André Seiti
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Símbolo na luta antirracismo, bloco Ilê Aiyê ganha mostra em São Paulo

Primeiro bloco afro do País, Ilê colocou o negro em papel de destaque no carnaval baiano. Exposição traz peças, imagens e depoimentos que contam história do grupo

João Abel, Especial para O Estado

05 Outubro 2018 | 06h00

Quem ouve os versos de Um Canto de Afoxé para o Bloco do Ilê, de Caetano Veloso, ouve também uma reverência ao primeiro bloco afro do Brasil: o Ilê Aiyê. Símbolo da resistência negra em Salvador, o grupo completa 45 anos no carnaval de 2019. Mas as comemorações começaram já na quarta, 3, com a abertura da Ocupação Ilê Aiyê, no Itaú Cultural, mostra que conta a história do movimento.

O convite à imersão na memória do Ilê se dá logo na fachada do prédio, que ganhou uma pintura especial. “A produção foi feita pelo grafiteiro Brisola e segue a identidade visual do artista baiano J. Cunha, com as cores do Ilê: preto, amarelo, vermelho e branco”, explica Vinícius Murilo, integrante da equipe de curadoria da mostra.

Ao entrar no edifício, o visitante se depara com o início da ocupação, que toma conta do térreo e se divide em quatro eixos. O primeiro deles tem como fundo musical a canção Ilê de Luz, cantada a capela por Luedji Luna, e fotos de moradores da Liberdade, bairro de Salvador com uma das maiores concentrações de negros no País e sede do bloco. Entre os rostos, uma figura-chave: Antonio Carlos dos Santos, o Vovô, criador do grupo nos anos 1970.

“Naquela época, os negros estavam limitados a carregar instrumentos ou alegorias nos blocos. Era um carnaval mais elitizado e branco”, detalha o fundador do Ilê Aiyê. Ao lado de sua mãe, Hilda dos Santos, e de um grupo de amigos, surgiu a ideia de criar um bloco com protagonismo da matriz africana. 

A escolha do nome foi feita em votação com os primeiros membros do grupo – cerca de 100 pessoas. “A princípio, eu preferia algo que remetesse ao black power (poder negro), mas Ilê Aiyê era mais sonoro, mais musical, e acabou pegando.” No dialeto nigero-congolês, ‘ilê’ significa ‘casa’ e ‘aiyê’ quer dizer ‘terra’ ou o ‘mundo terreno’. Na tradução da fundadora Mãe Hilda: “A casa de todos”. 

O crescimento exponencial do bloco não veio sem repressão e preconceito racial. “Muitas pessoas nos chamavam de ‘falsos africanos’ e jornais chegaram a dizer que éramos racistas, por excluir brancos”, comenta Vovô. O Ilê resistiu e ajudou a contar a história afro sob a ótica do próprio negro. “Um ano depois, já surgiram blocos parecidos”, acrescenta.

Não demorou para que o movimento ganhasse visibilidade e atraísse a atenção de nomes da música baiana, como Margareth Menezes e Daniela Mercury. As cantoras gravaram depoimentos que estão no segundo eixo da exposição. No espaço seguinte, uma linha do tempo retrata os 44 temas de carnavais do bloco, que tem quase 3 mil associados e já se apresentou em mais de 20 países.

Na sala interativa do último núcleo, uma projeção do mestre Kehindê Boa Morte explica a sonoridade de quatro tipos de tambores (caixa, repique, surdo e martelo) e ensina a tocá-los em instrumentos à disposição do público. 

Quem quiser ver de perto os músicos do Ilê pode conferir apresentações no Auditório Ibirapuera por R$ 30. Nesta sexta, 5, com os blocos Ilú Obá De Min e Ilú Inã, e no sábado, 6, com as cantoras Luedji Luna e Xenia França. “O Ilê me influenciou tanto musicalmente como no empoderamento. É um dos maiores símbolos da cultura negra e merece ser homenageado. A invisibilidade do nosso povo se transformou em protagonismo e orgulho preto com o Ilê Aiyê”, define Xenia.

OCUPAÇÃO ILÊ AIYÊ

Itaú Cultural: Av. Paulista, 149. Tel.: 2168-1777. 3ª a 6ª, 9h às 20h. Sáb., dom. e feriados, 11h às 20h. Grátis. Até 6/1.

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