Se eu fosse fazer um filme

Se eu fosse fazer filme, começaria com a cena que aconteceu segunda-feira, 7 de setembro, 8 da manhã na Estação da Luz, quando algumas gerações ligadas a trem se encontraram. Meus netos, Pedro, de 6 anos, e Lucas, de 4, acompanhados pelo pai Daniel e o tio André, e eu chegamos ao mesmo tempo no saguão de entrada, onde um jovem martelava um piano alegremente. O piano está lá, quem quiser senta-se e toca. No mesmo momento, uma imagem se materializou e me vi subindo a escada das plataformas para o mesmo hall, em março de 1957. Aos 21 anos, doido da vida, só queria vencer. Não foi preciso forçar, outra figura apareceu. A nos observar, o riso suavemente irônico nos lábios (esse mesmo riso que eu e Lucas temos, às vezes), estava quem começou tudo, meu pai. Conheci São Paulo aos 12 anos.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

Pedro e Lucas estavam excitados para viajar de trem pela primeira vez sem ter noção que trens, estações e trilhos fizeram a vida do avô e do bisavô deles e de todos aqueles tios que não conhecem, cujas histórias ainda não lhes foram contadas, de parentes que foram contadas de parentes que foram maquinistas e telegrafistas. Também não sabiam que aquele vagão era familiar a este avô, que nele viajou incontáveis vezes. Se fosse fazer um filme começaria com essa cena e colocaria, lado a lado, o avô real e avô jovem. As duas imagens, presente e passado, me divertiam, eliminei o tempo. O jovem que chegou em 1957, viveu um bom tempo para que os dois meninos pudessem existir e descer aquela escada. Jornalista, alimentou sonhos, angústias, ambições, frustrações, dores, casou-se de novo, esteve próximo à morte, recuou, continuou a escrever.

Um dia, semanas atrás, recebi um convite da CPTM para uma viagem especial em um trem singular. A Pedro e Lucas será revelado, com o tempo, o mundo em que este avô cresceu. O de uma existência entre trens, criado em uma família de ferroviários, ouvindo apitos, sinos, o som da manivela do staff, vendo os faróis das locomotivas V-8 varrendo a penumbra das estações nas madrugadas, identificando o cheiro de trens a vapor, trens elétricos, a diesel e os ruídos familiares do telégrafo, tlim-tlim, assim como o barulho pesado dos engates ou a quentura das caldeiras.

A CPTM mal podia prever que o Expresso Turístico - ideia encantadora, humana - , uma locomotiva e dois vagões seria mágico, fantasia pura, assim como o Expresso Polar do cinema. Era esse mundo do passado, demolido por políticos sem visão de futuro, mas existente ainda na lembrança de milhares, que eu queria apresentar a Pedro e Lucas. Quando Ayrton Camargo e Silva e Márcia Borges da CPTM convidaram para uma viagem, jamais poderiam imaginar o encadeamento de situações que viriam, com o próprio avÔ se reencontrando. A entrada no vagão, a busca ansiosa das poltronas, a virada dos bancos para que todos ficassem frente a frente, os meninos disputando as janelas, em um dia de 2009, século 21, não passaram de repetição das cenas vividas pelo avÔ e bisavô na década de 40, século 20. O futuro sempre se encontra com o passado.

O trem lotado, como nos primeiros dias das férias ou nas datas festivas. O Expresso Turístico leva 180 pessoas. O ritual é reconstituído. Um apito e a resposta da locomotiva, o Expresso partiu lento. Os meninos correram pelo corredor, abriram janelas, colocaram as mãos para sentir o vento, subúrbios desfilaram, épocas se fundiam na cabeça do avô, voltavam à realidade quando os trilhos atravessavam favela que são milagres de construção. Como não despencam, construídas de madeiras frágeis?

As estações se sucederam. Vila Clarice, Lapa, Francisco Morato. O túnel chegou. Pedro e Lucas gritando, ''ficou noite, estamos no fundo do mar, a montanha engoliu, o mundo sumiu''. Os meninos de repente eram o avô dentro do trem. Há sensações que podem ser recuperadas e era isso que eu tentava fazer, retransmitir aos netos. Não para que vivam no passado, para que acrescentem outras emoções no presente. Estes vagões pertenceram à Estrada de Ferro Araraquara, EFA. Estremeci. Então vieram do Trem Prateado (não confundir como Expresso de Prata que ia para o Rio), que começou a correr no início dos anos 60. O trem é um sucesso, mais carros virão, outros trechos serão abertos, as burocracias são lentas na intermediação do público e do privado, mas felizmente, tem gente sonhadora por trás, para trazer fantasia a mundo racional.

O Expresso Turístico vai a Jundiaí em hora e meia. Parte de manhã, volta no final da tarde. Naquela cidade, na minha infância, trocava-se a locomotiva da Paulista pela da Estrada de Ferro Santos e Jundiaí e meu pai descia para comprar coxinhas. Na estação, os passageiros se dividiram. Uns preferiram o Circuito das Frutas, das uvas, figos, maçãs, ameixas, pêssegos. Outros partiram para restaurantes localizados em velhas fazendas de café, foram para pousadas, cantinas, adegas (há vinhos artesanais), ranchos, produtores de cogumelos, ervas e especiarias, cachaça, mel, suco de uva. Passagem obrigatória é o Museu da Companhia Paulista, organizadíssimo, reconstituindo o que foram as ferrovias, a Paulista era perfeição. Pois não está ali a imponente V-8, que era tão poderá?

Meu grupo foi para a Fazenda Nossa Senhora da Conceição que pertenceu ao Barão de Serra Negra. Os meninos forma passear de charrete, os adultos se deixaram levar pela monitora Márcia para os terreiros de secagem para os terreiros de secagem (na época áurea eram 350 mil cafeeiros), e ao porão da casa-grande, da senzala, do museu do café, da capela. No restaurante Maria Helena, comemos leito à pururuca, tutu de feijão, linguiça caseira, mandioca frita, truta com alcaparras, doce de leite, de mamão, de abóbora, ainda que Pedro e Lucas tenha preferido um sorvete industrializado, Ice Blue, que deixa a língua azul de metileno. Lembram-se? Era para a garganta. E se divertiram imenso. Épocas misturadas, o Expresso Turístico pode se chamar Viagem no Tempo. Movemos gavetinhas, a memória vai ao fundo, recolhe, volta, entrega, dispara, vem e vai.

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