Sem medo, análise assume revisão subjetiva

Grande mérito do trabalho é ser símbolo da coerência intelectual do pesquisador, espécie de síntese de toda a sua produção

Francisco Alembert, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

Não é difícil elogiar o novo livro de Peter Gay. É mais fácil atacá-lo. O projeto de resumir e caracterizar o "modernismo" é simultaneamente ocioso (para muitos pós-modernos), frágil (para os megaespecialistas) e comercial (para os apressados). O maior mérito do livro é não temer nada disso, além de valer também como uma síntese da obra do autor da conhecidíssima biografia de Freud, um dos mais importantes historiadores da cultura contemporânea. Isto porque boa parte das teses deste livro se relacionam com outras obras, como Guerras do Prazer, último trabalho de sua pesquisa publicada em cinco volumes - A Experiência Burguesa: da Rainha Vitória a Freud. Lá, como aqui, parte-se da ideia de que a burguesia vitoriana teria aberto o caminho para as experiências da vanguarda modernista, formada sobretudo por burgueses em crise com sua própria classe e, por isso mesmo, marcada por uma certa "burguesofobia". Assim, "modernismo" é um processo de autoquestionamento e crise contra a cultura estabelecida, em busca da renovação de si. O ponto de vista é radicalmente subjetivista, rousseauniano e freudiano (ele é tão freudiano que chega a afirmar que Marinetti e Breton foram "os Freud de seus clãs"): o "fascínio da heresia" é resultado de "um exame cuidadoso de si mesmo". Gay compartilha essa visão otimista e positiva da subjetividade livre e contraditória do modernismo com boa parte da vertente crítica norte-americana (como, por exemplo, o historiador marxista Marshall Berman).Por isso ele privilegia o expressionismo (assunto de outro livro clássico seu, sobre a cultura de Weimar) e seu subjetivismo radical ao racionalismo utópico da abstração construtiva - e por isso também ele verá na arquitetura de Frank Gehry uma espécie de renascimento do expressionismo fantasista.O impulso subjetivo, iconoclasta e autoexpressivo dos modernistas tem razão histórica: ele começa com o horror, o ódio de "família" (pois o modernismo aqui é tratado como uma família conflituosa) de Baudelaire e Flaubert à classe média (assunto também explorado no livro O Século de Schnitzler) e termina com a pop art e sua irônica e já bem posta apologia à cultura de massas. O obra é uma cartografia, um mapa, do surto herético-cultural, e de suas contradições, nos últimos 150 anos.Isso é discutível? Não há dúvida (aliás, o que neste campo não é?). Mas essa visão permite a Gay ver coisas que geralmente são omitidas pelas leituras formalistas ou historicistas. Por exemplo, o papel desempenhado por investidores e galeristas na formação do cânone moderno (e, posteriormente, em sua desmontagem) e na recriação do sistema capitalista de arte depois da revolução modernista."É muito mais fácil exemplificar do que definir o modernismo." Esta é a primeira frase do estudo e é exemplar de seus impasses. Primeiro, por ser honesta. Segundo, por definir o livro-compêndio: ele exemplifica e, via Freud, tenta caracterizar o modernismo como um impulso (ou uma pulsão) da (anti)cultura, que forma um "estilo" (assunto este que o historiador explorou em um livro mais teórico, O Estilo na História). Pelo esquema de Gay, o pós-modernismo não é um conceito sério. Para ele, Damien Hirst ou Frank Gehry são modernistas (o que é muito questionável). Esse "estilo" configura a pulsão da revolta. Por isso, ele pode resumir com precisão que "o modernismo foi uma dupla libertação psicológica, para os produtores e também para os consumidores da alta cultura". "Deu aos artistas a liberdade de levar a sério suas fantasias de insubordinação, de encarar com indiferença os cânones que por tantos séculos haviam ditado os temas e as técnicas, de decidir se era o caso de modificar - ou, mais radicalmente, de derrubar - os critérios vigentes, e que seriam eles a empreender a revolução."Estou de acordo (a não ser pela ideia de libertar os "consumidores da alta cultura", pois me parece que a força do modernismo foi justamente acabar com a ideia da "alta cultura" em favor da cultura da revolução). Embora destaque bastante a importância de Marx para o "clima modernista", ele acha que seu favorecimento maior veio de Nietzsche. Creio que isto acontece porque para nosso historiador o modernismo é uma criação da "classe média esclarecida".Peter Gay é eurocêntrico. Não tem a menor ideia da importância do modernismo na periferia. Isso só lhe aparece no final, quando irá tratar, com fascínio, da obra de Gabriel García Márquez e seu "realismo original": um Kafka na periferia do capitalismo (uma definição que Gay rejeitaria). Mas esse difícil reconhecimento do modernismo periférico é um "defeito" da maioria dos pensadores do centro da "civilização ocidental", o que aliás apenas demonstra o quanto a derrota do cosmopolitismo modernista é grave. Na também monumental obra Art Since 1900, os únicos artistas brasileiros citados são Hélio Oiticica e Lygia Clark, que aparecem apenas na sessão "arte não ocidental". Pelo menos o modernismo, mesmo que tardio, ensinou a Peter Gay que os latino-americanos são parte do mundo que a modernidade criou.Francisco Alambert é professor de História Social da Arte e História Contemporânea da USP

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