Sentimento da compaixão é que move a personagem

Verônica e Gloria, dois nomes de mulher, dois filmes que se aproximam. Maurício Farias faz com sua Verônica o que John Cassavetes fez com Gloria - a história de uma mulher que, levada pelas circunstâncias, é obrigada a cuidar de uma criança e defendê-la contra criminosos. Há uma outra "coincidência" no caso. Gloria era interpretada por Gena Rowlands, mulher de Cassavetes; Verônica vive na pele de Andréa Beltrão, mulher de Farias. Eis aí. E por aí, afora a provável homenagem e as eventuais citações, cada qual segue seu caminho próprio. Concentremo-nos em Verônica. Assista ao trailer de VerônicaA primeira coisa a ser dita é que se trata de um tour de force de Andréa Beltrão. O filme constrói-se inteiro em cima dela, num esforço contínuo e concentrado para que a tensão não caia e a verossimilhança não se perca. O que às vezes não é fácil, convém admitir, porque nem sempre o roteiro é redondo e alguma situações parecem além do que se consegue imaginar em termos de realismo. O que dificulta é que, desde o projeto até a sua realização, tudo se baseia no mais estrito realismo. Não existe jamais aquele recurso usado por alguns filmes de ação contemporâneos de transformar a violência em algo onírico, ou comicamente exagerado. Estamos aqui no quadro, muitas vezes estreito e problemático, do realismo. E é nele que o filme como um todo tem de se equilibrar, e não apenas a atuação de Andréa. Dito isso, é preciso também acrescentar que, sem ser brilhante, o filme sai-se bem, criando no espectador o impacto da situação e mantendo a empatia no personagem. Ou nos personagens, já que Verônica divide a cena quase o tempo todo com o menino Leandro (Matheus de Sá). Ele é quem teve os pais assassinados e está de posse do pen drive que conteria segredos de conexão do crime com a polícia. O fato é que Farias escava no fértil (do ponto de vista ficcional) filão da violência urbana brasileira. Uma realidade com a qual, ao que parece, teremos de conviver de maneira cada vez íntima, por assim dizer. Essa coabitação passa a ser uma segunda natureza do cidadão brasileiro que mora nas grandes cidades e, a esta altura do campeonato, também nas médias e pequenas. Aconteceu alguma coisa (este lugar não é próprio para sociologias) que tornou a convivência com a violência algo natural. Um dado da vida, como comer, dormir ou respirar. Assim, não vemos com muita surpresa uma professora quarentona e com ar cansado acabar por se envolver com armas e policiais corruptos dispostos a tudo. Talvez menos usual seja a maneira como Verônica se envolve. Se ficasse na dela, não teria problemas e não haveria a história. Este é mais um ponto de contato com a obra de Cassavetes, pois as duas personagens são movidas por esse sentimento difuso, que às vezes parece tão destinado à extinção como o sossego nas grandes cidades - a compaixão. Estranho sentimento, que leva alguém a simpatizar com a dor do próximo, mesmo quando isso implica risco físico, real e palpável. Verônica deixa-se levar por esse estado de espírito tão contrário à lei da autopreservação. É o que dá encanto ao filme. E a ela. ServiçoVerônica (Brasil/2008, 90 min.) - Drama. Dir. Maurício Farias. 12 anos. Cotação: Bom

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