Silent Disco, as cápsulas dançantes

Projeto foi um dos mais interessantes do evento que terminou ontem à noite

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

28 de abril de 2008 | 00h00

Uma das experiências mais interessantes e inusitadas desta Virada Cultural foi o projeto holandês Silent Disco. Quem desembarcava do metrô São Bento na madrugada de sábado para domingo estranhava a situação. Cerca de 500 pessoas portando fones de ouvidos e dançando ao som de uma música que quem estava de fora não ouvia. Quem não sabia do que se tratava demorava a entender. Era uma pista de dança em que ninguém se falava e só se comunicava por linguagens corporais. "É ideal para dar uma festa num apartamento", dizia um dos curiosos. "Muito louco", emendava outro. Galeria de fotos da Virada Cultural Alguns grupos ensaiavam coreografias e esporadicamente soltavam urros por conta das viradas dos DJs e de vez em quando os que estavam apenas de espectadores se viam cantando junto com quem estava na pista músicas mais conhecidas como Keep It Coming Love, do KC and the Sunshine Band, ou acompanhando com palmas os compassos de outras mais sincopadas. Um grupo de atores de teatro de rua chegou a convocar algumas pessoas a fazer uma "balada paralela", imitando os passos de quem estava na pista e dançando ao som do silêncio. O projeto funcionou da seguinte maneira: havia uma área fechada diante do Mosteiro de São Bento e quem entrava na pista recebia um fone de ouvido para entrar na balada. A cada hora o grupo devia sair e dar entrada para outro que se mantinha em fila. A experiência foi curiosa não só para quem observava de fora, mas para quem teve o privilégio de receber o tão cobiçado fone de ouvido. Você se sentia no mundo à parte. Meio à parte, em outro sentido, também ficaram algumas bandas independentes, cujo palco teve o som de pior qualidade técnica do evento. Os baianos do Retrofoguetes, com seu surf rock, teria segurado muito mais público não fosse o som estridente que prejudicou o divertido show da banda.Já quem passou pelas outras áreas de balada eletrônica na 15 de Novembro parece não ter tido tanto prazer quanto os privilegiados do Silent Disco. Superlotada, com um calor infernal a rua e suas adjacências ficaram intransitáveis. Na falta de banheiros químicos (a maior deficiência da Virada), as portas dos edifícios viraram mictórios. Na alta madrugada, o odor era insuportável. Ali também foi o local de astral mais baixo da Virada, com cenas deprimentes nas calçadas. Muito esquisito.Atravessando o Viaduto do Chá, o público se entretinha com malabaristas que atravessavam o Vale do Anhangabaú pendurados em bicicletas ou fazendo um balé de rapel nas paredes do Shopping Light ao som de Oração ao Tempo, de Caetano Veloso. Na Praça Dom José Gaspar, no fundo da Biblioteca Mario de Andrade, o clima também era de silêncio, mas o som era completamente diferente. Acomodado em cadeiras de plástico, o público lotou a praça durante toda a noite para ouvir atentamente o dedilhar suave de pianistas como Benjamin Taubkin e Adilson Godoy. Era o espaço ideal para um descanso (de pernas e ouvidos) da turnê por outros palcos - como o do samba no Largo Santa Ifigênia, o do rock na Praça da República e o principal na Avenida São João, que estiveram abarrotados de gente quase toda a noite. O show dos Mutantes, na São João, foi um dos mais concorridos, talvez o de maior lotação. Teve gente dizendo que na verdade a banda devia se chamar Sérgio Dias e o que restou dos Mutantes, mas o certo é que realmente o mito do grupo, como já afirmou Dias, ou o seu repertório de clássicos como Batmacumba, Ando Meio Desligado e Panis et Circensis é maior do que qualquer de seus ex-integrantes e sobrevive a eles todos.

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