Hélvio Romero
Hélvio Romero

Sesc Pompeia, novo ícone da arquitetura mundial

Colocado ao lado do prédio da Seagram e da Ópera de Sidney, projeto de Lina Bo Bardi virou marco internacional

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2021 | 16h34

O reconhecimento internacional do projeto do Sesc Fábrica Pompeia com sua inclusão na lista dos melhores publicada pelo jornal The New York Times, colocando-o ao lado de ícones como o prédio da Seagram ou a Ópera de Sidney, é duplamente benéfico para a arquitetura brasileira voltada para o social. Primeiro porque, como escreveu a própria autora do projeto, Lina Bo Bardi, em 1986, a ideia inicial de recuperação da antiga fábrica da Pompeia foi a de uma “arquitetura pobre” – não no sentido de indigência, como deixou claro, mas no sentido artesanal. É preciso enfatizar que o respeito pela estrutura original do conjunto foi uma resposta de Lina  à “retromania” do pós-modernismo europeu e norte-americano.

Ela acusava os arquitetos pós-modernos de reciclar os estilos antigos para “gratificar as classes mais abastadas com as reciclagens espirituais do passado”, ao promover um cruzamento híbrido e de gosto duvidoso de cornijas, portais, frontões, arcos romanos e góticos sem o menor constrangimento. Mais: estavam voltando, segundo Lina, aos arcos e colunas do nazi-fascismo. O Sesc Fábrica Pompeia não seria nada disso. O projeto moderno não estava encerrado. E ele seria um espelho dessa crença.

Lina entrou pela primeira vez na fábrica abandonada em 1976. O que primeiro chamou a atenção da arquiteta foram os galpões construídos conforme a arquitetura inglesa dos tempos da industrialização europeia no século 19. Para ela, era um “dever” conservar aquela obra. Na segunda vez que lá esteve, Lina viu crianças, mães e idosos andando de um pavilhão a outro. Crianças jogavam bola, senhoras faziam churrasquinho na entrada da rua Clélia e havia até um teatro de bonecos para animar as famílias sob aqueles telhados em ruínas: estava definida a vocação da fábrica, que seria um centro de lazer.

 Em 1982, segundo seu colaborador Marcelo Ferraz, a “bomba” finalmente explodiu no ambiente arquitetônico brasileiro: o Centro de Lazer Fábrica Pompeia (mais tarde Sesc Pompeia). Era impossível enquadrar aquela arquitetura. Durante nove anos, de 1977 a 1986, Lina e seus colaboradores trabalharam para fazer daquele centro de lazer uma referência de arquitetura criativa, fora do vale-tudo pós-moderno. O último bloco inaugurado, em 1986, trazia um complexo poliesportivo de concreto aparente e duas torres interligadas como na cenografia futurista do filme Metrópolis, de Fritz Lang, segundo Eduardo Subirats e Marcelo Ferraz.

O crítico de arquitetura Subirats, num texto de 1991, classificou, de fato, de “expressionista” o projeto arquitetônico, ressaltando os contrastes entre a antiga edificação da fábrica de tambores e as modernas torres do conjunto esportivo com suas janelas “caprichosas’ que resistem à ordem geométrica, bauhausiana, para abraçar a expressão e a fragmentação contemporânea. O Sesc Pompeia, enfim, encontrou um caminho original na arquitetura, pautado pela ousadia de Lina Bo Bardi. A menção no New York Times é mais que merecida.

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