Sedução do nazismo em além-mar

Missão no Reich, de Roberto Lopes, inaugura vertente que estuda as relações do nacional-socialismo com a América Latina

Maria Luiza Tucci Carneiro, O Estadao de S.Paulo

03 de janeiro de 2009 | 00h00

O livro Missão no Reich, de Roberto Lopes, traz à luz uma vertente inédita para os estudos sobre as relações do nazismo com a América Latina. Através de centenas de ofícios, telegramas, atas e relatórios secretos, o autor adentra ao mundo nebuloso da diplomacia. Analisa, com a sensibilidade do jornalista/historiador, centenas de documentos pesquisados em 11 arquivos estrangeiros que, no seu conjunto, contribuem para a (re)escrita da história do nazismo, suas tramas e representações. Ao recuperar os diálogos dos diplomatas latino-americanos que serviram na Alemanha de Hitler, Lopes nos oferece uma nova dimensão do nazismo que, enquanto regime totalitário, se expandiu para além das fronteiras da Europa.Na verdade, Lopes comprova que Hitler, então chanceler do Reich, possuía um amplo conjunto de informações acerca das potencialidades dos países sul-americanos. Por exemplo: demonstra que, assim como "o mercado germânico refulgia como ouro para os governantes e produtores do Brasil", as matérias-primas e outras provisões oferecidas pelos países latino-americanos interessavam também à cúpula nazista. Desenrolando essa trama, Lopes desvenda os múltiplos tratados comerciais fechados pela Alemanha com a Argentina, Chile e Brasil, dentre outros.O discurso assumido pelos diplomatas em missão no Reich comprova que o projeto nacional-socialista servia de paradigma para muitos que não ocultavam o seu deslumbramento diante das conquistas da Alemanha e da figura carismática de Hitler. Essa elite de "missionários" funcionava como um clã de "informantes" e "propagandistas" da ideologia nazista. Sob esse viés, constatamos que os brados de "Heil, Hitler!" tiveram ecos em vários países das Américas. Os fragmentos dos relatórios políticos analisados pelo autor são muito mais que pronunciamentos corriqueiros de servidores de carreira, ainda que de segundo escalão. São, na sua essência, espasmos de uma mentalidade autoritária e intolerante que, naquele momento, encontrou ambiente para aflorar. É como se dezenas de nações do "além-mar" tivessem sido acordadas pelas vibrações histéricas da população alemã que, seduzida pela propaganda hitlerista, não hesitava em seguir as ordens de seus líderes. Envolvidos pela propaganda oficial, foram induzidos a pensar em si mesmos como parte de um coletivo, uma espécie de corpo cujos membros se integram num mesmo espírito (Volksgeist).É nessa direção que Roberto Lopes adentra aos caminhos da História Política demonstrando que a presença dos diplomatas sul-americanos não ficou restrita às salas de espera do 3º Reich. Raros foram aqueles que questionavam os meios e os fins que levavam à morte, todos os dias - durante anos consecutivos - milhares e milhares de judeus, ciganos e dissidentes políticos. Ainda que testemunhos oculares das ações violentas empreendidas pelos nazistas, a maioria desses diplomatas deu o seu aval ao projeto antissemita do Estado nacional-socialista. Cumpridores do dever de servir ao seu país de origem, ajudaram a temperar "à moda da casa", os negócios comerciais e os atos racistas que legitimavam o assassinato sem escrúpulos e o extermínio sem piedade de judeus.Ao colocarem em prática as circulares secretas antissemitas que proibiam a concessão de vistos aos refugiados judeus, esses diplomatas deixavam de lado a neutralidade para se tornarem colaboracionistas. Protegidos pelos timbres de "secreto" e "confidencial" atribuídos aos seus escritos, compartilharam da neurose coletiva que marcou o início da Era Nazi a partir de 1933. Afinal, estavam em "missão no Reich"; difícil ser diferente ou seja, estar ao lado da oposição em um país que louvava a homogeneidade de pensamento e a pureza da raça. Aliás, foi assim - como uma praga - que o nazismo contagiou grupos políticos e comunidades de imigrantes alemães radicados em diferentes países latino-americanos.Seduzidos pelos espetáculos nazistas, estes diplomatas compartilhavam de encontros políticos e festas sociais de confraternização, sem o menor escrúpulo ideológico. Haja visto o trem que partiu de Berlim em 8 de setembro de 1936 levando 41 diplomatas de 37 países para o Congresso do Partido Nacional-Socialista em Nuremberg. Nesse comboio estavam representados Brasil, Argentina, Uruguai, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, Cuba, República Dominicana, Panamá, Guatemala, Nicarágua e México. Da mesma forma, somaram forças na caça aos comunistas, instigados pelo mito do complô judaico-comunista acionado para justificar os atos de repressão e o antissemitismo latente na Europa e nas Américas. Ao desatar os nós dessa rede de controle característica dos regimes totalitários e autoritários, o autor traz detalhes sobre a trama diplomática que culminou com a morte de Olga Benário na câmara de gás. Foi em outubro de 1936 que João Guilherme Neumann, neto de colonos alemães radicados no Brasil, e Luiz Felipe Peixoto, policiais da equipe de captura da Polícia Política brasileira, foram recepcionados em Hamburgo por Moniz de Aragão após terem entregue Olga ao destacamento da SS que os aguardava no cais do porto de Hamburgo. Pela missão cumprida receberam "passagem de volta ao Rio em barco do Lóide Brasileiro e uma generosa ajuda de custo: 250 libras". [P. 294]Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora, professora livre docente do Programa de História Social da FFLCH e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, é autora de O Anti-Semitismo na Era Vargas, entre outros livrosMissão no ReichRoberto LopesOdisséia560 págs., R$ 89

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