Selecionados de prêmio revelam a estética do vazio

Área autoral estaria presa a brincadeiras tecnológicas, sem nenhum conteúdo

Simonetta Persichetti, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

Como é de praxe, os temas escolhidos para o prêmio Porto Seguro de Fotografia estão em sintonia com as preocupações contemporâneas. Neste ano não foi diferente: O Retrato em Questão, A Imagem Brasileira, com a colaboração na definição do tema da pesquisadora Annateresa Fabris, foca bem o que está em evidência na arte contemporânea: a representação e a auto-representação do eu. O prêmio especial para a artista plástica Rosangela Rennó confirma o que se vislumbra em galerias e museus (em alguns, pelo menos), a discussão do ato de fazer imagens e seus conceitos. Rosângela discute o valor e o peso da fotografia numa sociedade onde a imagem se tornou imagem mediática, ocupando todos os espaços e, às vezes, com a função de ser espetáculo ou espetacularizar o cotidiano: "Ela foi indicada pelos selecionados e premiados das edições anteriores e ratificada pela comissão julgadora. Rosangela Rennó, ao apropriar-se das fotografias alheias, elabora uma reflexão contemporânea sobre a imagem", diz o curador do prêmio Cildo Oliveira.Coerente também o prêmio para Tonho do Ceará (Antonio Moreira Góis), que, apesar do apelido, há muito mora no Recife e instalou sua câmera lambe-lambe nos arredores do Mercado de São José, revelando um mundo arcaico que conversa com a pós-modernidade de Rosangela Rennó. O prêmio São Paulo ficou com Felippe Hellmeister, conhecido na área da publicidade e da moda, mas com forte atuação também na área autoral. Ele apresenta flagrantes do metrô de São Paulo, seguindo uma estética também em evidência, da fugacidade e a plástica publicitária da imagem.A surpresa vem de Carlos Moreira, famoso por seus ensaios na rua, seus retratos feitos muitas vezes a exemplos de instantâneos ou da linha humanista ligada a Cartier-Bresson. Ele apresenta montagens e colagens fotográficas, um bricabraque divertido, em que, como Rosângela Rennó, reconfigura antigas fotos e altera o sentido, resignificando a própria imagem. Talvez o melhor trabalho selecionado.O resultado final não parece animador. Aqui, também a estética do vazio (parafraseando mote da Bienal), ou seja, nada. Nos trabalhos há um cheiro de já visto, de acomodação. Falta novo ar na fotografia brasileira, que na área autoral se estabilizou num patamar de brincadeiras tecnológicas, sem conteúdos, ou verdadeiras questões, propostas. Parece que estamos na frente de um receituário iconográfico. Tudo igual e repetitivo. Se é assim que nos vemos e representamos, não estamos muito bem. ServiçoPrêmio Porto Seguro Fotografia. Espaço Porto Seguro Fotografia. Alameda Barão de Pira-cicaba, 740, Campos Elíseos, tel. 3366-8262. 10 h/18 h (fecha 2.ª). Grátis. Até 14/12

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