Apenas enquanto discorre sobre esse tema, indiscutivelmente na ordem do dia, o D. Juan interpretado por Jairo Mattos parece adquirir ânimo, saber o que fala e encontrar finalmente um interlocutor na platéia. Até então, as cenas transcorrem com a máxima aceleração possível para permitir apenas a pronúncia das frases, o que não é suficiente para torná-las compreensíveis. Resultado de uma simplificação conceitual que desemboca no simplório, o espetáculo de Roberto Lage faz desaparecer inteiramente a estratégia sedutora da personagem. Quando se refere à intemporalidade do desejo sempre à procura de um novo objeto, este D. Juan não se abala e não nos abala. É evidente que não leva a sério as mulheres, mas há no texto de Molière uma formulação tão esplêndida sobre o significado do impulso erótico que ultrapassa largamente a esfera do tipo conquistador das comédias populares. A este namorador posto à vontade, desleixado nos gestos e pouco atento ao seu próprio universo ou ao dos interlocutores falta, além da ânsia erótica, a dimensão da insurgência. Seria preciso energia física e uma dose razoável de rancor contido para sugerir o provocador capaz de desafiar seus pares, a autoridade paterna, a Igreja e o próprio Deus. Em vez disso, preparando-se, talvez, para insuflar credibilidade ao trecho enfatizado no quinto ato, a interpretação de Jairo Mattos desliza com uma frieza levemente risonha sobre esses aspectos múltiplos da malignidade do protagonista. Às vezes com um sorrisinho um pouco malvado, mas nunca cruel porque é obrigado a se precipitar em direção ao que se considera a idéia mais importante do texto, esta recriação de D. Juan acaba por esvaziar a função do seu interlocutor por excelência. A virtude da moderação, o respeito às convenções vigentes e a simples piedade sem afetação de Sganarello talvez não sejam qualidades especialmente admiráveis em contextos sociais fundados na ética laica, mas, do ponto de vista da mecânica teatral, a argumentação do criado funciona como uma espécie de contracanto bucólico ao cinismo cortesão. Diante de um sedutor abúlico e um malfeitor igualmente desapaixonado, os argumentos são esgrimidos por Ângelo Brandini como se fossem endereçados ao público. Essa forma de abordagem direta, que transforma o dramático em narrativo, é responsável, neste caso, por uma verdadeira sangria de significados. Se o criado não fala diretamente ao patrão, se não é mais capaz de acreditar na redenção possível (seja ela de ordem espiritual ou social), também não terá direito ao grito que põe fim à peça. Serviço Don Juan. 14 anos. 100 min. Teatro Ágora (88 lug.). Rua Rui Barbosa, 672, Bela Vista, 3284-0290. 6.ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 20

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