Ser ou não ser um texto do bardo, o que isso importa?

Melhor é curtir Cardenio, supostamente uma comédia perdida de Shakespeare

, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

Ser ou não ser uma peça de Shakespeare talvez não seja a questão mais importante para o espectador de Cardenio, que inicia temporada hoje no Galpão do Folias. Afinal, o que interessa ao público ao acomodar-se diante de um palco é usufruir de boa arte e, numa comédia como é o caso, no mínimo sorrir com gosto. No entanto, foi essa questão autoral - ter como origem uma peça perdida do bardo - a razão da existência desse espetáculo, em cuja plateia era esperado ontem, na estreia para convidados, Stephen Greenblatt, pesquisador da Universidade de Harvard, responsável pela iniciativa da montagem.A história do texto é longa e tortuosa. Sabe-se com certeza que estreou em 1613 uma peça chamada Cardenio, assinada por Shakespeare e John Fletcher. O manuscrito foi dado como perdido até 1728, quando Lewis Theobald afirma tê-lo encontrado e adaptado à sua época como Dupla Falsidade. Em seguida, doou o original à biblioteca do Covent Garden Theatre, que pegou fogo em 1728. A partir daí surge a dúvida: ele tinha mesmo o original? Em entrevista ao Estado, por e-mail, antes de vir ao País, Greenblatt mostra acreditar que sim."Lewis Theobald anunciou tê-lo encontrado e publicou a adaptação que afirmou ter sido nele baseada. Como o original se perdeu, os céticos clamaram que toda a peça era fraude. No entanto, estudos persuadiram alguns pesquisadores que Dupla Falsidade foi mesmo baseada num texto original do século 17, por sua estrutura. Posso ser cético sobre a possibilidade de saber com exatidão quanto há de Shakespeare, mas sem dúvida tem muito dos temas que o obcecaram ao longo de sua vida."Foi a partir de Dupla Falsidade, e da comprovada fonte de inspiração de Shakespeare para criar esse texto, um episódio de Dom Quixote, que Greenblatt escreveu sua própria versão de Cardenio, em parceria com o dramaturgo norte-americano Charles Mee. Depois, criou um projeto por meio do qual grupos teatrais de diferentes países estão sendo convidados, e apoiados com US$ 25 mil, a recriar essa comédia, na qual um casal de noivos ganha de presente de casamento um texto de Shakespeare para ser representado aos convidados. A trama serve de espelho aos noivos, e muda o seu destino.O que Greenblatt espera da encenação do Folias? "No melhor espírito shakespeariano, uma visão original, autoral, única, possível só nesse grupo que vive e atua nesse país." ServiçoCardenio. 110 min (com intervalo de 10 min.). 12 anos. Galpão do Folias (90 lug.). Rua Ana Cintra, 213, tel. 3361-2223. De 5.ª e 6.ª, 21 h; sáb., 21h30; dom., 20 h. R$ 30. Até 30/8

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