Segredos do casamento chinês

Ao abrir o convite para o casamento do irmão da sua nora chinesa, meu pai pensou em lhe dar de presente uma torradeira. Nada tinha a ver com a nacionalidade do Kevin. Meu pai, que se chama Garry, costuma presentear todos os noivos com torradeiras. É útil, segundo ele, produz pãozinho quentinho e gostosinho e hoje em dia existem os mais diversos modelos, dos mais simples, "aos que grelham hambúrgueres e estão ligados à internet".Mas por via das dúvidas, achou melhor consultar primeiro sua nora, Leslie. Ela o ajuda a entender a cultura chinesa, a da grande comunidade de ??taiwaneses na Califórnia, para ser mais específico.Qualquer semelhança com o filme Gran Torino, de Clint Eastwood, é superficial, ou talvez não, fico pensando. Se você ainda não assistiu a essa pequena obra-prima, alugue o vídeo, que está nas locadoras. É dos melhores longas-metragens dos últimos tempos.Diferente do personagem do Clint, um operário solitário e veterano amargurado de guerra, meu pai é um estudioso gregário de diferenças culturais. Faz parte da sua profissão, de consultor de empresas, e autor, especializado no assunto.Mas tal como o Clint, no filme, meu pai se vale de "guias" culturais, na vida real. No caso dos chineses, como chamamos a família do meu irmão, costuma perguntar tudo para a nora mesmo.Leslie não gostou da ideia da torradeira. Mandou dizer, por meio do meu irmão, que os chineses dão mesmo é dinheiro nos casamentos. Explicou, ainda, que existe uma espécie de fórmula, que leva em conta o status, a proximidade ao noivo e outros fatores para determinar quanto. No caso, era duas vezes o preço da torradeira, que era das melhores, diga-se de passagem. Essa quantia deveria ser colocada dentro de um envelope vermelho e entregue à pessoa encarregada de recolher os envelopes vermelhos.Durante o casamento anuncia-se o valor dado por cada um, a não ser que você peça anonimato. Meu pai ficou feliz por ter perguntado e grato pela ajuda. Imaginou uma cena em que fosse alardeado um presente de, digamos, mil dólares para, a seguir, ouvir dizer que senhor e senhora Shirts deram de presente uma torradeira...Estava quase dentro do carro, já, no dia do casamento, quando resolveu checar na internet como os chineses se vestem nessas ocasiões. Meu pai faz isso porque pode. Ele adora a tecnologia. Se é possível checar de última hora o que se veste em um casamento chinês, graças à internet e ao Google, ele vai fazê-lo. É divertido. Pelo menos para ele.Retornou da consulta com notícias preocupantes. Encontrou um site que fornece informações a respeito de culturas específicas. Lá estava escrito: "Não use preto e branco em casamentos chineses. São as cores da morte."Minha mãe trajava uma blusa branca e uma saia preta, compradas para o evento. Ele usava um terno preto com uma camisa branca. "Iríamos para o casamento fantasiados de senhor e senhora Morte!", segundo narra, em um escrito seu sobre a cultura. Voltaram para o quarto e trocaram de roupas. Consigo imaginar a cena. Minha mãe não deve ter gostado nada, nadinha. (Ainda vou ouvir sua versão).Ao chegar ao casamento, esbaforidos e tensos, depois de duas horas de viagem, perceberam que pelo menos 15 mulheres trajavam preto e branco e os homens, quase. "Era eu o único, aliás, de paletó claro", conta meu pai.Fiquei pensando qual seria a moral dessa história, se é que ela existe. Talvez esta: há uma diferença entre o mundo e a internet.

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