Sem ensaio e burocráticos, Hermanos agradam aos fãs

Banda tocou hits acompanhada em coro por uma multidão

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

24 Março 2009 | 00h00

Qualquer superlativo vai soar ridículo para classificar o impacto do show do Radiohead, anteontem na Chácara do Jockey. Foi um daqueles momentos raros de felicidade geral. Um show para figurar no top 10 (ou 5) de uma vida, ou pelo menos de duas gerações de público. Iggy Pop no Claro Q É Rock, R.E.M. e Neil Young no Rock in Rio 3, a primeira vinda do Echo & The Bunnymen, David Bowie no Olympia, Red Hot Chili Peppers no Hollywood Rock, Björk no Free Jazz/TIM Festival entram no páreo dos memoráveis. Até mesmo a primeira vez que o Kraftwerk veio com o mesmo show robótico de domingo vale como referência - mas a terceira já foi tediosa, porque tudo igual, embora bom para quem não tinha visto. Bem que a gente merecia uma abertura mais enfática para esse Just a Fest. Talvez o Keane, que tem mais a ver com o Radiohead e fez um lindo show este mês na cidade. Dá um certo desânimo imaginar que a "volta" de Los Hermanos (em recesso desde 2007) foi usada como chamariz de público. Para quem foi ao festival numa sequência de ótimos shows de música pop brasileira na sexta (Karina Buhr e Claudia Dorei) e no sábado (Eddie, os três no Sesc Pompeia), e diante da perspectiva de chuva, encarar os barbudos e a histeria de seus fãs só fez aumentar a preguiça. Mas força, vamos lá, o Radiohead era o objetivo principal, e pela banda do incrível Thom Yorke a gente se muniu de um pouco mais de paciência e boa vontade. Comparar o show de Los Hermanos com o do Radiohead é covardia. Evitemos o clichê e vamos analisar a coisa isoladamente. É claro que os fãs adoraram (fã existe para isso), cantaram todas as músicas junto, pediram para o grupo continuar e tal. Tudo como previsto. Mas analisando no geral, depois que tudo passou, volta a velha questão proferida pelo filósofo Cioran: "Pra que qualquer coisa em vez de nada?" Pra que aquele "som ambiente" com jazz e reggae entre os shows para aborrecer quem não ia se interessar? Pra que Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba tocando displicentemente em vez do silêncio? Eles são referências respeitáveis para uma geração carente de boas bandas de rock. Porém, ficou nítido que este não era o momento propício para uma "volta", que passou longe de "triunfal", como classificou um jornal de seus conterrâneos cariocas. Seis minutos antes do horário previsto (às 18h24), eles iniciaram o show de 1 hora e 12 minutos com o hit Todo Carnaval Tem Seu Fim. "Quanta gente, meu Deus", exclamou Amarante, diante da massa entusiasmada, formada em grande parte por seu fã-clube. "Viva a alegria!", exultou mais tarde. Com o repertório na ponta da língua, esses fanáticos formaram coro em várias canções, como Cara Estranho, Deixa o Verão (um dos melhores momentos) e outras, mais próximas do rock do que da MPB. (Mas nada que chegasse à comoção da multidão acompanhando Thom Yorke no verso "I lost myself", de Karma Police, transformado em hino.) Camelo massacrou a pobre guitarra várias vezes, se esgoelou até não poder mais em Além do Que se Vê e outras, o baterista entrou errado, eles riram, o som não era dos melhores. Nota-se que faltou ensaio e entrosamento, mas os fãs nem ligaram, porque tiveram o que esperavam. E o naipe de metais salvou a parte instrumental diversas vezes. Foi um show burocrático, sem surpresas, interminável. Mas sejamos otimistas, poderia ter sido pior: Camelo poderia ter convidado Mallu Magalhães.

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