Hélvio Romero/Estadão
Público faz fila para visitar a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Hélvio Romero/Estadão

Semana de 22: Confira atrações para entrar no mundo dos modernistas

O centenário do evento que trouxe a luz o modernismo no Brasil vai ser comemorado de várias formas e formatos; confira

Patrick Freitas, Especial para o Estadão

11 de fevereiro de 2022 | 05h00

As comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 vão movimentar o primeiro semestre de alguns dos principais museus de São Paulo, com muitas ações e mostras, tanto na cidade de São Paulo como em alguns pontos do Estado. Todas enaltecendo o movimento modernista e seus artistas, como Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Victor Brecheret. 

Modernistas também serão homenageados pelo audiovisual, com seleções especiais em serviços de streaming, além da exibição de curtas na TV aberta. Confira a programação divulgada:

 

 

Exposições e Mostras


Pinacoteca - Modernismo, Destaques do acervo

São 134 trabalhos obras do museu ligadas ao tema, entre pinturas históricas, como ‘Amigos’, de Di Cavalcanti, ‘Antropofagia’ e ‘São Paulo’, de Tarsila do Amaral; ‘Auto-retrato’ e ‘Portadora de Perfume’, de Victor Brecheret; ‘Bananal’, de Lasar Segall; ‘Casal na varanda’, de Cícero Dias e ‘Dois Irmãos’, de Ismael Nery. Fica aberta até 20 de dezembro.

Endereço: Praça da Luz, 2 - Luz, São Paulo - SP, 01120-010



Museu Catavento - O Ateliê de Brecheret

Em 220m² de área expositiva, 28 metros lineares e 12m² do palco com holografias das esculturas, ferramentas e desenhos do Brecheret, a exposição conta a história do artista e do espaço que abrigou a realização de importantes obras e de um encontro essencial para a história da arte brasileira - o Palácio das Indústrias, sede do museu. A mostra, realizada em parceria com o Instituto Victor Brecheret, pode ser conferida de terça a domingo, das 9h às 17h, no piso superior do museu. Fica aberta até o dia 31 de março.

Endereço: Av. Mercúrio, s/nº - Parque Dom Pedro II, São Paulo - SP, 03003-060



Memorial da América Latina - Pilares de 22

Com curadoria de José Alberto Lovetro, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, a mostra “Pilares de 22” contará com caricaturas gigantes para homenagear quem participou da Semana da Arte Moderna e também aqueles que contribuíram para difundir as ideias modernistas pela América Latina. As caricaturas são do artista Luiz Carlos Fernandes, paulista de Avaré e que coleciona mais de 70 prêmios de artes gráficas no Brasil e no exterior. Localizada nas pilastras do Pavilhão da Criatividade Darcy Ribeiro, a exposição fica aberta até o dia 13 de abril.

Endereço: Av. Mário de Andrade, 664 - Barra Funda, São Paulo - SP, 01156-001



Museu Afro Brasil - Esse Extraordinário Mário de Andrade

A mostra é organizada em módulos expositivos, seguindo eixos de atuação de Mário de Andrade como poeta, cronista, romancista e pesquisador, além de crítico de arte e de literatura, musicólogo e fotógrafo. Um destes eixos abordará o período em que este grande intelectual esteve à frente do Departamento de Cultura de São Paulo, com destaque para a Missão de Pesquisas Folclóricas por ele idealizada. Outros eixos abordarão suas pesquisas e análises sobre o barroco mineiro, fotografias feitas por Mário em suas viagens ou retratos dele feitos por outros fotógrafos, além de caricaturas. Fica aberta até o dia 30 de junho.

Endereço: Portão 10, Av. Pedro Álvares Cabral, s/n - Vila Mariana, São Paulo - SP, 04094-050



Palácio dos Bandeirantes - 100 anos de Modernismo / São Paulo celebra a Semana de 22

Um vídeo mapping vai estampar o Palácio com imagens de personalidades e obras da Semana de 1922. A vídeo arte, criada pelo Estúdio Bijari, se inspira na produção artística deste momento único da arte brasileira. Serão oito projetores laser com 20.000 lumens. O evento será aberto entre os dias 13 e 17 de fevereiro, das 19h às 22h, e transmitido pela plataforma #CulturaemCasa.

Endereço: Av. Mercúrio, s/n - Parque Dom Pedro II, São Paulo - SP, 03003-060



Museu de Arte Sacra - A Arte Sacra dos Modernistas

Com curadoria de Di Bonetti  e projeto expográfico de Gilson Alcântara, a exposição reunirá um conjunto significativo de artistas modernistas, com obras gestadas a partir da sua religiosidade ou da sua fé. Integram a exposição artistas que correspondem à primeira fase do modernistas e também aqueles, sucessores do movimento. Será aberta de 16 de abril até 12 de junho. 

Endereço: Av. Tiradentes, 676 - Luz, São Paulo - SP, 01101-010



Tour guiado - Em busca dos modernistas

O tour guiado a pé pela região do Centro Velho e Novo da cidade de São Paulo conta a história do movimento a partir da arquitetura, monumentos, fotografias, poesias e literatura. Em uma caminhada que transporta o público para as primeiras décadas do século passado, o roteiro estabelece uma conexão entre o Centro, a história de São Paulo, o Movimento Modernista, suas personalidades e sua produção artística. Organizado pelo Pátio Metrô São Bento, o passeio acontece todos os sábados do mês de fevereiro, às 11 horas (retirada de senhas a partir das 10h30). O roteiro foi criado pela guia de turismo Tereza Cristina Ferreira Batista do projeto São Paulo com Afeto.  

Dias: Todos os sábados de fevereiro (5, 12, 19 e 26)

Saída: Pátio Metrô São Bento – Praça da Colmeia

Horário: às 11 horas (retirada de senhas a partir das 10h30)

Sujeito à lotação

 

Brasital (São Roque) - No Gerúndio

A exposição contará com aproximadamente quatro obras selecionadas de cada um dos 18 artistas visuais de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná – que compõem o Movimento Teia – com curadoria da conhecida artista plástica Lia do Rio. O local escolhido para receber a exposição, a Brasital, é uma das primeiras indústrias têxteis do Brasil e um dos prédios históricos mais importantes da região de São Roque. Também ocorrerão performances, oficinas artísticas, intervenções dramáticas e apresentações musicais. Ficará aberta ao público de 12 de fevereiro até 13 de março.

Endereço: Av. Araçaí, 250 - Vila Aguiar, São Roque - SP, 18130-235

 

 

Audiovisual


TV Cultura

O jornalista Miguel de Almeida preparou uma série de 22 mini documentários que vão fazer parte da programação especial da TV Cultura pelo Centenário da Semana de Arte de 22. O projeto estreia nesta sexta-feira, 11, trazendo em cada episódio um tema relacionado à Semana, seja de forma direta ou mais tangencial. Com duração de dois minutos e meio, os programas serão exibidos nos intervalos da programação. 


Cine Belas Artes À La Carte

A partir de 10 de fevereiro, o streaming À La Carte prestará homenagem com a mostra intitulada "Reflexos do Modernismo", trazendo nove filmes antológicos, produzidos entre 1931 e 1954, todos tendo em comum a flexibilidade e não ortodoxismo do cinema que era feito nesta época. A seleção reúne os diretores Mario Peixoto, com o clássico absoluto "Limite" (1931); o também brasileiro Alberto Cavalcanti com os raros "Na Solidão da Noite" (1945), "As Vidas e Aventuras de Nicolas Nickleby" (1947), "Simão, o Caolho" (1952), "O Canto do Mar" (1953) e "Mulher de Verdade" (1954); e o francês Jean Vigo, representado pelas joias "Zero de Conduta" (1933), "O Atalante" (1934) e o curta "A Propósito de Nice" (1930).


Curta!

Seis atrações sobre grandes nomes do modernismo foram reunidas numa maratona que será exibida no canal Curta!, no domingo, 13, a partir das 13h. Com sinal aberto até fim de fevereiro, a programação pode ser assistida  gratuitamente na internet, no site do canal (https://canalcurta.tv.br/ViaInternet/). Para quem prefere o streaming, a pasta Especial Semana de 22 do Curta!On está disponível no NOW e na internet, através do Tamandua.TV (https://tamandua.tv.br/planos/curtaon). Confira os horários: 

13h - “Graça Aranha” - Episódio da série: “Imortais da Academia”

13h30 - “Oswald de Andrade” - Episódio da série: “Caixas Mágicas”

14h - “Anita Malfatti - Liberdade Para Criar” - Episódio da série: “Artistas Plásticos Brasileiros”

15h - “Tarsila do Amaral” - Episódio da série: “Matizes do Brasil”

15h35 - “Mário de Andrade” - Episódio da série: “Mestres da Literatura”

16h10 - “Por Onde Anda Makunaíma” (documentário)

 



Centro Cultural Banco do Brasil 

A mostra Ecos de 1922 - Modernismo no cinema brasileiro ocupa o cinema do CCBB São Paulo de 9 de Fevereiro a 7 de março com uma grande retrospectiva cinematográfica sobre o tema. São ao todo 50 filmes entre longas, médias e curtas-metragens, num recorte geográfico, temporal e conceitual, que vai de 1922 a 2021, de Roraima ao Paraná, de intelectuais paulistas, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade, a artistas e pensadores indígenas contemporâneos, como Jaider Esbell e Denilson Baniwa. Com curadoria de Diogo Cavour, Feiga Fiszon e Aïcha Barat, e com realização da Lúdica Produções, o evento contará ainda com debates, palestra, sessão com música ao vivo e sessão com audiodescrição e libras.

 


Sesc

Idealizado por Claudia Toni, Flávia Camargo Toni e Camila Fresca, e com direção musical de Cláudio Cruz, o álbum Toda Semana: Música e Literatura na Semana de Arte Moderna reúne livreto e 4 CD’s para apresentar ao público, pela primeira vez na história, a íntegra das músicas tocadas durante a Semana de Arte Moderna de 1922, além de uma seleção de poemas e conferências. Todo o material já foi disponibilizado, gratuitamente, em dezembro passado, para ser lido e ouvido clicando aqui e, desde o dia 9 de fevereiro, o público poderá também ter acesso às faixas nas principais plataformas de streaming. Já a versão física tem lançamento previsto para o final do mês de fevereiro e ficará disponível para venda nas Lojas Sesc, presentes nas unidades da capital paulista, interior e litoral, e também na Loja Sesc virtual.  

 

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Semana de Arte Moderna 1922: Passado um século, o evento que deu impulso decisivo ao Modernismo brasileiro ainda gera aclamações e vaias. Larissa Constantino

Há 100 anos, evento, que foi criticado pelos ricos, inaugurava a cultura no País

Nos últimos anos, porém, historiadores vêm apontando contradições que ocorrem em qualquer movimento de ruptura

Imagem Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil , O Estado de S.Paulo

Atualizado

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Semana de Arte Moderna 1922: Passado um século, o evento que deu impulso decisivo ao Modernismo brasileiro ainda gera aclamações e vaias. Larissa Constantino

Na noite de segunda-feira, 13 de fevereiro de 1922, o Teatro Municipal de São Paulo abriu suas portas para receber artistas, estudantes, políticos e membros da tradicional família paulista curiosos em descobrir um tipo diferente de farra: era a inauguração da Semana de Arte Moderna. Porém, logo um certo incômodo se instalou no ar - organizada por artistas irreverentes e contestadores, a Semana (cujas apresentações aconteceram em três dias) apontava para uma mudança estética, rompendo com um passado considerado ultrapassado e abraçando a influência do que mais atual era produzido na época, sobretudo na Europa. 

 

Mas a euforia dos artistas contrastava com a desconfiança e o descaso da plateia, que reprovou boa parte das manifestações apresentadas. No saguão do teatro, foi instalada uma exposição de pintura e escultura, com obras de Anita Malfatti, Di Cavalcanti (a quem é atribuída a ideia de se organizar a Semana), Victor Brecheret, cuja recepção foi negativa - o gosto do público brasileiro ainda não estava acostumado às novas formas de representação propostas pelo grupo.

Há 100 anos, o evento que deu o impulso decisivo ao Modernismo brasileiro ainda desperta aclamações e vaias. O festival de artes plásticas, música e literatura protagonizado por jovens talentos como os escritores Mário e Oswald de Andrade, o pintor Di Cavalcanti, o compositor Heitor Villa-Lobos, entre outros, tornou-se um marco histórico graças ao protagonismo que esses artistas conquistaram nas décadas seguintes, posição que lhes permitiu perpetuar a condição de inovadora da Semana de Arte Moderna

Nos últimos anos, no entanto, historiadores vêm apontando contradições inevitáveis em qualquer movimento de ruptura, revelando ambiguidades de conquistas tidas como indestrutíveis. Estilos à época apontados como inauguradores já moldavam, anos antes, o trabalho de criadores que não conseguiram o devido reconhecimento e foram relegados a um segundo plano.

Apesar disso, a Semana de Arte Moderna de 1922 se transformou em uma espécie de pedra inaugural da cultura com identidade brasileira, a luz elétrica que finalmente revelava como era escura a arte do passado. O choque, na verdade, já se revelara anos antes, em 1917, com a Exposição de Pintura Moderna, de Anita Malfatti, também em São Paulo. Cinquenta e três obras da pintora foram apresentadas ao lado de trabalhos de artistas internacionais ligados às vanguardas europeias. 

Se impressionaram nomes que depois liderariam a Semana, as telas causaram grande desaprovação da crítica conservadora, em especial Monteiro Lobato, que publicou um artigo extremamente negativo, no Estadão, que seria conhecido pelo título Paranoia ou Mistificação? Com traços expressionistas, Anita Malfatti trouxe ao Brasil uma nova estética, em exposição considerada o primeiro “estopim” para a idealização da Semana.

 

 

Anita

O movimento de defesa intelectual da obra de Anita alimentou, ao longo dos anos, uma disposição dos jovens artistas em apresentar suas propostas artísticas e, como 1922 marcaria o centenário da Independência, o ano tornou-se ideal também para uma ruptura nas artes. Dois nomes logo se tornaram essenciais para a realização do evento: Paulo Prado que, além de escritor, descendia de uma das mais ricas e influentes famílias paulistas e bancou financeiramente a Semana (computando um prejuízo ao final), e Graça Aranha, autor já consagrado e cuja respeitabilidade o alçou a ser o responsável pelo discurso de abertura, naquela segunda-feira.

Aranha previa a sensação de estranheza da plateia ao discursar: “Para muitos de vós, a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje é uma aglomeração de horrores. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pela força do Passado”.

 

 

 

Versos

Se ouviu respeitosamente o discurso de Aranha, que ainda declamou versos de Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho, acompanhado de músicas executadas pelo maestro Ernani Braga, o público do Municipal, sobretudo o mais rico, não escondeu depois sua desaprovação.

Naquela mesma sessão, uma apresentação de Villa-Lobos ao piano arrancou tímidos aplausos de um público acostumado a Chopin - todos estranharam o músico vestir chinelos, mas foi obrigado por uma crise de gota. Na segunda noite, dia 15 de fevereiro, o discurso de Menotti Del Picchia recheado de referências modernistas (carros, aviões) foi recebido com vaias pelos estudantes, boa parte arregimentada por Oswald de Andrade, disposto a fomentar a anarquia. 

Ele mesmo recebeu apupos e uma chuva de batatas ao tentar ler trecho de Os Condenados. A última noite, 17 de fevereiro, foi a mais tranquila pois o Municipal estava praticamente vazio para acompanhar outras peças criadas por Villa-Lobos. Terminava o evento criticado pela imprensa, ignorado pela classe rica, mas cujas sementes germinam até hoje. 

 

Participantes:

 

* Arquitetos

Antonio MoyaGeorg Przyrembel.

 

* Escultores

Wilhelm Haarberg, Hildegardo Leão Velloso, Victor Brecheret.

 

* Músicos

Alfredo Gomes, Ernani Braga, Fructuoso Viana, Guiomar Novais, Heitor Villa-Lobos, Lucília Guimarães, Paulina de Ambrósio.

 

* Pintores

Anita Malfatti, Antonio Paim Vieira, Di Cavalcanti, Ferrignac, John Graz, Vicente do Rego Monteiro, Yan de Almeida Prado, Zina Aita.

 

* Escritores

Afonso Schmidt, Agenor Barbosa, Álvaro Moreyra, Elysio de Carvalho, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Luiz Aranha, Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Sérgio Milliet, Tácito de Almeida.

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Nas artes, uma mistura eclética marca o ano zero da modernidade, entre Anita e Goeldi

Ousadia de Tarsila ajudou em obras que iriam influenciar o cinema de Glauber, o teatro de José Celso e o tropicalismo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2022 | 05h00

Cem anos depois da realização da Semana de Arte Moderna de 1922 já não cabe mais duvidar do seu caráter de ruptura. Ainda que, durante todos esses anos, as revisões críticas da Semana tenham apontado sua natureza elitista, a “aristocracia tradicional” - como chamava Mário de Andrade seus patrocinadores - abandonou o barco após o escândalo da Semana no Teatro Municipal. A aristocrata dona Olívia Guedes Penteado, para citar mais uma vez Mário, “soube terminar aos poucos seu salão modernista”, deixando seus pupilos à deriva. Cada um seguiu seu caminho: alguns viraram comunistas, outros aderiram ao fascismo integralista e a mais moderna entre os modernos, a pintora Tarsila do Amaral, se reencontrou com suas raízes rurais, ela que foi chamada profeticamente pelo ex-marido Oswald de Andrade de “caipirinha vestida por Poiret”. 

 

 

Para ficar exclusivamente na área das artes visuais - a que revelou artistas como Tarsila, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Rego Monteiro e outros -, a ressonância do Modernismo e a importância da Semana são inquestionáveis. Se não fosse a ousadia de Tarsila (que não participou por estar em Paris), Oswald de Andrade não teria criado escolas literárias como o Pau-Brasil ou a Antropofagia que, no futuro, deram origem a movimentos como o Tropicalista (anos 1960), ao qual estão atrelados a arte de Hélio Oiticica, a música de Caetano Veloso, o cinema de Glauber e Joaquim Pedro de Andrade e o teatro de José Celso Martinez Corrêa. Em janeiro de 1928, ela presenteou Oswald com a histórica tela Abaporu (hoje no acervo do Malba argentino), obrigando o Brasil a deglutir os restos do banquete visual moderno europeu, rejeitado pela conservadora sociedade brasileira.

Um ano depois, com o crack da Bolsa de Nova York e o preço do café em queda livre, tanto ela como Oswald começaram a sentir os efeitos da crise - e a modernidade, desamparada pelo poder econômico, foi pedir abrigo em outra freguesia. Se Anita Malfatti já fora vítima da incompreensão - inclusive de seus pares, caso de Monteiro Lobato, que criticou o caráter “místico” e “paranoico” de sua exposição de 1917 -, Tarsila se rendeu à estética do realismo socialista, nos anos 1930, deixando a vanguarda no passado. Di Cavalcanti, que começou bem, influenciado por Grosz e Picasso, virou pintor de mulatas, adaptando-se ao gosto burguês contra o qual vociferava em 1922.

 

 

 

Academia

O movimento modernista foi “destruidor” e autofágico, como definiria posteriormente o escritor Mário de Andrade, em 1942, duas décadas após a Semana. Os modernistas de primeira hora, observou o autor de Macunaíma, não deviam servir de exemplo a ninguém, mas de lição. O “aristocracismo” de cada um dos participantes da Semana os puniu. Não por falta, mas por excesso de reverência ao que vinha de fora: só devoravam antropofagicamente movimentos e estéticas que já estavam “academizadas” na Europa. Palavra de Mário.

Na Semana, existiam muitos artistas bons, mas o critério de seleção dos organizadores era eclético demais: ao lado de um escultor moderno como Brecheret figurava um de vocação acadêmica, Hildegardo Leão Veloso, autor de estátuas equestres e mausoléus. Anita Malfatti teve de conviver com os palhaços e colombinas déco de Ferrignac (Inácio da Costa Ferreira). Talvez, quem sabe, tivesse um diálogo mais próximo com a mineira Zina Aita, mas essa foi esquecida pela história ao embarcar para a Itália, onde foi cuidar dos negócios de cerâmica da família.

 

 

Havia um único cubista na Semana, Vicente do Rego Monteiro, pioneiro no trato de temas indigenistas, mas era um formalista ligado aos princípios estéticos da Escola de Paris. É duvidoso que se identificasse com as ideias de Oswald de Andrade de ruptura com a tradição acadêmica e valorização da cultura brasileira. Entrou por acaso na Semana e com obras que nem de longe foram produzidas para ela. Cabe mencionar a participação de Goeldi na Semana, um expressionista formado na escola alemã e certamente um dos gigantes entre os modernistas.

Goeldi foi definitivamente marcado pela obra de Alfred Kubin, a quem recorreu em mais de uma ocasião em busca de conselhos, mas, ao chegar ao Rio, em 1919, descobriu algo na realidade brasileira que o impulsionou a registrar na xilogravura - adotada logo após a Semana - cenas do árido cotidiano das pessoas do povo, transfigurado num embate entre a goiva e a madeira. Seu mundo soturno de marginais à deriva não tem as cores tropicalistas de Tarsila nem combina com os excessos cromáticos de outros modernistas, o que o transforma num outsider dentro do próprio movimento. Mas, como avaliou Mário de Andrade, o Modernismo não foi uma estética, na Europa ou no Brasil. Foi um estado de espírito - “revoltado e revolucionário”. E assim deve ser entendido.

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Semana de 1922: Talvez fosse justo olhar precursores

Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, entre outros, já traziam, antes da Semana de 22, procedimentos de ruptura com a tradição

Marisa Lajolo, Especial para o Estadão

11 de fevereiro de 2022 | 05h00

“A Natureza nunca foi avara em criar grandes talentos, mas falta muitas vezes em dar ao mundo quem os entenda.” 

O poema que abre Pauliceia Desvairada (Mário de Andrade, 1922) reproduz como epígrafe trechinho de Fr. Luis de Sousa: “...até na força do verão havia Tempestades de ventos e frios de crudelíssimo inverno”. 

Por que uma primeira obra modernista tem como epígrafe um prosador português seiscentista? Copiando Mário de Andrade, recorro ao mesmo Frei – também como epígrafe – para exprimir uma das marcas maiores e mais interessantes da Semana de Arte Moderna: seus desencontros com o cenário em que ocorreu.

 

 

No início da terceira década do século passado, o Brasil tinha 30.635.605 habitantes e São Paulo, 6.592.189. Dessa multidão, o censo informa que apenas 35,1% de maiores de 15 anos sabiam ler e escrever. A melancólica parcimônia do número de leitores justifica uma interpretação metafórica da epígrafe que Mário escolheu para o poema de celebração de São Paulo? 

Não se sabe...

De qualquer forma, foi para um desolado panorama letrado que O Estado de S. Paulo, em 11, 15 e 17 de fevereiro de 1922, na mesma página em que publicava a programação de cinemas, anunciava a realização de uma Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal. Os ingressos mais baratos para ela custavam (para o último dia) 5 mil réis enquanto uma entrada de cinema custava 2 mil.

Nos anúncios do evento, a informação de uma exposição de pintura e escultura no saguão do teatro e destaque para participantes como Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho e – em letras garrafais – Villa-Lobos e Guiomar Novaes. 

De modestos anúncios de jornal a livros e cursos contemporâneos de Literatura Brasileira, a Semana de Arte Moderna de São Paulo ganhou prestígio: passou a ser interpretada como marco maior da modernização literária brasileira.

A conferência de Graça Aranha que abriu o evento, A Emoção Estética na Arte Moderna, se iniciou provocando a assistência, ao postular o estranhamento/espanto com que seriam recebidas as apresentações das três noites do festival. Ainda que se atribua uma eventual ironia ao conferencista, sua fala pode ser considerada premonitória.

“Para muitos de vós, a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de ‘horrores’. Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros ‘horrores’ vos esperam. Daqui a pouco, juntando se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do Passado. Para estes retardatários a arte ainda é o Belo.”

 

Graça Aranha acertou em cheio... Algumas das programações foram mesmo sonoramente vaiadas. 

Mas, muito embora não tivesse tido muito impacto cultural durante sua realização e em seus arredores – desconsiderando polêmicas e fusquinhas que talvez não ultrapassassem muito os limites da cidade das letras daquela época –, a Semana de Arte Moderna passou a constituir um marco para a produção literária brasileira tanto a que a precedeu, como a que veio na sua sequência. 

Tornou-se marco tão importante que a produção de escritores como Lima Barreto e Monteiro Lobato é confinada ao rótulo de pré-modernista, enquanto o rótulo pós-modernista ou modernistas de segunda geração abriga (ainda que temporária e equivocadamente) tanto o regionalismo de José Lins do Rego como a poesia de Drummond de Andrade. 

Financiada pela alta burguesia paulista – representada, por exemplo, por Paulo Prado, responsável, pela cessão do Teatro Municipal –, a SAM foi um dos elos da cadeia de eventos que deu expressão cultural à importância econômica de que São Paulo desfrutava, e queria ver reconhecida. 

E a Semana cumpriu brilhantemente esta função. 

E, cumprindo este importante papel político-econômico-cultural, cem anos depois vemos que valores, temas e procedimentos formais por ela propostos vingaram. Mas ... 

...não vale a pena incluir – na celebração de centenário dela – a hipótese de que as inovações literárias que a ela são atribuídas pelos estudos literários mais canônicos talvez não tenham sido fruto exclusivo do esforço de seus participantes? 

Talvez valha.

Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato, Juó Bananere e Hilário Tácito – para ficar apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro –, por exemplo, já traziam para seus textos preocupações e procedimentos de ruptura com a tradição.

Talvez seja muito produtivo conceber a hoje centenária SAM como ponto de uma curva que, iniciando-se pelo menos duas décadas antes de 1922, continuou a desenvolver-se posteriormente, gerando novas designações. São às vezes expressões que até hoje suscitam debates apaixonados: segunda geração modernista, segundo Modernismo, chegando até o hoje proclamado Pós-Modernismo...

Toda esta minha rabugice não impede, no entanto, reconhecimento da alta qualidade e grande importância de textos que, inspirados nela e articulados a suas propostas, seduzem até hoje leitores brasileiros, como o poema abaixo transcrito que pinga ponto final neste meu texto: 

 

Tietê 

(Mário de Andrade)

“Era uma vez um rio...

Porém os Borbas Gatos dos ultranacionais esperiamente!

Havia nas manhãs cheias de Sol do entusiasmo

As monções da ambição...

E as gigantes vitórias!

As embarcações singravam rumo do abismal Descaminho ...

Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!...

Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!...

Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...

– Nadador! Vamos partir pela via dum Mato-Grosso?

– Io! Mai!... (Mais dez braçadas.

Quina Mignone. Hat Stores. Meia de seda.)

Vado a pranzare com la Ruth”.

 

 

Livros celebram várias faces da Semana de 1922, antes e depois 

Os livros têm papel primordial por documentar, analisar e interpretar o que aconteceu antes, durante e depois da Semana, que movimentou o Teatro Municipal de São Paulo e, ao longo das décadas, vê-se em Lira Mensageira, espalhou-se pelo Brasil.

Das origens, Semana de 22, Antes do Começo e Depois do Fim tenta compreender os fenômenos que levaram os criadores a se rebelarem contra as artes acadêmicas para remodelar a cultura nacional. Uma agremiação de elite, sem dúvida, retrata Peregrino Jr. em É Apenas Agitação. Os artistas que participaram da Semana são contemplados com lançamentos, como o estudo que analisa a indumentária de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, O Guarda-Roupa Modernista, de Carolina Casarin. 

Outra personagem icônica é Pagu, a multiartista cujo romance proletário Parque Industrial é relançado. E, por falar em reedições, um clássico sai repaginado, Vanguarda Europeia & Modernismo Brasileiro, de Gilberto Mendonça Teles. Há também estudos feitos a várias mãos, como Modernismos, 1922-2022, organizado por Gênese Andrade, que conta com ensaios de intelectuais, como Elias Saliba. 

Da nova safra, Mário de Andrade é protagonista em vários livros (Inda Bebo no Copo dos Outros e Mário por Ele Mesmo), além do box que divide com Carpeaux e o estudo com Rubem Braga e Walmir Ayala. Na Estante, as crianças também estão convidadas a entender o que foi a Semana, com dois novos livros, um passeio pela época com Tarsilinha e as Cores e Nasci em 1922. M.L.Q.

 

Vanguarda Europeia & Modernismo Brasileiro 

Autor: Gilberto Mendonça Teles 

Editora: José Olympio 

658 páginas. R$ 109,00

 

Modernismos 1922-2022

Gênese Andrade

Editora: Companhia das Letras

272 páginas. R$ 159,90 / R$ 49,90 (E-book)

 

Semana de 22: Antes do começo, depois do fim

José De Nicola, Lucas De Nicola

Editora: Estação Brasil 

648 páginas. R$ 84,00

 

O Guarda Roupa Modernista 

Autor: Carolina Casarin 

Editora: Companhia das Letras 

288 páginas. R$ 109,90 / R$ 44,90 (E-book) 

 

1922 e depois 

Autores: Mário de Andrade, Rubem Braga e Walmir Ayala

Editora: Nova Fronteira 

168 páginas, r$ 24,90 (livro) r$ 16,99 (e-book) 

 

Lira Mensageira 

Autor: Sérgio Miceli 

Editora: Todavia 

264 páginas. R$ 74,90 (livro) r$ 49,90 (e-book) 

 

Parque Industrial 

Autor: Pagu 

Editora: Companhia das Letras 

112 páginas. R$ 49,90 (livro) r$ 29,90 (e-book) 

 

Mário de Andrade por ele mesmo 

Autor: Paulo Duarte 

Editora: Todavia 

576 páginas. R$ 99,90 (livro) r$ 64,90 (e-book) 

 

Modernidade em Preto e Branco 

Autor: Rafael Cardoso 

Editora: Companhia das Letras 

372 páginas. R$ 99,90 (livro) r$ 39,90 (e-book) 

 

Modernismo ― do surgimento no mundo à explosão do movimento no Brasil

Autor: Otto Maria Carpeux e Mário de Andrade 

Editora: Faro editorial

272 páginas. R$ 99,90 (livro) r$ 39,90 (e-book) 

 

Tarsilinha e as Cores

Autor: Engel Secco, Patrícia / do Amaral, Tarsilinha

Ilustrador: Alhadeff, Cris

Número de páginas: 24

Preço sugerido: R$ 25,00

 

Inda bebo no copo dos outros: Por uma estética modernista

Yussef Campos (Organização), Mário de Andrade (autor) 

Autêntica 

224 páginas 

 

É apenas agitação: A semana de 22 e a reação dos acadêmicos nas célebres entrevistas de Peregrino Júnior para O Jornal

Autora: Nélida Capela

Editora: Telha

Páginas: 196

Preço: R$ 45,00

 

A Revista Verde de Cataguases

Luíz Ruffato 

Editora:Autêntica.

198 págs. R$ 49,80, o livro, R$ 34,90, o e-book 

 

Nasci em 1922, ano da Semana da Arte Moderna

Autor(es): Fabiano Moraes

Ilustrador(es): Luciano Tasso

Páginas: 112

Editora do Brasil 

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Livros ‘secretos’ revelam melhor os compositores do Modernismo

Obras de musicólogo finlandês e professor brasileiro ajudam na compreensão das disputas e ideologias dos criadores de 22

João Marcos Coelho, Especial para o Estadão

11 de fevereiro de 2022 | 05h00

Dois livros que enfocam de modo inovador a música na Semana de 22 e no Modernismo brasileiro permaneceram “secretos” por cerca de três décadas, e somente agora se tornam disponíveis ao público brasileiro. Juntos, alcançam mais de 1.300 páginas decisivas para compreendermos melhor o papel da música na Semana e no Modernismo brasileiro no século 20

 

 

Heitor Villa-Lobos, Vida e Obra, do musicólogo finlandês Eero Tarasti, de 73 anos, é de 1987, mas só foi lançado em inglês em 1995. De lá para cá foi sofregamente xerocado. Tê-lo em primorosa edição brasileira (Editora Contracorrente) é um verdadeiro abre-Sésamo para a vida e obra do nosso maior compositor.

No capítulo 3, Tarasti diz que São Paulo e Rio “eram duas ilhotas isoladas uma da outra” e “no início do século apresentavam cenários artísticos contraditórios”. Por isso a reação dos modernistas à obra de Villa-Lobos “foi mais expressiva” do que no Rio, “cosmopolita”. E anota que “o Modernismo musical de Villa se baseou na música popular essencialmente rústica do Rio, enquanto o meio social da urbana São Paulo jamais poderia ser considerado popular, nem mesmo em 1920”. Assim, havia uma contradição vital entre Villa e Mário, que conduziria o paulista a ver o carioca realizando plenamente tudo que só imaginaria em 1928 para a música nacional brasileira no Ensaio Sobre Música Brasileira. Mas ao mesmo tempo o fazia sentir-se incomodado porque Villa se recusou sempre a suportar qualquer cabresto composicional. Assim, Mário teve de contentar-se com talentos “menores” como Camargo Guarnieri, porém mais obedientes a seu receituário nacionalista. Dito assim, parece simplório. Mas foi isso mesmo que aconteceu. Villa, diz Tarasti, concretizou os melhores sonhos nacionalistas de Mário - infelizmente foi além. “E isso provavelmente o exasperava”, lembra Paulo de Tarso Salles, da USP, um dos tradutores do livro de Tarasti, ao Estadão: “O método adotado por Villa era em princípio mais anárquico, à maneira do antropofagismo de Oswald. Creio que isso vai ao encontro do que você observa a respeito da posição de Mário em relação à música de Guarnieri e outros em comparação a Villa”.

Um ano depois de Tarasti, em 1988, o professor Arnaldo Daraya Contier (1941-2019) defendeu na USP sua tese de livre-docência: Brasil Novo, Música, Nação e Modernidade - Os Anos 20 e 30. Mais de 600 páginas que batiam de frente com as leituras elogiosas da Semana de 22 e do Modernismo. Depois de 34 anos, agora está disponível (e-book Kindle, Amazon, R$ 31). Talvez soe exagerado falar em silêncio ensurdecedor em torno da obra. Basta ler a apresentação do livro, por Marcos Napolitano, seu ex-aluno e hoje professor de História do Brasil da USP, para entender: “Este é um dos primeiros estudos alentados sobre o lugar da música erudita nos projetos modernistas de nação que atravessaram o século 20 brasileiro (...). Contier analisa a cena e os projetos musicais brasileiros passando por temas como nacionalismo musical, folclore, Modernismo, mercado musical e políticas culturais autoritárias da Era Vargas sem cair na armadilha, muito comum à época, de apenas descrever, ou recusar, estas categorias e conceitos a partir da fala dos seus protagonistas. Os cânones intelectuais ganham dimensão histórica, envoltos nas lutas, contradições e perspectivas do seu tempo”. E arremata: “Mário de Andrade, Renato Almeida, Luciano Gallet, Villa-Lobos, Koellreutter, entre outros, não são analisados como ‘gênios’ intocáveis trans-históricos, mas como personalidades do seu tempo, sem prejuízo do talento, ousadia e grandeza de suas ideias e realizações”.

 

 

 

Peças

Voltemos a 1922. Noventa por cento da música apresentada nos três dias da Semana era assinada pelo Villa: peças para piano e canções, duas sonatas (violoncelo e piano), dois trios com piano, Quarteto de Cordas n.º 3, e duas gemas: as Três Danças Africanas para octeto de cordas, sopros e piano; e o Quarteto Simbólico para flauta, saxofone, celesta (ou piano) e vozes femininas ocultas. Villa e os músicos vieram do Rio, contratados com cachê. A pianista Guiomar Novaes tocou dois Debussy e... um Villa de 1’30” (O Ginete do Pierrozinho). Participou para “atrair” público. A obra mais recente era o Quarteto Simbólico, de 1921. Respiravam “ares” franceses, sem dúvida. Ou seja, pouco tinham a ver com o Villa moderno do restante da década de 1920.Salles prefere dizer que as obras executadas na Semana “sem dúvida representam o ‘disfarce’ ou o ‘verniz’ que o compositor aplicou em seu estilo composicional forjado nas rodas de choro, para que sua música fosse aceita nas salas de concerto. Ainda assim, podem-se ouvir algumas ‘subversões’ ao impressionismo pentatônico que supostamente evoca Debussy, mas que em certos momentos antecipa a referência à música indígena, como no movimento final do Quarteto n.º 3. De resto, algumas dessas obras, como os trios e quartetos, adotam o princípio formal cíclico de d’Indy, o que conferia certa respeitabilidade à inserção de um ‘samba-canção’ no primeiro movimento do Quarteto n.º 2, ou a alusão às ‘flautas nasais’ indígenas no segundo movimento, referências nacionais encobertas por um cromatismo à maneira de César Franck”.

 

 

Desconstrução

E concorda que o silêncio em torno da tese de Contier aconteceu devido a esta “desconstrução” de Mário de Andrade: “Sim, acredito que o ‘fã-clube’ do Mário não admita pôr em discussão certos aspectos”. Porém considera interessante “o paralelo entre Tarasti e Contier, ambos com leituras originais da influência do Ensaio de 1928 sobre os compositores brasileiros, até mesmo o supostamente imperturbável Villa”. No entanto, conclui, “a abordagem de Contier é diferente da de Tarasti. O primeiro promove uma certa desconstrução ideológica do discurso andradiano, às vezes em termos dicotômicos como as noções de ‘atraso’ e ‘progresso’ (Contier, 2021, pág. 166). Já Tarasti lê o Ensaio como um ‘programa em miniatura para a pesquisa dos elementos nacionais em Villa-Lobos’ (Tarasti, 2021, pág. 142)”. 

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A imprensa alternativa espalhou o Modernismo para além de São Paulo

Periódicos como ‘Verde’, ‘Madrugada’, ‘A Festa’, entre outros, circulavam reunindo escritores consagrados e estreantes

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S. Paulo

11 de fevereiro de 2022 | 05h00

Depois da fanfarra da Semana, os ideais modernistas circularam para além de São Paulo. Assunto quente nas rodas boêmias e literárias, espalhar as crias do Modernismo de forma independente, através de revistas, serviu como laboratório editorial para gerações de escritores que não tinham espaço em jornais da grande imprensa. Publicar nesses veículos era um importante marco em tempos analógicos e, se por sorte, o exemplar (muitas vezes em edição numerada) caísse nas mãos de algum caixeiro-viajante, corria-se o risco de a produção que ali estivesse parar nos cantos mais remotos do País. E não era tão difícil revistas de São Paulo, como Klaxon, Terra Roxa e Outras Terras, A Cigarra, pulularem em outros cantos. Graças ao sentimento de vanguarda incendiário nas universidades, as publicações iam embarcadas nas malas dos estudantes que voltavam ao interior, e outros Estados, carregados de ideias revolucionárias (e artísticas). 

 

 

Embora os periódicos tivessem vida curta, a mais famosa das revistas, Klaxon (1922-1923), nasceu das mãos dos bastiões do movimento, como Graça Aranha e o próprio Mário de Andrade. A publicação foi um marco na imprensa alternativa muito por conta da arrojada diagramação (que fez escola para periódicos como Verde e Madrugada) e de colaborações valiosas, de Guilherme de Almeida a Manuel Bandeira

Nos moldes da Klaxon, dezenas de publicações nanicas foram lançadas ao longo da década. Das mais famosas, a Revista de Antropofagia (1928-1929), também em São Paulo, contou com o apoio de muitos escribas que contribuíram com a Klaxon; em Belo Horizonte, os manifestos modernistas floresciam em A Revista (1925), sob os cuidados dos poetas Emílio Moura e Carlos Drummond de Andrade, que publicaram textos de autores como Pedro Nava e João Alphonsus. Das que tiveram maior duração, A Festa foi uma das mais badaladas. Editada por Tasso da Silveira e Andrade Muricy, o mensário saiu da prensa em 1927, com colaboração de Murilo Mendes, Abgar Renault e Cecília Meireles.

 

 

O ano de 1927 foi movimentado para publicações literárias. Em Fortaleza, por exemplo, a recém-fundada Revista Maracajá trazia escritos de autores regionais cujo sonho era viver das letras, como Mario (Sobral) de Andrade, homônimo do escritor paulista, conhecido como Mário de Andrade (do norte). Engenheiro agrônomo e agitador, o rapaz contava com a camaradagem de magistrados e funcionários públicos para espalhar o movimento modernista na cidade; das figuras, a mais conhecida é Rachel de Queiroz, autora de O Quinze, imortal da ABL, também foi colunista do Estadão

 

 

Esse começo errante no mundo editorial marcou gerações de escritores que debutaram em revistas alternativas. Em outras partes do País, como no Rio de Janeiro, entre 1924 e 1925, a revista Estética era editada por Sérgio Buarque de Holanda, importante vitrine para a publicação de críticos e literatos cariocas. “Há uma continuidade dos princípios modernistas da Semana, inclusive com repercussões da estética futurista, embora com menos ousadia/irreverência gráfica”, escreve o crítico literário Maurício Silva sobre a empreitada editorial. “Não obstante, Estética inaugura a polêmica e a cisão entre alguns dos modernistas, inclusive voltando algumas de suas críticas para a produção deles próprios. Trata-se, assim, de uma busca da maturidade do movimento, tudo mesclado a um difuso espírito nacionalista, outra marca recorrente da revista, cada vez mais presente em suas páginas.” 

 

 

Para Luiz Ruffato, autor de A Revista Verde de Cataguases: Contribuição à História do Modernismo (Autêntica), a expressão de nacionalismo empregada nos periódicos é diferente do que hoje significa. Em miúdos, não existia sentimento ufanista ou qualquer bobagem patriótica conservadora ligados ao movimento verde-amarelo. “A lenda que se criou em torno do nome da revista é um equívoco, ela assim se chamava por conta dos integrantes do grupo verde, muito jovens e imaturos”, conta Ruffato. Um dos pilares do Modernismo, a valorização da cultura nacional e, posteriormente, a corrente do regionalismo, inclusive no Nordeste, rendeu bons frutos para a literatura, como o Movimento Modernista em Pernambuco, com Gilberto Freyre e José Américo de Almeida como faróis. 

 

 

No sul do País, um suplemento literário foi elogiado por Guilherme de Almeida em visita a Porto Alegre na década de 1940, a revista Madrugada existiu graças ao ímpeto de jovens universitários, cujo maior orgulho, além das belas capas, foi ter publicado o poema As Máscaras, de Menotti Del Picchia, cuja casa em São Paulo foi a incubadora do movimento. No Paraná, o futuro autor de O Vampiro de Curitiba se esmerava no mimeógrafo: Dalton Trevisan conseguiu fazer a revista Joaquim perdurar por alguns números entre os anos de 1947 e 1948, publicando artistas como Sérgio Milliet e Vinicius de Moraes. 

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Manifesto e textos de Mário e Oswald inspiram do Cinema Novo à Tropicália

‘Antropofagia’ que os criadores da Semana de 22 defendiam teve ressonância em alguns movimentos culturais, como o tropicalismo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

11 de fevereiro de 2022 | 05h00

A importância da Semana de Arte Moderna de 1922 pode ser medida pelos movimentos inspirados nos manifestos e textos ficcionais de seus dois principais artífices: Mário e Oswald de Andrade. Exatamente seis anos após a Semana, em 1928, Mário de Andrade criou um personagem que, de certo modo, resume o estereótipo consagrado do brasileiro: sem caráter, incapaz de se identificar com as causas coletivas e que, por isso, termina a vida sozinho até virar não uma estrela, mas uma constelação. Seu Macunaíma, por outro lado, pode ser entendido de outra forma: seria um índio avesso ao colonizador e resistente ao racionalismo branco. Não era esse também o propósito de Oswald de Andrade ao produzir, no mesmo ano, o Manifesto Antropófago, um manual de devoração da herança cultural estrangeira, concebido como uma resposta do selvagem devorador de caucasianos?

 

 

O manifesto oswaldiano foi lido e reinterpretado nos anos seguintes por escritores, artistas visuais, cineastas, músicos e diretores de teatro como uma atualização necessária dos rituais canibais em que se devorava o inimigo para ficar mais forte. Projetos artísticos e literários posteriores ao de Oswald viram nesse ato de deglutição (ou transfiguração) uma fórmula moderna para renovar o panorama conservador da sociedade brasileira. Um deles foi o Tropicalismo, projeto cujo nome foi inspirado numa instalação do artista plástico Hélio Oiticica, exposta na mostra Nova Objetividade Brasileira, de 1967, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

A obra de Oiticica era um labirinto de madeira forrado com areia e pedras, que convidava o espectador a um contato mais íntimo com o Brasil tropical, de plantas exóticas e araras lisérgicas, terminando esse percurso em frente a um aparelho de TV. No mesmo ano, 1967, a antropofagia oswaldiana retoma seu lugar no cenário brasileiro graças ao empenho anterior dos poetas concretos (nos anos 1950) para valorizar o legado modernista. Em maio de 1967, Glauber Rocha lança seu filme mais discutido, Terra em Transe, uma parábola sobre a ditadura brasileira em que, a exemplo de Oswald, o cineasta critica poderosos conservadores e propõe uma revolução no fictício país latino de Eldorado.

 

 

As mazelas desse Brasil patriarcal, sugado por agiotas e políticos da pior espécie, foram exploradas pelo próprio Oswald numa peça concebida em 1933, lançada em 1937 (às vésperas do Estado Novo) e montada no histórico ano de 1967 pelo Teatro Oficina sob a direção de José Celso Martinez Corrêa: O Rei da Vela. Oswald era filho da aristocracia paulistana que faliu em 1929 com o crack da Bolsa de Nova York. Explora na peça um pouco a história desses aristocratas falidos que se uniram a prósperos burgueses para sobreviver, submissos ao capital estrangeiro.

A ressonância do visual tropicalista da peça do Oficina no universo musical brasileiro é evidente, bastando citar as capas dos discos do movimento tropicalista do qual participaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Rita Lee e o Mutantes, os poetas Torquato Neto e Capinam, maestros de formação erudita como Júlio Medaglia e Rogério Duprat, além da cantora Gal Costa. A Tropicália, resumida num disco antológico, Panis et Circenses (1968), acentuou os paradoxos da cultura brasileira, ao incorporar todos os estilos, do brega ao rock, e superar as discussões em torno do arcaico e moderno. Tudo era deglutível, principalmente o estrangeiro. O movimento tropicalista foi marcado pela estética da pop art americana e pelo cruzamento híbrido entre a tradição musical brasileira com os grupos de rock de fora.

 

 

O Cinema Novo brasileiro foi igualmente uma arma contra todas as dicotomias. Nelson Pereira dos Santos absorveu o cinema experimental europeu, assim como Joaquim Pedro de Andrade, que transpôs Macunaíma para o cinema em 1969, retirando do anti-herói todos os poderes mágicos que tinha no livro. Seu Macunaíma acaba devorado por um Brasil ainda mais selvagem. Mais de uma vez, o diretor contestou que sua obra fosse “tropicalista”, mas só a cena da feijoada com carne humana preparada na piscina (do Parque Lage, no Rio), com seu exotismo e cenografia felliniana, basta para justificar a filiação. De qualquer modo, é uma sequência que ilustra, como nenhuma outra imagem, a do banquete canibal do Manifesto Antropófago de 1928. Só a antropofagia nos une, dizia Oswald de Andrade. Deve ser verdade.

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