Semana de Arte
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Semana de Arte vai reunir obras icônicas do modernismo

Feira, que será realizada em setembro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Ibirapuera, conta com a participação de 43 galerias

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2018 | 06h00

A segunda edição da Semana de Arte, evento organizado em torno de uma feira de arte internacional, mudou de endereço e traz novidades. Aproveitando a realização da 33ª. Bienal de São Paulo, em setembro, a Semana, agora em nova sede – no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera – abre às vésperas do evento internacional (de 1 a 3 de setembro) uma grande mostra com a participação de 43 galerias, brasileiras e estrangeiras. Com curadoria do mexicano Pablo León de la Barra, responsável pela seção de arte latino-americana do museu Guggenheim, a feira deste ano traz raridades pouco vistas pelo público, entre elas aquarelas de Di Cavalcanti (1897-1976) produzidas na época da Semana de Arte Moderna de 1922, gravuras de tiragem limitada impressas enquanto Goeldi (1895-1961) ainda vivia e desenhos de Tarsila do Amaral (1886-1973).

Sob o comando dos galeristas Luisa Strina e Thiago Gomide, do curador Ricardo Sardenberg e do empresário cultural Emilio Kalil, atual diretor da Fundação Iberê Camargo, a Semana de Arte é organizada em torno da feira de artes visuais e vai concentrar no Pavilhão das Culturas Brasileiras uma ampla programação de filmes documentários e um ciclo de palestras. Fora desse espaço estão programados passeios pela cidade para conhecer marcos arquitetônicos de São Paulo – essas excursões, na primeira edição do evento, atraíram um público expressivo, segundo Kalil, revelando que a primeira feira foi visitada por 9 mil pessoas em quatro dias de funcionamento no hotel Unique.

Balanço. A proposta curatorial da Semana inova ao incentivar galerias a montar mostras que relacionam a obra de dois ou mais artistas para fazer um balanço da herança modernista, destacando os trabalhos produzidos por afrodescendentes e mulheres. É possível acompanhar na feira a evolução da arte brasileira seguindo um roteiro que começa na Semana de Arte de 1922 (Tarsila, na Galeria Paulo Kuczynski), passa pelos neoconcretos dos anos 1960 (Lygia Pape, na Galeria Almeida e Dale) e chega aos contemporâneos (Fernanda Gomes, na Galeria Luisa Strina).

No caso dos artistas negros contemporâneos, a feira conta com obras de Arjan Martins e Maxwell Alexandre (Galeria A Gentil Carioca), Ayrson Heráclito (Galeria Portas Vilaseca) e Dalton Paulo (Galeria Sé). Ou de criadores brasileiros e estrangeiros que contribuíram para a preservação da cultura afro-brasileira, caso do pintor e ilustrador argentino Carybé (1911-1997) e do fotógrafo francês Pierre Verger (1902-1996).

Essa reavaliação da herança modernista, segundo o curador Ricardo Sardenberg, propõe um novo recorte na história da arte brasileira que o olhar de um curador como o mexicano Pablo León de la Barra pode proporcionar. “Só para citar um exemplo, o caso de Heitor dos Prazeres é emblemático, pois ele nunca foi elevado ao status de moderno, recebendo ao longo dos anos a classificação de artista popular, a despeito de toda a sua contribuição ao modernismo brasileiro”, observa o curador Ricardo Sardenberg. Em outras palavras, o modernismo não contemplou a cultura afro, a despeito da sua apropriação pelos cubistas, por exemplo.

Popular. O Pavilhão das Culturas Brasileiras vai sediar simultaneamente uma exposição no mesmo local da feira para mostrar parte do seu acervo – obras de grandes nomes da arte popular do Brasil e que, apesar disso, são pouco conhecidos fora de seus estados de origem. Alguns, como o mineiro Lorenzato (1900-1995) ou o carioca Chico Tabibuia, foram apadrinhados por galeristas que ajudaram a divulgar uma produção pouco valorizada por críticos e colecionadores.

A reunião desses artistas ao lado de consagrados modernistas pode mudar esse panorama, acreditam os organizadores da Semana de Arte. “Além disso, a Bienal de São Paulo, como a segunda mais importante, atrás apenas de Veneza, vai atrair para a feira jornalistas, artistas, curadores e diretores de museus de todo o mundo, chamando a atenção para artistas que não circulam pelo circuito internacional”, diz Emilio Kalil. Ele destaca ainda o ciclo de documentários que deve ajudar os visitantes a conhecer um pouco mais a vida de artistas modernos brasileiros que fizeram parte da vanguarda internacional, como a escultora mineira Maria Martins (1894-1973), cujas mostras individuais foram apresentadas por nomes como André Breton, mentor dos surrealistas.

Como a surrealista brasileira, outras pioneiras serão lembradas na feira. No espaço da Galeria Arte 57, uma série de obras de teor político realizadas por mulheres será exibida ao público, entre elas peças de Lygia Clark, Anna Bella Geiger e Anna Maria Maiolino. Será a única coletiva no evento. Entre as exposições individuais destacam-se a de Di Cavalcanti (na Pinakotheke), Goeldi (na Galeria Bergamin & Gomide), Amilcar de Castro (Galeria Marília Razuk), Kracjberg (Galeria Frente) e Tunga (Luhring Augustine, Franco Noero e Milan).

O curador independente Ricardo Sardenberg, historiador de New York University, acredita que a mudança para o Pavilhão das Culturas Brasileiras possa a atrair novos colecionadores. “A tendência das feiras é ser dirigida a pessoas especializadas e nós queremos trazer um novo público, o que a escolha do Ibirapuera como sede do evento confirma.” De fato, a escolha do Pavilhão das Culturas Brasileiras, inaugurado em 1954, que abriga arte popular, arte indígena e design, aliado à modernidade, pode significar uma mudança de rota no colecionismo brasileiro.

Pape. Uma das peças fundamentais do movimento neoconcreto, o Livro da Arquitetura (1959/60) da artista carioca Lygia Pape (1927-2004) coincide com o lançamento do manifesto redigido no mesmo ano por Ferreira Gullar e descende diretamente do Livro da Criação, no qual ela criava diagramas tridimensionais que podiam ser remontados pelo espectador. A Galeria Almeida e Dale preparou para a Semana de Arte uma pequena mostra de Lygia Pape, cuja posição no mercado permanece em alta após todos esses anos. Com preços variáveis entre US$ 30 mil e US$ 400 mil, os objetos criados pela artista neoconcreta certamente estarão entre as peças mais disputadas pelos colecionadores (O Livro de Arquitetura não estará à venda).

O marchand Antonio Almeida justifica sua inclusão na feira pela importância da obra e o interesse que o trabalho de Lygia Pape desperta entre colecionadores brasileiros e estrangeiros (muitos deles estarão em visita à Bienal de São Paulo). “Toda coleção importante tem obras dela”, conclui.

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