FOTO TIAGO QUEIROZ / ESTAD?O
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Amazônia desconhecida por Sebastião Salgado

Exposição do fotógrafo no Sesc Pompeia reúne mais de 200 fotos registradas nos últimos sete anos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2022 | 05h00

Aberta em Paris em maio do ano passado, a exposição Amazônia, com duas centenas de fotos de Sebastião Salgado, chega a São Paulo no dia 15, no Sesc Pompeia, apresentando lugares conhecidos apenas por indígenas ou militares do Exército que monitoram seu extenso território. É o caso, por exemplo, de montanhas na fronteira com a Venezuela, onde fica o Pico da Neblina, ponto mais alto do Brasil (2.993 metros). Ou dos “rios voadores”, pantagruélicas torrentes de vapor que se formam sobre a floresta, cujo registro depende de um profissional com pleno domínio da técnica fotográfica – e também de uma incomum sensibilidade para fenômenos naturais.

Sebastião Salgado está para a paisagem contemporânea como o norte-americano Ansel Adams (1902-1984) para a moderna. Se Adams abandonou o pictorialismo por influência de Paul Strand, ao abraçar a fotografia “pura” e defender a definição absoluta da imagem, Salgado se distancia dele como um fotógrafo de formação jornalística. O que os une é a mesma paixão pela natureza. Adams registrou a beleza dos parques nacionais e a vida em reservas de nativos norte-americanos. Salgado está cada vez mais empenhado em defender as comunidades indígenas da Amazônia, militando pela salvação da Floresta Amazônica desde sua primeira viagem à região, em 1983.

Idealizada por Lélia Wanick Salgado, esposa do fotógrafo, a mostra – imersiva – tem como meta colocar o visitante no meio da floresta. “As montanhas, os rios aéreos, as comunidades, tudo isso é mostrado com legendas para que o público saia da exposição informado sobre cada uma das imagens.” De fato, ao ver as ilhas Anavilhanas refletindo as nuvens carregadas, é até possível evocar a perfeição estilística de Ansel Adams, mas o objetivo de Salgado é outro: “Não fui lá para registrar a paisagem, mas para apresentar um bioma”. O lado documental pesa mais que o formalismo.

Embora Salgado jamais tenha rodado um filme, ao contrário do filho Juliano, que codirigiu O Sal da Terra (2014) com o alemão Wim Wenders, documentário sobre o fotógrafo, sua exposição guarda certa semelhança com essa linguagem. São fotos em preto e branco apresentadas em blocos que convidam o visitante a associações com o dinamismo da imagem de cinema, entrando no clima da floresta com a ajuda de uma trilha sonora que tem tanto composições de Villa-Lobos como dos contemporâneos Rodolfo Stroeter e Jean-Michel Jarre, pioneiro da música eletrônica e filho do premiado compositor Maurice Jarre (de Doutor Jivago, Lawrence da Arábia e outros épicos).

Por que, então, não rodar um filme? “Como fotógrafo, tenho liberdade total, não trabalho com um conceito ideológico predefinido, ao contrário dos documentaristas”, justifica Salgado. “O fotógrafo é mais independente e seu trabalho, mais subjetivo”, conclui. Além das mais de 200 fotografias, são exibidos na mostra sete vídeos com depoimentos de lideranças indígenas sobre os problemas de sobrevivência numa floresta dizimada pela ação de predadores e pelas mudanças na política de preservação. “Espero que os brasileiros votem este ano em quem tenha um projeto sustentável para a Amazônia, ao contrário do atual governo, que só fez destruir instituições como o Ibama e a Funai.”

Salgado não fica só no discurso. Ele e Lélia criaram um espaço dedicado à preservação ecológica, o Instituto Terra, em 1998, iniciativa que já promoveu o reflorestamento de uma área de cerca de 600 hectares de Mata Atlântica em Aimorés (MG), além do cultivo de milhões de mudas de árvores em extinção. Ao término da exposição, o visitante é informado sobre as atividades do instituto, entre elas a capacitação de jovens ecologistas.

O fotógrafo acabou de completar 78 anos em plena forma. Desde as primeiras vistas aéreas, registradas ao acompanhar o Exército em missões na Amazônia brasileira, até o contato com comunidades indígenas, foram sete anos de viagens para que ele apresentasse lugares inóspitos e os dez grupos indígenas com os quais conviveu. “Lá ainda existem mais de 100 grupos indígenas desconhecidos.” E ele pretende voltar com sua câmera para registrar essas comunidades.   

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