Série Opinião define o perfil do público na feira

Participantes votaram sobre temas polêmicos, como aborto e drogas, após debates com especialistas

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 00h00

O público da Bienal do Livro (ou parte dele) crê em Deus, é favorável à descriminalização do aborto e da maconha, contrário à redução da maioridade penal e acredita que a história absolverá Fidel Castro. Novidade desta edição da feira, a Série Opinião, realizada na Esquina do Leitor até ontem, ajudou a traçar um perfil dos que passam pelo Riocentro. Ao fim de cada sessão (foram 11), os visitantes exprimiram o que pensam através de votação eletrônica.Os organizadores da bienal partiram da premissa de que opinião se discute, sim. Entretanto, para que essa opinião seja formada, é preciso ouvir quem entende do assunto. Na segunda-feira, dois profissionais que lidam com dependentes de drogas, o psicanalista Luiz Alberto Pinheiro de Freitas e o psicólogo Roberto Pereira Coelho, da Secretaria Combate à Dependência Química, foram convidados a discutir a legalização da maconha. Os argumentos de Freitas foram os mais convincentes: 64,3% dos presentes se disseram favoráveis à descriminalização.O estudante João Pedro Almeida, de 20 anos, usuário de maconha, fez questão de deixar registrado seu ''''sim''''. ''''A proibição só fortalece o tráfico de drogas e a corrupção policial. O policial da rua é o juiz que decide quem deve ser punido (por estar com droga)'''', justificou o rapaz. A platéia (28 pessoas) tinha muitos jovens, o que pode explicar o resultado da votação. Apesar de ''''derrotado'''' na consulta, Coelho foi aplaudido ao falar. Para o psicólogo, o País não está preparado para a liberação, porque faltam infra-estrutura ao sistema de saúde, informação e fiscalização. ''''Já temos drogas legalizadas demais'''', disse, citando o álcool e o cigarro, ''''as que mais matam os brasileiros''''. ''''O uso controlado é uma ilusão perigosa. No Brasil, há uma clínica para cada 2 milhões de pessoas; na Inglaterra, é uma para 100 mil.''''Freitas, que também recebeu aplausos, foi enfático ao dizer que não se trata de ''''oba-oba''''. ''''É evidente que droga faz mal. Do mesmo jeito que fazemos campanha contra o álcool e o tabaco, tem de ter contra a droga. As escolas têm de ter trabalho de prevenção e de encaminhamento para os casos de dependência'''', explicou, lembrando que os adolescentes de classe média têm o primeiro contato com a droga na escola, enquanto o de comunidades carentes vivenciam a experiência do tráfico de drogas no dia-a-dia. ''''Não se pode ser mais realista do que o rei. A droga vai sempre existir.''''A discussão foi acalorada, como foram a maior parte das sessões. No domingo, o debate sobre aborto também rendeu. Enquanto a teóloga Maria Clara Bingemer sustentava a posição da Igreja Católica de proteção à vida, a atriz Maitê Proença e o obstetra Adson França, representando o Ministério da Saúde, lembraram o preço alto que as mulheres pobres pagam por conta da proibição do aborto. Por fim, 53,8% dos presentes se posicionaram pró-descriminalização.No sábado, a ''''absolvição'''' de Fidel Castro pela história (como o próprio prenunciou no discurso de 1953, quando foi julgado por tribunal de Fulgêncio Batista) havia esquentado o clima na Esquina do Leitor. O filósofo Emir Sader fez defesa do presidente cubano - chegou a acusar a imprensa brasileira de chamá-lo, injustamente, de ditador; já o jornalista José Maria Mayrink, do Estado, tomou o cuidado de diferenciar o revolucionário de outrora e a figura controversa de hoje. Fidel foi ''''absolvido'''' por 90% dos votantes.

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