Schumann correto, Mahler inspirado

Apresentação da Sinfônica Brasileira teve como ponto alto a Sinfonia Titã

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2008 | 00h00

Dizer que Jean-Louis Steuerman é um pianista competente é mera questão de justiça. Mas é preciso reconhecer que a sua interpretação do concerto de Schumann, no sábado, com Kurt Masur e a Orquestra Sinfônica Brasileira, não ultrapassou o limite do correto. Houve, decerto, passagens - em especial no segundo movimento - em que os resultados obtidos foram bonitos, elegantes, bem-sucedidos. Mas eles andaram lado a lado com alguns desencontros e atropelos solista/maestro, que tornaram a leitura desigual. Trazer, para um concerto que se anunciou "especial" uma peça que pertence ao que o repertório tem de mais batido, e fazer dela uma apresentação irregular, não significou um início muito auspicioso para o concerto de domingo. Houve, felizmente, uma segunda parte que justificou a ida à Sala São Paulo.Dentre as sinfonias de Gustav Mahler, a Titã é a mais executada entre nós. Mas a esta, pelo menos, Masur deu uma inflexão pessoal que a valorizou. Foi uma leitura cuidadosamente analítica, muito atenta às texturas camerísticas que, no primeiro movimento, sugerem os sons da natureza, antes da fanfarra que conduz à coda; ou aos detalhes da marcha fúnebre do terceiro movimento, construída de forma introspectiva, enfatizando a marcação de "feierlich und gemessen" (solene e comedido) feita por Mahler.Masur trabalhou muito bem os contrastes entre o tom de dança popular austríaca do segundo movimento, e a valsa lenta do trio; e entre o clima pré-expressionista da citação do Frère Jacques, no terceiro movimento, com suas alusões a banda de cidade pequena, e o episódio muito lírico baseado na citação de uma das peças dos Lieder Eines Fahrendes Gesellen. Mas, sobretudo, construiu com mão segura, no Finale, as três etapas do laborioso processo de passagem da sombra à luz, que culmina na gloriosa citação do contra-tema do Aleluia do Messias, combinado com a fanfarra sobre a reconquistada tonalidade de ré maior com que a sinfonia começou.

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