Sempre em torno do mesmo plano

Estação Pinacoteca mostra a trajetória do pintor Daniel Senise e exibe também obras de Amelia Toledo e de Fabrício Lopez

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

A Anunciação é cena bíblica da aparição do anjo Gabriel a Maria e também, há tanto tempo, referência para a História da Arte - tantas telas e obras, de Botticelli a Farnese de Andrade, recorrem ao tema. Por isso, não é de se espantar que um artista que tenha a pintura como gênero principal de criação volta e meia cite a famosa cena para falar de suas obras, contemporâneas, como é o caso do pintor carioca Daniel Senise, que inaugura hoje exposição individual na Estação Pinacoteca. Apesar de não usar há tempos os pincéis e criar telas a partir de processos diferentes - da construção a partir de uma espécie de colagem ou até da incorporação de objetos sobre o suporte -, o artista, em frente de sua tela abstrata Reino, de 2006, diga com humor que a composição pictórica foi acontecendo aos poucos como "uma Anunciação em que se vê o anjo depois de comer muito no almoço". Ou sobre o tríptico Misty Peach Vision Petal, de 2004, feito a partir da impressão sobre tecido das tintas e da poeira do piso de seu ateliê - processo de "sudário", como define -, ele afirme que a área em vermelho se tornou no meio da fatura uma aparição como a de Gabriel a Maria.Faça-se qualquer nova operação, tentem-se novos caminhos e processos, é com uma frase simples que Senise resume seu embate: "Eu quero ficar no plano, tudo isso é mediado pela pintura." Um dos maiores expoentes da chamada Geração 80, ele exibe 30 obras que perpassam sua trajetória desde 1994 a 2009, a maior parte delas, de grande formato - e com predomínio dos tons marrons e do ocre. Não se trata de retrospectiva, mas de um recorte sobre sua obra. "Comecei a pensar pintura em 1981 e em 1985 já estava na Bienal. Fazia um trabalho expressionista, expunha, vendia muito a ponto de achar que na década de 1990 já estaria aposentado, mas ainda especulava minha pesquisa", diz.No conjunto de suas pinturas que ocupam o 4º andar do museu, de sua produção consolidada, vê-se as várias técnicas usadas por Senise. Em Bumerangue, a mais antiga, ele faz a representação do movimento do bumerangue imprimindo a marca de pregos de ferro oxidados. Depois, da mesma maneira, coloca "o objeto se representando com sua própria matéria" na série de pinturas que remetem a pisos e espaços interiores, construídas pela colagem de faixas dos "sudários" feitos no chão de seus ateliês. Paisagem, perspectiva, ponto de fuga, representação, todas esses pontos fundamentais de pintura estão em suas obras. ServiçoDaniel Senise, Amelia Toledo e Fabrício Lopez. Estação Pinacoteca. Largo General Osório, 66, tel. 3337-0185. 3.ª a dom., 10 h/ 18 h. R$ 4 e R$ 2 (meia). Grátis aos sábados. Até 10/5. Abertura hoje, às 11 horas

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