Sexo e religião em filme transgressivo

Segredos Íntimos, do israelense Avi Nesher, revela os bastidores de uma comunidade de judias ortodoxas

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2009 | 00h00

Interessante este drama feminista ambientado numa comunidade de judeus ortodoxos. Segredos Íntimos, de Avi Nesher, conta a história de uma garota que, para adiar um casamento indesejável, convence o pai, rabino, a aprofundar-se no estudo da Cabala. Naomi (Ania Bukstein) vai para uma escola em Safed, onde estuda e alimenta o sonho de tornar-se rabina. Lá, sua vida sofrerá algumas reviravoltas fundamentais. De temperamento rígido, Naomi conhecerá uma colega mais liberadinha, Michelle (Michal Shtamler), com a qual partilhará mais do que preocupações juvenis e questões religiosas. Veja o trailer de Segredos Íntimos Mas o maior desafio surge da presença de uma mulher madura, doente e não judia, Anouk, vivida pela atriz francesa Fanny Ardant. Anouk mora sozinha, está doente e, no passado recente, foi condenada pelo assassinato do homem com quem vivia. O seminário, dirigido por uma religiosa caridosa, dá assistência à mulher, ainda que ela não faça parte da comunidade. As meninas são designadas para fazer-lhe companhia, mesmo porque Anouk é doente terminal de câncer, sente dores e não pode cuidar de si mesma.Dirigido com delicadeza, o filme cuida do processo de amadurecimento das jovens, tão mais problemático porque se dá no quadro de uma cultura repressiva. De certa forma, Naomi e Michelle estão ainda em via de assumir suas identidades sexuais e culturais. "Debatem", com suas ações, entre outras coisas, como devem se inserir numa determinada cultura, a judaica. Se tentam modificar o que podem ou se se conformam com o que lhes é dado. Num ambiente machista, dão um toque feminino que, não raro, parece ameaçador àquilo que já está estabelecido. Por isso, o pai de Naomi deseja casá-la o mais rápido possível e com uma pessoa de sua confiança. Por isso também, a diretora do seminário tem a esperança de que as mulheres de sua geração alcancem uma posição mais igualitária na hierarquia religiosa, mas, ao se defrontar com a primeira dificuldade, recua e trava-se em seu conformismo.Essas questões aparecem todas imbricadas na trama, juntamente com o elemento desestabilizador representado pela personagem de Fanny Ardant. Isso porque as meninas, para aliviá-la de suas dores e seu desespero, decidem submetê-la a um ritual privativo dos judeus. Essa (subversiva) abertura para o outro, e também um início de amor lésbico, compõem o núcleo complicado da história. E que fará parte do processo de amadurecimento das garotas.Avi Nesher filma com delicadeza, mesmo algumas cenas mais fortes. Mostra um ambiente cultural pouco exposto pelo cinema. E o faz de maneira crítica, porém gentil. Ao evitar finais felizes e artificiais, mostra que existe um apelo forte pela normalidade, mas que, apesar de tudo, a contestação ainda é possível. E pode ser uma saída para os menos acomodados. ServiçoSegredos Íntimos (The Secrets, França-Israel/2009, 127 min.) - Drama. Dir. Avi Nesher. 14 anos. Cotação: bom

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