Sempre é possível reinventar a existência

Pois o homem é o criador de tudo, diz Nietzsche na obra A Vontade de Poder

Regina Schöpke, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

O conceito nietzschiano de vontade de poder (ou de "potência", para alguns intérpretes) não deixa de ser uma resposta à idéia de "vontade de vida" de Schopenhauer. Nietzsche que, na juventude, foi um entusiasta das idéias desse filósofo, acabou chegando a um pensamento não só diferente, mas contrário, em muitos aspectos, ao de seu "mestre espiritual". De fato, nada é mais oposto à concepção nietzschiana de uma afirmação integral e profunda da existência do que a idéia schopenhaueriana de cessação da vontade, de supressão dos desejos e das paixões. Com relação à "vontade de vida" ou de "viver", como algo inerente a todo ser, Nietzsche a considera um contra-senso, já que o vivo não pode "desejar viver". Não se trata, para ele, de um desejo, de uma ânsia de vida, mas de plenitude, de potência. E potência, aqui, diz respeito a uma vontade vigorosa, a uma vontade que produz, que inventa a própria vida.Mas, para além do contraponto com Schopenhauer, a vontade de potência é realmente um conceito polêmico. Aliás, é duplamente polêmico. Primeiro, porque ele nos remete a uma obra que nunca chegou a ser escrita por Nietzsche. Segundo, porque essa idéia é profundamente mal compreendida por aqueles que insistem em interpretar esse conceito de uma forma baixa e banal, isto é, como um desejo de dominação, como vontade de obter e de exercer poder sobre os outros.Com relação à polêmica do livro, é verdade que os fragmentos e os aforismos encontrados na obra intitulada A Vontade de Poder (que está sendo lançada, em uma bela e criteriosa edição, pela Contraponto, com tradução de Marcos Sinésio Pereira Fernandes e José Dias de Moraes) são mesmo da autoria de Nietzsche. No entanto, não se pode dizer que se trata de uma obra genuinamente nietzschiana. Afinal, não foi o próprio Nietzsche quem selecionou e organizou os escritos e, assim, não podemos saber que partes ele teria desenvolvido melhor ou até mesmo excluído dos inúmeros fragmentos que deixou. O que sabemos realmente é que Nietzsche vinha trabalhando havia alguns anos nessa que era, para ele, a sua obra fundamental, o coroamento de toda a sua filosofia. Infelizmente, ela foi interrompida precocemente pela doença e pela morte.É claro que isso não quer dizer que os escritos selecionados pela irmã de Nietzsche e por seu amigo Peter Gast (que foram publicados primeiramente em 1901) sejam desprovidos de interesse e de valor filosófico para aqueles que desejam conhecer o pensamento do filósofo alemão. Pelo contrário, do ponto de vista histórico, esse livro é fundamental, até por ter sido responsável por tantas interpretações "ilegítimas" (dentre elas, a de Martin Heidegger, que busca nessa obra - e, sobretudo, no conceito de eterno retorno que o próprio Nietzsche não chegou a sistematizar em profundidade - a confirmação da sua idéia de um "Nietzsche metafísico"). De qualquer modo, não se pode perder de vista que a obra em si, como diz Mazzino Montinari, não existe.Quanto ao caráter polêmico do conceito, a questão é um pouco mais complexa, porque, de certo modo, contra o próprio Nietzsche, é possível afirmar que não existe uma única maneira de interpretar os fenômenos e as idéias. Nesse caso, é certo dizer que tudo depende das forças que se apoderam dos conceitos e lhes conferem um sentido. A questão, porém, é que todo conceito é datado, é assinado pelo seu criador, como nos mostra bem Gilles Deleuze. Assim, ainda que toda leitura seja - no fundo - uma interpretação, é preciso, quando se deseja compreender como um filósofo pensou seus próprios conceitos, que essa leitura não "desfigure" demais o seu pensamento. E desfigurá-lo, nesse caso, é fazê-lo servir a forças que ele não serve; é fazer o filósofo dizer o que ele não disse ou não poderia dizer sem comprometer todo o seu pensamento.Entender, por exemplo, a vontade de potência como "vontade que quer o poder'' é desfigurar o pensamento de Nietzsche, já que por esse conceito ele entendia uma força criadora suprema, uma força plástica que imprime, que dá forma, que cria o mundo. Dizer que todo ser é vontade de potência, é dizer que ele é uma força capaz de criar a si mesmo e a sua existência. O próprio mundo é visto como uma grande vontade de potência, que está continuamente se recriando. Não se trata, portanto, de uma vontade que deseja o poder, mas de uma "vontade como poder", como efetuação profunda de si mesma. Nesse caso, o super-homem nada mais seria do que aquele que efetua sua existência de forma plena e vigorosa, e não aquele que deseja dominar os outros ou o mundo.Indo mais fundo na compreensão dos fragmentos, vemos um Nietzsche realmente disposto a levar às últimas conseqüências o seu projeto de "transvaloração de todos os valores" - o que não se pode dar, como ele próprio afirma, sem uma vitória definitiva sobre a metafísica e o niilismo. Nesse ponto, Nietzsche é categórico: é preciso ir além dessa "vontade de nada" e desse "nada de vontade" que têm sido a expressão da vida humana. É preciso superar, ultrapassar o próprio "homem". E ultrapassar o homem quer dizer curá-lo do seu grande cansaço, dessa doença profunda chamada "niilismo", doença que nasce da impotência, da fraqueza diante da vida (que é exuberante, mas também sombria em muitos aspectos). Na ficção criada pelo próprio homem, ele se acredita senhor da natureza e acima de suas leis, mas diante da crueza do real, ele sucumbe ao desespero e procura se refugiar nos ideais que criou para lhe garantirem alguma esperança. "É preciso proteger os fortes dos fracos", diz Nietzsche, mas os fortes não são os ricos e os poderosos, como interpretam os marxistas, mas aqueles que afirmam a existência, que a desejam tal como ela é, no que ela tem de melhor e de pior.Em A Vontade de Poder, o niilismo é aprofundado e apresentado em todos os seus matizes: um niilismo que destrói os ídolos, que faz ruir todos os valores superiores, que coloca a existência frente a si mesma, desnuda, esvaziada de um sentido religioso, metafísico, teleológico; mas também um niilismo que leva ao extremo a idéia de que a vida, uma vez perdendo seu sentido superior, não tem mais valor nenhum, não tem importância, não significa nada. Na verdade, a superação do niilismo encontra-se no próprio niilismo, na sua exacerbação, em função do próprio absurdo de a vida chegar a negar a si mesma e a querer o nada.Para Nietzsche, é preciso recuperar o "sentido da terra", e isso quer dizer simplesmente recuperar o sentido da existência. Para tal, é preciso terminar com a duplicidade dos mundos, é preciso fazer do mundo aparente o único mundo real. É preciso entender que a felicidade está na força e no poder de ação e de criação, e não nas quimeras e nos sonhos delirantes. O homem como o inventor de si mesmo, como o inventor do seu mundo. "O homem como poeta, como pensador, como Deus, como amor, como poder." Se há algo de sublime no homem, diz Nietzsche, é que ele criou todas as coisas e ocultou de si mesmo a lembrança disso. É por isso que é sempre possível reinventar a vida. Aliás, mais do que possível, é necessário e urgente criar novos valores para uma nova existência: uma existência mais forte, mais íntegra, mais digna, mais "real". Regina Schöpke, filósofa e historiadora, é autora dePor Uma Filosofia da Diferença (Contraponto)Conceitos Nietzschianos VONTADE DE PODER (OU VONTADE DE POTÊNCIA): Impulso fundamental de todo ser, força plástica que cria e recria a si própria e o mundo. Uma aspiração por um "plus" de potência; é desejo e ânsia, não de vida, mas de plenitude, de poder de ação, de afirmação máxima da existência. SUPER-HOMEM: É o próprio sentido da terra, a encarnação da vontade de poder e dos valores vitais. O super-homem surge com a "morte" do homem, com a superação dos valores reativos e negativos que estão na base da moralidade humana. ETERNO RETORNO: Teoria dos estóicos gregos (extraída provavelmente de Heráclito, mas já presente em filósofos anteriores e em outras culturas) que defende que tudo sempre se repete, sendo o tempo cíclico e circular. Mas a repetição, em Nietzsche, não é a do mesmo mundo, mas das forças que o engendram. Entende o mundo como devir, como movimento criador contínuo. NIILISMO: Em Nietzsche, esse conceito diz respeito a uma falsa e ignóbil moral que tira do homem o sentido da vida, que o faz se esconder nas ilusões e nas mentiras enfraquecedoras. É o nada elevado à condição de existência. R.S.

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