Gabriela Nolasco/EFE
Gabriela Nolasco/EFE

Sensação do grafite brasileiro, Thales Pomb se inspira no azul e em Goya

'Não faço para a aprovação dos outros, faço por mim mesmo', conta o artista que está em constante produção

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2020 | 12h09

Ele ilustra e dá vida com esmero tanto a um muro de 30 metros de altura como a pinturas a óleo. A cor azul o inspira, e o espanhol Francisco de Goya é uma de suas referências artísticas. Seu nome é Thales Fernando, o Pomb, um dos mais proeminentes grafiteiros brasileiros da atualidade.

Seguindo a filosofia de ícones da arte urbana no Brasil como Eduardo Kobra e Os Gêmeos, Pomb, de 31 anos, também está "em constante produção", seja na rua ou em sua oficina em São Paulo, no tradicional bairro do Cambuci, onde recebeu a Agência Efe.

Na pequena sala que ele aluga e que pertence a um complexo educacional abandonado, o artista brasiliense explora uma criatividade que não se restringe apenas às latas de aerossol. Ele faz gravuras, pinturas a óleo, ilustrações e esculturas.

Tímido diante das câmeras e breve nas respostas, Pomb busca, acima de tudo, o próprio prazer que experimenta na pintura. "Não faço para a aprovação dos outros, faço por mim mesmo. Se as pessoas gostam ou não depende de cada um, é muito subjetivo", explicou.

O grafiteiro graduou-se em Desenho Industrial pela Universidade de Brasília (UnB) e completou sua formação em Buenos Aires e Barcelona, onde em 2014 realizou sua primeira exposição individual. Mas foi nas ruas que ele lutou.

"Já fui denunciado pelas autoridades e tive que prestar serviço comunitário", contou.

Desde o início dos anos 2000, em Brasília, até a mudança para São Paulo, Pomb tem produzido murais e intervenções artísticas que captam a atenção de cada vez mais pessoas.

Entre suas obras mais aclamadas está um gigantesco grafite na lateral de um edifício na rua da Consolação, no coração da capital paulista, resultado de uma ação comercial de uma empresa do setor de mobilidade.

O estilo de Pomb cativa com sua variedade de formas e cores.

"O Brasil é culturalmente muito rico, também em gastronomia, com uma grande variedade de frutas, por isso meu trabalho também é muito colorido. Embora agora tenha mais tons pastéis, permanece a influência de cores brilhantes, da alegria do povo que se reflete na arte", disse.

Com seus 12 milhões de habitantes, a frenética São Paulo é uma inevitável fonte de inspiração para Pomb. "As coisas não param de acontecer, há muita gente na rua, muitos carros, muitos ônibus, e isso vai te envolvendo", afirmou.

Designer, ilustrador e escultor.

Pomb ampliou seu raio de ação fora dos muros da cidade. Ele ilustrou uma edição comemorativa de um icônico tênis de uma famosa marca esportiva e a capa da revista Piauí na edição mensal de junho de 2020.

"A Dança", de Henri Matisse, inspirou o jovem artista a adaptar essa obra à realidade brasileira.

Como no original, cinco figuras são retratadas, embora, em vez de estarem nuas, usem a camisa da seleção brasileira e dancem ao redor de um caixão, numa crítica velada à atitude laxista do presidente Jair Bolsonaro e de seus apoiadores durante a pior fase da pandemia de covid-19.

Em sua vertente como escultor, Pomb criou "Azul", um boneco com características de vampiro que se revelou um sucesso comercial. "Ele é um personagem que se alimenta da cidade e varia, às vezes está mais irritado ou tranquilo, e sua cor clássica é o azul", contou.

Por que o azul?

"Me traz paz, tranquilidade, embora também possa ser uma cor densa. Sempre me associei muito bem a ela. Está relacionada a Brasília, onde o céu é muito vasto e você pode vê-lo de qualquer lugar da cidade", disse.

Pomb dialoga com diferentes gerações de artistas e com outras disciplinas. Em uma das mesas de sua oficina há um exemplar de uma das obras do poeta Manoel de Barros (1916-2014). E ele mostra admiração pelo legado de artistas consagrados. Adriana Varejão é uma de suas inspirações, e outra, o espanhol Goya (1746-1828).

"Desde suas gravuras sobre touradas, até os trabalhos sobre execuções (em alusão aos fuzilamentos de 2 de maio). É algo muito pesado, muito forte, me inspira muito essa fase sombria, essa técnica bruta", concluiu./ Antonio Torres del Cerro, EFE

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