Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Semana da Arte tem êxito e terá nova edição em São Paulo

Galerias vendem bem na feira que acabou ontem e se descolou da crise

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2017 | 06h00

A feira em torno da qual foi organizada a Semana de Arte, que terminou ontem, no hotel Unique, funcionou como uma espécie de termômetro do mercado que, se não está propriamente aquecido, ao menos dá sinais de se descolar da grave crise econômica. Foram negociadas obras de arte de alto valor pelas 39 galerias convidadas pelo comitê curatorial da feira, formado pelos galeristas Luisa Strina e Thiago Gomide, o curador Ricardo Sardenberg e o empresário cultural Emilio Kalil. O êxito do evento pode ser medido pelo resultado comercial da própria galeria de Luisa Strina, que, segundo a marchande, teve de repor as obras do artista Marcius Galan já na sexta, segundo dia de funcionamento da feira, tendo vendido todos os trabalhos expostos em seu estande no dia da abertura.

Na mesma sexta-feira, 18, o marchand André Millan, da galeria que leva o nome de sua família, havia negociado duas peças da série Lizard, do escultor pernambucano Tunga (1952-2016) por preços módicos (US$ 100 mil e US$ 250 mil) se comparados às cotações de outras obras raras presentes na feira – entre elas esculturas nunca vistas (estavam numa coleção particular) da artista neoconcreta mineira Lygia Clark (1920-1988), à venda na Galeria Almeida e Dale (preços variando entre US$ 2 milhões e US$ 20 milhões).

A diferença fundamental entre essa pequena feira e outras internacionais de grande porte é que ela funciona com uma espécie de curadoria museológica, segundo a percepção de alguns visitantes e dos próprios galeristas. De fato, a disposição e o tamanho dos estandes, em geral ocupados por obras de um mesmo artista, facilitava a aproximação entre eles, permitindo um interessante diálogo. Foi o caso, por exemplo, de Antonio Dias, na Galeria Nara Roesler, e Amilcar de Castro (1920-2002), na Galeria Marília Razuk. Ou do venezuelano Jesús Soto (1923-2005) e o argentino León Ferrari (1920-2013) ambos ocupando o estande da Dan Galeria – uma associação formal que representou um achado do galerista Peter Cohn.

“O visitante, numa feira pequena, tem uma leitura mais coerente do próprio artista”, analisa Cohn, considerando que a atenção dos frequentadores não fica dispersa como nas megafeiras. “Organizar um estande com obras do mesmo artista é mais difícil”, admite, mas a concorrência entre as galerias diminui, pois os colecionadores já sabem o que buscar em cada uma delas. Assim, se o interesse deles convergia para o modernismo, os visitantes podiam encontrar obras raras de Flávio de Carvalho na Galeria Frente. Ou de Di Cavalcanti na galeria uruguaia Sur, que tinha à venda uma tela de grandes dimensões do pintor, produzida em 1952 para a fábrica de colchões Probel, que remete à estética do muralismo mexicano. O marchand Martin Castillo, proprietário da galeria Sur, não revelou o preço da pintura, mas ele deve girar em torno de R$ 4 milhões.

Os contemporâneos não ficaram muito distantes desse patamar. As obras mais caras de Antonio Dias, representado por trabalhos dos anos 1970 e 1980 na galeria Nara Roesler, custavam em torno de R$ 2 milhões. Uma escultura de Amilcar de Castro era oferecida pela galerista Marília Razuk por preço equivalente ao da tela de Di Cavalcanti. “Ainda não fechamos negócio, mas certamente ela será vendida”, diz ela.

Como é usual, muitas vendas são realizadas após o término das feiras. O colecionador, cujo perfil foi renovado com a entrada de jovens empresários no mercado, segundo ela, aproveita a feira para ver e decidir depois. “O público é basicamente o mesmo de outras feiras, mas, por ser pequena, vêm só os mais focados”, observa. “Não tem curiosos’, conclui.

A despeito de ser pequena, a feira da Semana de Arte atraiu 1.600 visitantes só no primeiro dia. “Tivemos até a visita de um joalheiro que, curiosamente, pediu a um curador para dar uma aula de arte aos seus vendedores”, conta a galerista Luisa Strina, que promete nova edição da feira sem ampliar seu tamanho. “Ela tem uma dimensão humana, não deixa o visitante exausto”, avalia um dos curadores, Emilio Kalil. “A feira veio para ficar, é um modelo produtivo para as galerias”, diz Ana Dale, sócia da Galeria Almeida e Dale.

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