Schubert, um mistério a cada nota

O pianista Leif Ove Andsnes fala sobre o autor que interpreta hoje e amanhã

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2008 | 00h00

Na noite fria de sábado, a música da Sinfonia nº 9 ainda paira sobre o ar da Sala São Paulo enquanto o maestro Ira Levin fala sobre Franz Schubert. "É algo que talvez apenas a filosofia consiga explicar. O que faz daquela seqüência de notas algo tão bonito? Porque, no final das contas, é apenas isso: uma seqüência de notas. O caráter universal que elas têm, no entanto, nos fascina. Por quê? Há um mistério em Schubert difícil de definir." Coincidência ou acaso cuidadosamente programado pelos deuses da música, horas, antes, no começo da tarde, o pianista norueguês Leif Ove Andsnes enveredava pelo mesmo caminho. "Nada é claro em Schubert. Quer dizer, sua escrita é bastante clara. Mas há algo por trás dela e, quando você a toca, tem a sensação de que está no caminho certo até que, de repente, uma nota te tira do rumo e você começa a achar que a verdade está escondida em algum outro lugar - e que você apenas passou perto dela, sem conseguir entendê-la por completo", diz o pianista, que interpreta hoje e amanhã na Sala São Paulo a Sonata D. 958, a última do compositor, em recitais que têm ainda obras de Beethoven e Mussorgsky.Andsnes é um dos "grandes" do piano atual. Acaba de lançar o último de cinco discos dedicados a uma reinterpretação da obra de Schubert, nos quais interpreta suas sonatas intercaladas com algumas de suas principais canções (interpretadas pelo tenor Ian Bostridge). Ele conta que, mais do que redefinir a importância das peças do compositor, os álbuns são fruto da relação que ele desenvolveu com elas ao longo dos anos. "Com o tempo, essa verdade escondida das partituras de Schubert vai se revelando. E, quando você a atinge, entende como é profunda sua música, mais profunda que qualquer outra música. E bela, incrivelmente bela", diz. "Essa será a primeira vez que toco essa sonata ao lado da Sonata ao Luar, de Beethoven. Estou curioso para ver como elas se comportam juntas."Andsnes esteve no Brasil pela primeira vez no começo de 2001. Deveria ter voltado em 2005 para recitais pelo Mozarteum Brasileiro mas ficou doente e cancelou a viagem, que agora, enfim, realiza. Diz não conhecer muito de música brasileira mas, pelo contato com a música para piano de Villa-Lobos, diz ter a sensação de que há uma interessante tradição pianística no País. Conhece pianistas como Nelson Freire e Guiomar Novaes. Mas suas influências são Sviatoslav Richter, Dinu Lipatti, Geza Anda e Arturo Benedetti-Michelangeli. "Sempre me interessei por gravações. Na adolescência, Richter era para mim quase um ídolo pop, a honestidade e a personalidade de suas interpretações me fascinavam tanto que eu não conseguia ouvir outro pianista. Eu lembro de, nessa época, ouvir coisas do Horowitz e pensar: ?Isso é feio, superficial?. Mas o tempo faz maravilhas. E hoje eu entendo suas leituras e elas também me encantam. Ao longo dos anos, nosso gosto vai mudando e a maturidade permite olhar para outros intérpretes de outra maneira. Isso é fascinante. E esse contato com artistas do passado acabou por me dar a sensação de que pertenço a uma longa e genial tradição pianística, o que muda a percepção das coisas."A discografia de Andsnes tem os grandes pilares do repertório - os concertos de Rachmaninoff (com o maestro Antonio Pappano), Mozart, Schumann. E, claro, o norueguês Edvard Grieg. Seu Concerto para Piano está entre as mais populares obras do repertório, o que, de certa forma, relegou a segundo plano o resto de sua produção. Ele concorda? "Sim. Mas não tenho nada contra o concerto que, para mim, é prova de sua capacidade de escrever obras maiores. Porque o que acontece, no caso de Grieg, é que as pessoas o têm como um miniaturista, incapaz de escrever peças de maior fôlego. Além de não ser verdade, fico pensando: e qual o problema com suas miniaturas? Elas são incríveis. É só pensar nas canções ou nas peças para piano-solo." Em março, ele lança novo disco, dedicado a autores contemporâneos, com os concertos de Lutoslawski e Marc-André Dalbavie e peças para piano de Kurtág. "Sou um músico impaciente", brinca. "Não importa se a música é tonal ou não, busco nela um sentimento, uma densidade. Se não a encontro, descarto a peça." ServiçoLeif Ove Andsnes. Sala São Paulo (1.437 lug.). Praça Júlio Prestes, s/n.º, Luz, telefone 3223-3966. Hoje e amanhã, às 21 horas. R$ 50/R$ 130

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