Sem perder a miséria de vista

Agora em tom mais leve e lúdico, Costa-Gavras mostra Eden à l?Ouest e recebe troféu Calunga especial

Luiz Zanin Oricchio, RECIFE, O Estadao de S.Paulo

29 de abril de 2009 | 00h00

O diretor Costa-Gavras aplaudiu de pé a apresentação da orquestra de meninos do Recife, na abertura do 13º Cine PE - Festival Audiovisual do Recife. Foi uma bonita, ainda que longa, cerimônia, com peças clássicas e populares sendo tocadas por crianças carentes da cidade, moradores da Favela do Coque, e que se tornaram instrumentistas graças ao programa social e artístico do maestro Cussy de Almeida. Depois foi a vez do próprio Costa-Gavras receber o troféu Calunga especial e agradecer à hospitalidade do festival. Conversou com jornalistas pouco antes da cerimônia no Cine Teatro Guararapes. Perguntaram-lhe se a sua especialidade, o cinema político, havia morrido, e respondeu que não: "Todo filme é político; você quer filmes mais políticos do que Cidade de Deus e Tropa de Elite?", disse. Aliás, Costa-Gavras era presidente do júri do Festival de Berlim no ano passado, quando Tropa de Elite, de José Padilha, ganhou o Urso de Ouro. Naquela ocasião, Berlim encerrou o festival com a exibição da mais recente obra da grife Costa-Gavras - Eden à l?Ouest. É sua concepção do que seja, hoje, a obra política. Foi este o filme apresentado na abertura do Cine PE, com casa cheia. Eden à l?Ouest (título que fala da idealização da Europa pelos países pobres) mostra como Costa-Gavras tem mudado a sua concepção de cinema. Quem se habituou a ver nele o cineasta empenhado e sisudo de Z, Estado de Sítio e Missing, surpreendeu-se com o tom lúdico e leve de Éden a Oeste (título que faz paráfrase com East of Eden, de Elia Kazan, Vidas Amargas, no Brasil). Não que tenha deixado de lado os temas sociais. Pelo contrário, põe em foco a grande questão social da Europa contemporânea, a dos imigrantes. Por isso, o filme começa com um daqueles clássicos navios abarrotados de imigrantes pobres tentando alcançar a costa de um desses paraísos europeus. O barco é abordado pela polícia e alguns viajantes se atiram n?água para alcançar a terra a nado.O resto da história será centrado na figura de Elias (interpretado pelo italiano Riccardo Scamarcio) e sua busca desesperada para chegar a Paris. O personagem é monoglota e esperto, sempre faminto e pronto a tornar-se objeto de desejo das mulheres - e não apenas delas, mas de alguns gays que encontra pelo caminho. Não, senhores, o cinema de Costa-Gavras não se tornou libertino. Mas ficou engraçado; e leve. Não perdeu gume crítico, mas parece antenado com um tempo no qual as grandes causas já não fazem sentido, embora os desafios sociais continuem presentes. Vale agora a sobrevivência do indivíduo, uma vez que os projetos coletivos faliram. E já que não faz sentido o tom engajado, a linguagem picaresca talvez se mostre mais eficaz. Assim, Elias desembarca num resort grego chamado Éden, esconde-se, fica sob a proteção de uma alemã de meia-idade, desperta o desejo do gerente do estabelecimento, trabalha com um mágico, viaja de carona com caminhoneiros alemães, etc. Seu trajeto é o do desencanto, mas se faz sem perda de humor. O filme é ágil, vivo, sem um momento de tédio, qualidades que se devem a muitas coisas, entre elas à boa interpretação de Riccardo, mas também à montagem de muita fluidez. É um filme que dialoga com o espetáculo, mas não perde de vista a miséria do mundo. Nem deixa de se solidarizar com os oprimidos, uma constante na obra de Costa-Gavras. A filmografia anterior desse cineasta continua alvo de interesse. Na retrospectiva programada para Recife, Z, sobre ditadura grega, e considerada a sua obra-prima, seria apresentado num cinema de 200 lugares. A sessão, que ocorre na sexta-feira, teve de ser remanejada para o Cine Teatro Guararapes, onde cabem 3 mil pessoas, devido à procura de ingressos. Cinema político ainda faz a cabeça das pessoas. Pelo menos em festivais.

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