Signo da modernidade no século 20

Albers influenciou todos os movimentos importantes da época, do concretismo ao minimalismo, sem participar de grupos

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2009 | 00h00

Num de seus estudos, Albers classifica a cor como a maior armadilha que o olho pode enfrentar. Ela está sempre seduzindo e nos fazendo de tolos, segundo o artista. Nunca é vista como fisicamente é, o que a torna o elemento menos confiável da arte - e, ao mesmo tempo, o mais fascinante, justamente por desafiar a ordem estabelecida e resistir a todos os sistemas. Embora não seja propriamente uma novidade, desde que Goethe combinou poesia e ciência para chegar a uma conclusão semelhante (em seu estudo Farbenlehre, ou Teoria das Cores), as observações de Albers sobre a natureza das cores continuam válidas e em discussão em todas as escolas de arte que merecem esse nome. "Ver bem para pensar bem, esse era seu lema", diz Brenda Danilowitz, curadora da mostra Cor e Luz: Josef Albers - Homenagem ao Quadrado, destacando o papel missionário da pintura do alemão. Assim como Goethe classificou as cores por seu caráter (o "nobre" amarelo, o "alegre" laranja e o "triste" azul), também Albers, segundo Brenda, desenvolveu uma incomparável habilidade para encerrá-las numa dimensão metafórica em que elas brigam, se amam e desconfiam umas das outras.Essa história de amor e ódio das cores começou muito antes de 1949, quando Albers usou pela primeira vez o quadrado para explorar as interações cromáticas com essa figura geométrica, considerada um signo da perfeição e do sagrado por ser rara na natureza. Já como professor da Bauhaus, esse era um assunto que interessava ao mestre. Influenciado pelos construtivistas russos, assim como por Cézanne e os cubistas, Albers acabou se tornando uma referência para artistas do concretismo e do minimalismo, embora sempre tenha resistido a participar de grupos e movimentos. A curadora da mostra diz que, apesar de ter vivido no período de maior ebulição da arte americana, o do expressionismo abstrato, Albers manteve cautelosa distância de seus pares. Mesmo quando aceitava convites para expor. No Brasil, inclusive.Há 70 anos, por exemplo, o pintor brasileiro Flávio de Carvalho organizou a terceira e última edição do Salão de Maio na Galeria Ita, em São Paulo. Trouxe xilogravuras e pinturas em têmpera de Albers, que continuou a ter seus trabalhos expostos na cidade - em 1957 e 1969, na quarta e décima edições da Bienal de São Paulo, respectivamente. Considerando as datas, não é difícil entender as razões de Albers ter se transformado no paradigma da geração dos concretos e neoconcretos brasileiros, tanto como o suíço Max Bill (aliás, seu aluno na Bauhaus, entre 1927 e 1929). A curadora Brenda Danilowitz, a esse respeito, pergunta se ainda está vivo o crítico Theon Spanudis, um dos signatários do Manifesto Neoconcreto, que completa meio século este ano. Respondo que não e ela lembra que Albers e Spanudis trocaram informações sobre artistas como Lygia Clark, que conheceu e acompanhou de longe."Ele teve contato com vários artistas brasileiros, entre eles o designer Alexandre Wollner, Mary Vieira e Almir Mavignier quando dava aulas na Hochschule für Gestaltung de Ulm", conta a curadora. Foi lá também que Albers conheceu Niomar Muniz Sodré Bittencourt, dona do jornal carioca Correio da Manhã, que o convidou a expor no Brasil em 1948, mesmo ano em que o pintor fez sua primeira exposição alemã depois da guerra que arrasou sua terra natal e um ano antes do estudo preliminar da série Homenagem ao Quadrado, finalmente iniciada em 1950. A mostra brasileira não saiu, mas, em 1964, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) organizou uma exposição itinerante com 36 telas da série, exibidas no Rio e em São Paulo.Albers passou os últimos 27 anos de sua vida pesquisando de forma obsessiva essa estrutura de três a quatro quadrados inseridos um dentro do outro, em que a região inferior da tela sucumbe invariavelmente ao peso da figura. Ao contrário da cor de Rothko, que cria um "ambiente" para o olho, Albers não dá sossego para ele, fazendo-o circular pela tela sem encontrar um ponto de repouso. Curiosamente, esse estudo da natureza da percepção da cor nasceu de um trabalho em preto-e-branco. Brenda Danilowitz, também curadora da exposição da Pinacoteca do Estado, que une os trabalhos de Albers e de sua mulher, diz que o pintor jamais explicou a origem do título (Homenagem ao Quadrado) nem mesmo justificou a razão de ter iniciado um estudo cromático partindo de cores antagônicas - o preto e o branco. "Não acho que ele tivesse a intenção de criar uma obra serialista ou protomininalista, apesar de Donald Judd sempre se referir a Albers como um mestre", resume.De qualquer modo, a influência de Albers sobre os minimalistas parece evidente - especialmente sobre o próprio Judd e Ellsworth Kelly. Parece até mesmo incompreensível como o artista europeu conseguiu passar ao largo do expressionismo abstrato, do minimalismo e da pop art sem trânsito em nenhuma dessas áreas. "Ele conheceu De Kooning, mas era de uma outra geração e, embora não fosse nostálgico, parecia mais ligado à tradição europeia que à americana, apesar de adorar os EUA." Albers e sua mulher, vinda de uma família judia da alta burguesia, não gostavam das metrópoles, preferindo o sossego das pequenas cidades. A curadora destaca a aparente contradição entre o espírito inquieto e visionário de Albers e o orgulho de sua herança conservadora, ele que nasceu na católica cidade de Bottop, na região industrial do Ruhr, norte da Alemanha, e cresceu vendo o pai artesão desenhar e pintar móveis e portas de provincianos.O casamento com sua aluna na Bauhaus, Anni, em 1925, coincide com a primeira publicação dos primeiros ensaios do pintor e inaugura a fase cosmopolita de Albers, que começa a conhecer o mundo fora da Alemanha. Na mostra da Pinacoteca do Estado encontra-se um conjunto de obras de uma coleção que reflete a influência dos lugares visitados pelo casal sobre a obra dos dois artistas. Ela é particularmente visível na série de pinturas Variant (ou Adobe), de 1947, em que Albers evoca a arquitetura das casas populares de argila mexicanas e antecipa a geometrização das formas que o levaria à série dos quadrados.Anni, sua mulher, desde adolescente ligada ao universo têxtil, sendo uma especialista em tecelagem e pesquisadora dos tecidos andinos, costumava dizer que seus professores eram os tecelões do Peru antigo. Entre essa herança arcaica e a ânsia pela modernidade, o casal desenvolveu um movimento pendular que oscilou entre passado e futuro sem negar nenhuma possibilidade. Após a mudança para os EUA, o casal viajou 14 vezes pela América Latina, vivendo em alguns países (Peru, Chile) para dar aulas e pesquisar a cultura local. Formada em tecelagem pela Bauhaus, Anni conheceu os tecidos andinos nos museus de Berlim, antes de estudar ?in loco? o assunto de sua preferência e publicar um livro, On Weaving (Sobre Tecelagem, Dover Craft Books, US$ 19,95), em 1965. Ela foi a primeira artista têxtil a ganhar uma individual no MoMA, em 1949. A curadora da exposição na Pinacoteca, que selecionou alguns trabalhos da mulher de Albers, conheceu a artista, definindo-a como uma pessoa discreta, avessa à agitação da comunidade artística. "Os dois viviam como monges e ela entendia perfeitamente suas obsessões, a ponto de cuidar primeiro de seu legado artístico, deixando de lado a própria obra."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.