Seresta na varanda de Dona Canô

Assim é o clima do filme Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda, que estréia hoje

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 00h00

Andrucha Waddington não tem outra definição para Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda, seu belo documentário que estréia hoje em São Paulo, no Rio e em mais oito cidades (entre outras, Campinas, Jundiaí, Taubaté, Brasília e Goiânia). Ele diz que o filme foi ''''autogerado''''. Vinha de longe o desejo do diretor de trabalhar com Maria Bethânia. Apaixonado por MPB, diretor de clipes, Andrucha fez o documentário Festa de São João e ainda explorou todo o potencial da música nordestina na vibrante trilha de Eu Tu Eles, com participação de Gilberto Gil. Bethânia era um sonho. Um dia, ele recebeu um telefonema da cantora que ia comemorar 60 anos com um show na Concha Acústica de Salvador. A própria Bethânia perguntava se Andrucha topava filmar o show.  Veja trailer do filme Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda Ele estava no Rio. Tomou o avião com uma equipe reduzidíssima (câmera e técnico de som). Em Salvador, fez alguns acertos mínimos com a cantora - ele não ia perguntar nada. Queria que Bethânia o conduzisse. E pediu para registrar os bastidores, para filmá-la no camarim. Bethânia aceitou. Andrucha filmou o show da coxia e utiliza só uma música, na abertura do filme - Gita, de Raul Seixas, que Bethânia canta de costas para a câmera. De volta ao Rio, passaram-se seis meses, e Andrucha não sabia direito o que fazer com o material que registrava aquele 18 de junho, em 2006. Foi quando recebeu novo telefonema de Bethânia. Ela estava em Salvador com o mano Caetano e, no dia seguinte, ambos iriam para Santo Amaro, onde haveria uma missa em homenagem a Dona Canô, mãe dos artistas.De novo Andrucha embarcou. Com uma equipe mínima - e silenciosa, instalada no banco de trás do carro qure Caetano conduzia, com a irmã ao lado -, ele registrou a conversa dos dois, à medida que se aproximavam de Santo Amaro da Purificação. Andrucha filmou a missa e, depois, ocorreu algo mágico. A mãe de Bethânia e Caetano serviu uma refeição (um jantar). Foram para a varanda. Começou uma seresta que se estendeu pela madrugada. Foram cinco horas de canto e violão. ''''Dona Canô tem uma voz muito afinada e ali eu pude perceber como a música havia sido o traço de união daquela família, que ela, como matriarca, educou por meio de todas aquelas canções que iam sendo desfiadas'''', diz o diretor.Até aí, Andrucha ia sendo levado pelo que ainda não era um filme - mas ele percebia que aquela seresta na varanda seria o eixo para uma possível narrativa. No dia seguinte, muito cedo, ele voltou à casa e, desta vez, realizou a única entrevista de Pedrinha de Aruanda - com Dona Canô. Tudo foi feito com câmera na mão, tecnologia digital. O material, editado, resultou num longa documentário de 73 minutos que estréia hoje. É sobre Bethânia, que lhe dá nome, mas é sobre Dona Canô. Filmes do Estação, do Rio, interessou-se pela distribuição. A proximidade do centenário de Dona Canô, neste final de semana, em Santo Amaro, fez pipocar o interesse de exibidores de todo o Brasil pelo filme. O documentário autogerado de Andrucha Waddington está chegando agora às platéias.''''Foi um filme que nasceu espontaneamente, sem nenhum planejamento'''', ele explica. Mas toda Bethânia está neste diário pessoal em que a cantora se revela na intimidade, sem necessitar de declarações bombásticas. Bethânia sequer faz revelações de ordem pessoal. Dona Canô é que faz algumas - sobre a filha que um dia ela viu partir para o Rio, para substituir Nara Leão num espetáculo que se tornou lendário, Opinião, e de como ela voltou diferente. A casa, a varanda, a família. Neste ambiente acolhedor, o espectador sente-se como um penetra, enquanto Bethânia resgata pérolas da MPB, como Gente Humilde, Tristeza do Jeca e Felicidade.Existe uma atração muito forte desta família pelo cinema. Caetano tem participado da trilha de filmes que se tornaram marcos da chamada Retomada - o cinema brasileiro que se (re)inicia com Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camurati, em 1995. Basta pensar em 2 Filhos de Francisco, em Lisbela e o Prisioneiro. Bethânia solta a voz no primeiro, cantando É o Amor, na biografia de Zezé di Camargo e Luciano, filmada por Breno Silveira. Bethânia também foi tema de um recente documentário do francês Georges Gachot, Música É Perfume. Outro documentário sobre Bethânia, você poderá até se perguntar? Mais um?Sim, e este, pelo tom mais intimista, de quem volta para o aconchego, é um regalo que os fãs poderão receber não propriamente como um filme sobre Bethânia, embora o que o deflagrou tenha sido a festa de 60 anos da cantora, mas outra coisa - uma espécie de ''''2 Filhos de Dona Canô'''', já que, como na biografia de Zezé e Luciano, em que o eixo do drama se deslocou da dupla para seu pai, Seu Francisco, aqui é a matriarca centenária que vira a personagem marcante. Dona Canô já é personagem no começo, na Concha, quando a Banda dos Bombeiros ataca o Feliz Aniversário e a câmera faz um movimento para flagrá-la comendo uma fatia de bolo.Andrucha observa que Pedrinha de Aruanda estréia agora, mas será para uma curta temporada, porque já no fim do mês será lançado o DVD do filme, que vai incluir outra pérola, essa cinematográfica. Em 1966, Bethânia restava despontando, para o Brasil e o mundo, em Opinião. Júlio Bressane e Eduardo Escorel imediatamente perceberam que algo ia se passar na música brasileira e lhe dedicaram um curta, Bethânia Bem de Perto, que será ofertado como bônus de Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda. Ouro puro.Serviço Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda (Brasil/2006, 60 min.) - Documentário. Dir. Andrucha Waddington. Cotação: Bom

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